jogadoresqueadmiro

Tenho para mim que hoje em dia existe uma certa obsessão com futebol ofensivo. Os “melhores do mundo” são sempre aqueles que fazem mais golos, mais assistências ou que jogam o futebol mais bonito. Basta dar uma simples olhadela à lista dos melhores do mundo para a FIFA para chegar a essa conclusão. Fora Lothar Mathäus, no primeiro ano do prémio, e Fabio Cannavaro, em 2006, o cobiçado galardão só chegou às mãos de jogadores mais avançados ou construtivos. Finalistas mais defensivos houve muitos, desde defesas, trincos, laterais e até guarda-redes, mas o vencedor acaba quase sempre por ser o mais vistoso, o mais goleador, aquele com mais classe ou técnica.
Não é minha intenção afirmar que a FIFA está “errada” em seguir esta tendência, ou sequer lançar o debate sobre se um atacante de topo é automaticamente “superior” a um defesa ou guarda-redes de topo – ainda que o mercado de transferências pareça corroborar esta teoria. Até porque estas são discussões que envolvem uma miríade muito vasta de argumentos e contra-argumentos em que normalmente não se chega a conclusão alguma… mas vocês sabem do que estou a falar. Falo do facto de se venderem milhentas vezes mais camisolas do ponta-de-lança goleador do que do central que está há anos no clube e que só por acaso até é capitão de equipa. Falo do facto de todos se lembrarem daquela finta espectacular que o extremo fez – ainda que logo a seguir tenha perdido a bola -, mas ninguém se lembre daquele médio que anulou completamente a estrela da equipa adversária, ainda que pouco se tenha envolvido em jogadas de ataque.

“Uma vez mais, a Bola de Ouro deste ano será entregue a um avançado” Fonte – www.fifa.com
“Uma vez mais, a Bola de Ouro deste ano será entregue a um avançado”
Fonte – www.fifa.com

É claro que ter um ou dois jogadores no plantel que conseguem desbloquear um jogo com um lance individual de génio tem um valor inestimável. No entanto, acredito que há jogadores que podem não dar tanto nas vistas, que podem nem ter muito tempo de bola, mas que são fulcrais para a estrutura táctica de qualquer equipa que se quer vencedora e que, como tal, merecem mais destaque por parte dos “entendidos do futebol” da comunicação social desportiva. É por isso mesmo que aproveito esta oportunidade para prestar o meu tributo a um jogador que, ainda que de reconhecida qualidade, dificilmente figuraria numa qualquer lista para melhor do mundo. Alguém que carregou um certo piano italiano por muitos e bons anos. Golos poucos, fintas ainda menos, jogar bonito… está bem abelha. Cartões e faltas, aí sim, um verdadeiro campeão. Já devem ter uma ideia de quem estou a falar, certo?

Gennaro Ivan Gattuso, lenda do A.C. Milan, não atingiu esse estatuto por mera coincidência. Desde o momento em que chegou aos rossoneri em 1999 que Gattuso foi um exemplo excepcional de dedicação e amor às cores que acabou por defender por mais de uma década. Trinco de raiz, o número 8 da equipa de Milão era dono de um jogo duro e aguerrido, que tinha na agressividade a sua maior arma. Se a nível construtivo optava na maioria das vezes pelo passe curto e simples, no que toca a destruir jogo era praticamente imbatível. Gattuso era pesadelo dos avançados, carraça dos médios ofensivos, o terror de qualquer jogador que o visse a correr na sua direcção. Caceteiro? Um bocadinho, sim. É preciso saber fazer faltas para se jogar na posição mais recuada do meio-campo, e Gattuso era rei e senhor das ditas “faltas cirúrgicas”.

“Agressivo, destemido, aguerrido. Assim jogava o “gladiador” Gennaro Gattuso, que aqui desarma o português Cristiano Ronaldo” Fonte - http://www.wallpaperstop.com
“Agressivo, destemido, aguerrido. Assim jogava o “gladiador” Gennaro Gattuso, que aqui desarma o português Cristiano Ronaldo”
Fonte – http://www.wallpaperstop.com

Talvez seja só eu mas, para mim, ver Gattuso a jogar era tão “bonito” como ver uma finta de Messi ou um petardo de Ronaldo. Apelidado de Ringhio (grunhido) pelo seu estilo de jogo inconfundível, Gattuso era um jogador explosivo e determinado, com uma capacidade de resistência e força de vontade indomáveis. Tão depressa poderia ser expulso por uma entrada mais despropositada como foi rapaz para aguentar jogar os noventa minutos após ter feito uma rotura parcial do ligamento cruzado anterior. Pedra fundamental na táctica quer do A.C. Milan, quer na selecção italiana, Gattuso foi sem qualquer dúvida um dos melhores jogadores que já vi jogar na posição de trinco. As estatísticas falam por si: mais de 300 jogos ao serviço do A.C. Milan, 73 internacionalizações pela selecção italiana. Pelo meio, venceu 2 Campeonatos, 2 Supertaças, 2 Ligas dos Campeões e um Mundial. Poucos podem gabar-se de semelhante sucesso.

“Líder incontestável nos seus anos de “rossoneri”, Gattuso é ainda hoje um símbolo de dedicação no mundo do futebol” Fonte: http://forzaitalianfootball.com
“Líder incontestável nos seus anos de “rossoneri”, Gattuso é ainda hoje um símbolo de dedicação no mundo do futebol”
Fonte: http://forzaitalianfootball.com
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Sinónimo máximo de garra, dedicação, resistência, agressividade e também de alguns parafusos a menos, fruto de um temperamento algo volátil, Gattuso nunca virou a cara a desafios, e era sempre o último a desistir. Viveu os seus anos de futebol como ninguém e era um verdadeiro prazer vê-lo a desarmar todo e qualquer tipo de jogador, com aquela força e pujança infindáveis. Até pode estar actualmente envolvido em escândalos de resultados combinados – ainda estão por provar a veracidade das acusações – mas as grandes prestações a que habitou a comunidade futebolística, essas, ninguém lhas tira. E que falta fazem, hoje em dia, jogadores com este espírito competitivo no futebol moderno obcecado com malabarismos…

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