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Começou a carreira no país natal e aí era já como se déssemos as boas vindas ao lado esdrúxulo do eterno “L’Enfant Terrible”, que custou ao Marselha o valor recorde em terras gaulesas e cujos campeonatos ganhos ao serviço da equipa do Sul de França abriram as portas da Europa a um jogador singular.

Estávamos prestes a conhecer o Génio e os seus antípodas. Na primeira emigração europeia, o Leeds United, que na altura esgrimia com os maiores clubes de Inglaterra, recebeu Cantona numa época de sonho, com o estreante a marcar 14 golos numa titularidade ganha a pulso. Ficou justificada a passagem para o outro United, o de Manchester, que com a hegemonia da década de 90 no bolso viu o chão sagrado de Old Trafford ser pisado pelo novo herdeiro do número mitológico que pertencera a Bobby Charlton e a George Best. A camisola 7 passou a ser de um dos maiores bons rebeldes da história do futebol, que se agigantou na Liga Inglesa com jogos fantásticos e golos que, de facto, foram do outro mundo. Nunca haverá outro nome que soe como o seu durante o relato de um locutor britânico, nem um sintoma de perigo como era o seu ao levantar a gola à entrada da área.

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Eric Cantona é um dos melhores jogadores da história do Manchester United Fonte: Soccerlens.com
Eric Cantona foi um dos melhores jogadores da história do Manchester United
Fonte: Soccerlens.com

O que sempre me fascinou em Cantona foi isto. A disposição para estar no futebol tal como se está noutro momento da vida, a teoria de que a espontaneidade anda de mão dada com a inspiração e a facilidade em canonizar o ídolo. Mas fala-se do talento. Há jogadores com a plenitude certa. Cantona, disse Ferguson, foi um dos quatro – e repito para as susceptibilidades: quatro – melhores jogadores com quem trabalhou durante toda a carreira. É essa plenitude que se traduz na qualidade em todos os momentos da partida, deixando, no caso de Cantona, a ideia de que quando não era eficaz tal se devia à sua própria vontade e não a outra adversidade comum. E ser Génio, às vezes, é isto mesmo: ceder a polarização dos actos, preterir a regra e a lei ao livre-arbítrio dentro de campo. Podemos falar do lado negro de um homem emotivo, simbolizado por uma agressão pelos ares a um adepto provocador, que lhe valeu um castigo não menos histórico do que a sua carreira.

Mas também podemos recuar no tempo até chegarmos ao dia em que o Manchester United jogou contra o Newcastle e Cantona sentou para a eternidade três jogadores no chão para chegar ao momento final e, colocando em suspenso todo o estádio, fazer a bola passar por cima do defesa em altruísmo em cima da linha de golo. Este, para mim, foi o melhor golo da história de Cantona. Depois há o outro, aquele em que é percorrido meio-campo com a bola e depois, à entrada da área, a bola em estilo de folha seca sobe e desce, telecomandada, até ao saco da baliza. Terá sido, porventura, ainda melhor do que o melhor golo que Cantona marcou.

Foto de Capa: EMPICS Sport

Artigo revisto por: Manuela Baptista Coelho

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