o passado tambem chuta

Era enorme e vestia de preto. Passou à História do futebol sem se despentear. Era a colocação e a inovação. As bolas não lhe fugiam das mãos. Lançava automaticamente a sua equipa lançando a bola com uma só mão. A área era sua; jogar com o pé, também. Tiveram de passar muitos anos até que os guarda-redes começassem a jogar adiantados; a tocar a bola com o pé além das esperadas e habituais mãos. Mas, tal como o Costa Pereira, era um desportista integral. Não só foi exímio nos campos de futebol; o Hóquei sobre gelo foi o seu primeiro desporto. Hoje, vivemos tempos nos quais só consideramos grandes os goleadores. Os restantes parece que não existem quando chega a hora dos reconhecimentos oficiais. No entanto, este homem da velha União Soviética que cresceu durante a época do conhecido Zé dos Bigodes ou José Estaline – ditador de triste memória – irrompeu na época dos Alfredo di Estéfano, Kopa, Luís Suares, Eusébio, Garrincha, Didi, Rivera e tantos outros como um jogador ímpar e todos souberam reconhecer a sua singularidade e a sua genialidade. Ganhou – até hoje o único guarda-redes que o conseguiu – a Bola de Ouro.

Yashin e Eusébio
Dois génios e dois amigos
Fonte: gloriososlb.tumblr.com

A vida fechada da velha União Soviética não permitiu que Europa e o Mundo se deleitassem em muitas ocasiões com o homem que vestia de preto, com a Aranha Negra. No entanto, a aparição das competições continentais a nível de seleções na década dos 1960 permitiu que este gigante se apoderasse da admiração de todos. Ganhou com a sua seleção o primeiro Campeonato Europeu e chegou à final do Campeonato que ganhou a Espanha de Luís Suares. Marcelino, avançado-centro galego que jogava no Saragoça, desempatou o jogo com um famoso golo marcado com a nuca. Jogou uma eternidade. Ultrapassou os 40 anos e no jogo da sua despedida o estádio fez-se pequeno para acolher tanta multidão.

Disputou quatro mundiais e num deles – o Campeonato de Inglaterra – disputou terceiro e quarto lugar com Portugal. Eusébio ganhou-lhe a final da consolação. Como é natural, na velha União Soviética ganhou tudo. Finalizou o espantoso número de cento e cinquenta penaltis. Manteve a sua baliza a zero em mais de duzentos e cinquentas jogos. Deixou registos que paralisam o estômago. O seu clube, Dínamo de Moscovo, não resistiu ao seu adeus. Passou de ser a equipa que ganhava tudo a ser a equipa que via ganhar. Lev Yashin era professor de educação física; portanto, tinha conhecimentos no campo do cuidado físico e pelos anos que durou é evidente que os tinha – mas se dizemos que o Aranha Negra, antes de cada jogo, fumava um cigarro para relaxar e bebia uma vodka para tonificar os músculos, a nossa “sabedoria” atual entra em estado de choque.

Lev Yashin
O voo da Aranha
Fonte: aldeiaolmpica.blogspot.com

Infelizmente, a vida, muitas vezes, veste-se da cabra. Este guarda-redes que ultrapassou limites e que foi reconhecido mundialmente viu como um problema de circulação provocou a amputação de uma perna. Anos mais tarde, outros problemas se somaram e acabou por falecer, perto do ano em que o mundo soviético se derrubou, sendo ainda bastante novo para desaparecer do mundo dos vivos. Foi um génio a defender e em como deve jogar um guarda-redes. Tal como ninguém discutia ou discute a genialidade do Garrincha, ninguém discutia ou discute a imensidão deste gigante que vestia de preto.

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