o passado tambem chuta

Era filho de um ferroviário angolano que emigrara para Moçambique e de uma moçambicana. Nasceu num bairro humilde de Maputo. As bolas feitas de qualquer coisa eram o seu brinquedo e de tantos outros. Um belo dia, já o Benfica andava pela Europa semeando assombração, salta uma notícia de estrondo: um jovem chamado Eusébio da Silva Ferreira está em Portugal custodiado pelo Benfica. O Sporting luta desesperadamente para que faça parte da sua equipa. Os jornais corriam à procura do esconderijo onde Eusébio se mantinha isolado.

Ninguém o encontrou até que o Benfica exibiu a sua contratação como se fosse um troféu. O Benfica, nesse ano de mistério à aventura de mercado, supera a sua maior conquista internacional; supera a Taça Latina e ganha a sua primeira Taça de Europa. Mal sabia o clube que tinha na recâmara os que seriam; conformariam a melhor ala esquerda que jamais vi sobre um campo de futebol: Eusébio e Simões. Um era o diabo e o outro era o diabo e meio. Eu era um miúdo que se sentava no velho estádio da Luz sempre que podia, entre uma claque conformada por membros da colónia galega e frequentadores habituais do bar do meu Pai, situado na velha Rua da Palma. Não sabia de futebol, sentia; não vislumbrava táticas, emocionava-me.

Vivia o futebol com o coração e os olhos esbugalhados quando via evoluir o Simões a enganar defesas inteiras e saltava orgasticamente quando a bola chegava aos pés do Eusébio e largava um chuto que nem sequer era engolido; era contado aos guarda-redes, algum tempo depois, como acontecera. Sentia-me um privilegiado e hoje tenho a consciência plena de que vi evoluir pelo relvado da Luz uma equipa ímpar e uns jogadores inenarráveis.

Entre as minhas recordações do Eusébio e de todo aquele elenco fantástico nem sequer está a segunda Taça de Europa; nem sequer está a famosa reviravolta no Campeonato do Mundo. Nada disso está gravado como o momento mais deslumbrante das emoções; das sensações que vivi no velho Estádio da Luz. Uma bela noite de Taça de Europa fui, no meio da claque que partia do bar do meu Pai, para o Estádio da Luz. O glorioso jogava uma eliminatória contra o Real Madrid. A enchente de público obrigara o Benfica a fazer uma bancada suplementar. Eu, no meio da minha claque, fui parar ao terceiro anel. Parecia que estava a ver para o relvado do céu. Era o mais miúdo; era o que só tinha coração; tocou-me ver o jogo de joelhos à frente do meu irmão.

Elevado aos píncaros / Fonte: derterrorist.blogs.sapo.pt
Elevado aos píncaros
Fonte: derterrorist.blogs.sapo.pt

Começou o jogo. O temor e respeito entre as duas equipas eram palpáveis. Mas começou o Simões; continuou o José Augusto e arrancou o Eusébio. Estádio de pé! Gritos; euforias, golos; golos, muitos. Cinco, foram cinco e já nem sei quantos marcou o Eusébio; e já não sei quantos remates provocaram um “ui” imenso entre adeptos e não adeptos. Eu permanecia de joelhos e não estava a rezar; estava de boca aberta e coração rubro depois de ver aquelas galopadas; aquelas mudanças de ritmo que escarrachavam a defesa do Real Madrid. O Eusébio andava à solta! Rematava e saltava no ar acompanhando o chuto e golo; golo; golo do Benfica; golo do Eusébio!

Nunca voltei a ver uma ala esquerda mais mortal e diabólica. Jamais vi um jogador, estando ou não bem fisicamente, chutar como chutava esta pérola moçambicana. Portugal nunca teve, até hoje, um jogador semelhante, e a Europa, o Mundo, como diz o seu amigo e adversário Alfredo di Stéfano, não teve outro jogador igual. Como amante do futebol sinto-me um afortunado porque pude deliciar-me com este gigante. Pude ver o melhor do melhor sobre o relvado dum campo de futebol. Eusébio: eras genialidade e a genialidade ultrapassa o tempo. Permaneces.

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