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Jogo Interior #12 – Treinadores vs. Destreinadores

Alcino Rodrigues · 4 min

Jogo Interior #12 – Treinadores vs. Destreinadores

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jogo interior

Há uns dias surgiu, numa pequena palestra de José Mourinho, na apresentação da pós-graduação de Treino de Alto Rendimento da Faculdade de Motricidade Humana, a ideia de que “não há treinadores bons, maus e assim-assim”; verdadeiramente “há os treinadores e os destreinadores. Estes são os que pioram os seus jogadores e as suas equipas”, diz o treinador do Chelsea. Disse isto e mais: “os destreinadores não têm o seu conhecimento? Têm e se calhar têm até demais. Não sabem é gerir esse conhecimento”.

É curiosa esta dicotomia lançada por Mourinho, pois, na minha opinião, é um mote que volta a lançar a discussão acerca da formação dos treinadores. Depois da formação formal, através dos cursos de treinador dos vários níveis e das acções de formação que vão sendo realizadas pelo país fora, para obtenção dos créditos necessários para renovação da cédula de treinador e que tanta polémica e discordância traz à tona, surge a formação informal, que é da responsabilidade e escolha do próprio treinador, mediante a motivação e a vontade de melhorar e aumentar a diversidade e a qualidade de conhecimentos.

Tenho um amigo que costuma dizer: “a diferença entre a teoria e a prática é que na prática a teoria é outra…” Uma afirmação carregada de alguma relatividade na medida em que o que estudamos e aprendemos na teoria pode não ser possível experimentar por completo, com todas as variáveis (ambiente, contexto, objectivo, intervenientes ou agentes) que foram possivelmente contempladas, e assim verificar as conclusões teorizadas. Mourinho considera que os aspectos mentais, no seu trabalho, são fundamentais e que tem necessidade de fazer uma reflexão diária e permanente sobre o seu trabalho e o dos jogadores. Dessa forma, o processo é imprevisível e é necessário ter uma grande capacidade de adaptação.

Muitas competências só podem ser adquiridas mediante experiência. Atrevo-me a dizer até que serão todas. Aprendermos algo implica fazer, errar, refazer, acertar, guardar. Tudo aquilo de que precisamos para sermos treinadores deverá ser sempre e constantemente posto em causa, reformulado, partilhado e recolhido, numa lógica de crescimento sequencial. Naquilo que entendo ser o conceito de destreinador, em oposição ao conceito de treinador, será alguém que, tal como Mourinho diz “tem os seus conhecimentos e se calhar até demais mas não sabe gerir esses conhecimentos”. Ele ainda afirma que “o treinador, antes de ser um gestor de recursos humanos, é um gestor dos seus próprios conhecimentos. É preciso ter a capacidade de usar a bagagem de conhecimentos no momento certo.” As circunstâncias, os contextos e os objectivos são dinâmicos, e esse é um problema dos destreinadores. A falta de capacidade de adaptação a vários factores, a incapacidade de ser original e criativo, saber improvisar de forma a lidar com as adversidades, a dificuldade em comunicar, leva a que os atletas sob a alçada destes destreinadores tenham a sua evolução comprometida. Seja em que escalão for, estes destreinadores têm a capacidade de indirectamente piorar o rendimento dos jogadores.

David Moyes, ex-treinador do Manchester United e do Everton
David Moyes, ex-treinador do Manchester United e do Everton

O treinador é o elemento principal que configura o processo de treino dos atletas, e desta forma, a sua relevância neste domínio é decisivo. A aptidão do treinador na criação de contextos favoráveis para a aprendizagem dos atletas é também um aspecto determinante no desenvolvimento dos mesmos. Os destreinadores, pelos exemplos que vou observando em várias modalidades, não estão muito preocupados com os seus jogadores. Focam-se principalmente em certificar-se se eles executam segundo as suas instruções, para obter os seus resultados e alimentar constantemente o seu ego. Normalmente são treinadores que saltam de clube em clube regularmente, não olham a meios para ter consigo jogadores que façam a diferença, são até capazes de ir às formações mas ou estão distraídos o tempo todo ou só lá vão assinar o ponto porque é obrigatório. Não lhes interessa ler, aprender ou ouvir mais coisas acerca da sua modalidade porque acham que aquilo que já sabem é suficiente e perfeito. Ficam satisfeitos em fazer o que fazem, da mesma forma que o faziam há anos.

Guimarães Rosa, um dos escritores brasileiros de todos os tempos, escreveu uma vez que “o animal satisfeito dorme”. Por trás desta pequena e óbvia afirmação reside um dos mais profundos alertas contra o risco de cairmos na pasmaceira existencial e na pobreza intelectual. Se a condição humana desperdiça matéria e energia vital todas as vezes em que se sente completamente confortável com a forma como as coisas já estão, subordinando-se à sedução do descanso e acomodação, então aquilo que fazemos, somos e temos, inclusive no papel de treinador, deve ser alvo de constante reflexão e percepção de que somos quer um serviço, quer um produto inacabado e imperfeito.

Destreinar é desonroso, ignóbil, estúpido, insensato e desprestigiante. Muitos destreinam a pensar que estão a treinar. Outros nem destreinar sabem pois nem consciência têm daquilo que estão a fazer…

Foto de capa: Facebook do Chelsea

Alcino Rodrigues

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