Iniciava-se mais uma temporada em Portugal. O Boavista FC parecia ter tudo alinhado para uma excelente época desportiva, depois de contratar Jesualdo Ferreira para treinador Principal, que, à imagem daquilo que é já característico no atual treinador do Santos FC, montou um plantel bastante interessante e prometedor.

Entrou pelos portões do Bessa um conjunto de jogadores com uma qualidade técnica considerável, jogadores esses que pareciam entender bem os momentos do jogo. Até se poderiam dizer já talhados para outros voos! Além de uma aposta clara no mercado de leste (como indicam as contratações dos polacos Rafał Grzelak, Przemyslaw Kazmierczak e Krzysztof Kazimierczak), existiu também uma forte influência centro-europeia, nomeadamente com as contratações do guarda-redes internacional do Liechtenstein Peter Jehle e do internacional Austríaco Roland Linz. Tempos em que as equipas Portuguesas fora do atual “top four” conseguiam ter internacionais por outros países nos seus plantéis…

No entanto, este alinhamento cedo se baralhou e começou a ruir como um castelo de cartas. Poucos dias antes da primeira jornada do campeonato, o FC Porto despede Co Adriaanse e decide contratar o então treinador axadrezado para a época 2006/2007. A passagem de Jesualdo pelo Bessa tinha sido residual. Ora, isto teve inúmeras consequências internas: condenou a pré-época da equipa do Bessa, esfriou as excelentes relações entre Boavista FC e FC Porto e originou uma perseguição/agressão a jornalistas, com episódios que em nada abonaram a favor da direção Boavisteira.

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Sem margem para grandes surpresas ou negociações, tendo em conta que estávamos a pouquíssimos dias do início do campeonato, surpreendia a pantera ao apresentar o treinador Montenegrino Zeljko Petrovic, um desconhecido de apenas 41 anos de idade e com uma curta carreira. No seu CV, constavam apenas as suas experiências de treinador adjunto no Feyenoord Rotterdam e de treinador principal na equipa sub 19 do RKC Waalwijk.

A escolha admirou os adeptos Portugueses e assustou os Boavisteiros, que olharam com bastante desconfiança para a opção do Presidente axadrezado. Mas ainda havia esperança. O plantel parecia ter qualidade e o discurso do novo treinador fazia antever um futebol ofensivo e atrativo. As suas primeiras conferências de imprensa causaram um impacto positivo, e, talvez por isso, a expectativa e o nervosismo eram grandes. Além dos nomes já mencionados, o plantel contava ainda com o mítico guarda redes William, com os experientes Ricardo Silva e Mário Silva, com o saudoso Lucas, os sobejamente conhecidos Zé Manel e Tiago, um jovem Nuno Pinto a despontar, Zairi apelidado de “Cristiano Ronaldo Marroquino” e o emblemático Fary Faye.

As duas primeiras jornadas da Primeira Liga não podiam ser testes mais difíceis à capacidade do treinador Montenegrino: deslocação a Alvalade e receção ao Sport Lisboa e Benfica. Foram exatamente esses dois jogos que, de repente, voltaram a deixar os adeptos do Boavista FC a achar que a mudança de treinador não os iria afastar da rota de sucesso que parecia estar destinada com Jesualdo Ferreira. A equipa perde 3-2 em Alvalade com uma grande exibição, e, na semana seguinte, no melhor jogo da época, bate o Sport Lisboa e Benfica por 3-0 no Bessa, com Roland Linz e a dupla polaca Rafał Grzelak – Przemyslaw Kazmierczak a “partirem a louça toda”.

O problema é que, depois destes dois jogos, a gasolina de um carro bem equipado terminou. Os resultados começam a não surgir e o treinador Montenegrino termina a sua participação em Portugal ao fim de apenas seis jogos, acumulando duas vitórias e saindo vergado a uma humilhante derrota por 4-0 com o CD Nacional. Tudo isto acaba por ditar o fim de linha para Zeljko Petrovic, dando lugar ao terceiro treinador da época – o salvador da pátria Jaime Pacheco.

Ao longo de toda a temporada, muitos problemas disciplinares assolaram o balneário preto e branco. Surgiram várias notícias de ex-jogadores e clubes a reclamar dívidas, bem como a denúncia dos ex-júniores ainda com contrato de que não eram pagos há anos, o que acabaria por culminar numa decisão diretiva de dispensar a maioria dos jogadores no final da época. O único ponto positivo desta gestão acaba por ser a forma como o Boavista FC contornou as limitações orçamentais decorrentes da construção do novo estádio, através de bons empréstimos e grandes contratações a custo zero.

Os jogos iam passando. A equipa parecia estar sem identidade, afetada pelos constantes problemas diretivos, parca em resultados e sem fazer minimamente jus ao espírito lutador e determinado que caracterizava as equipas Boavisteiras num passado recente. Era apenas uma equipa que permitia lançar e revelar alguns jogadores. Taticamente, manteve o 4-3-3, com três médios de cariz puramente defensivo e extremos especializados na arte de contra-atacar, mas que nunca asseguraram muitos golos.

Salvo algumas honrosas exceções, a qualidade exibicional era baixa para aquilo que o plantel parecia poder dar no início da temporada. A equipa era compacta e pouco elástica, sem processos de transição para ataque muito eficazes, e, por isso, chegavam ao golo através de lances de bola parada ou iniciativas individuais. Analisando a evolução da tabela classificativa, o Boavista FC andou quase sempre entre o décimo e o décimo segundo lugar. Algo bom para quem luta pela manutenção, mas manifestamente insuficiente para uma equipa que assumia o objetivo UEFA e que possuía o historial que os do Bessa vinham apresentando num passado recente.

A época axadrezada foi tremendamente irregular, e, desde muito cedo, deu para perceber que seria apenas uma questão de tempo até que as panteras deixassem de ter quaisquer ambições para além da manutenção (que nunca esteve em risco). Mas escondidos entre vários jogos tristes e descoloridos, encontram-se dois verdadeiros momentos de glória, ambos em casa.

O primeiro foi contra o Sport Lisboa e Benfica, que, para além de desmistificar a existência de uma super-equipa na Luz, após o regresso de Rui Costa, foi também a melhor exibição boavisteira da temporada, que poderia ter catapultado a equipa para uma grande época.

O outro momento alto foi contra o FC Porto, que confirmou uma pequena subida de forma axadrezada e relançou definitivamente um campeonato que até então parecia precocemente entregue.

Em ambos, o Boavista mostrou raça, entreajuda, classe e muita, muita qualidade individual. As exibições feitas intimidariam e fariam inveja a qualquer grande clube Europeu. Onde andou essa equipa no resto do campeonato?

Jogadores a destacar:

  1. Kazmierczak

O Boavista experimentou uma alteração na sua política de contratações, abandonando o imprevisível mercado Brasileiro para apostar na Europa central. Por causa disso, ganhou duas pérolas: Kaz e Linz. O Polaco demonstrou desde cedo qualidades individuais muito acima da média, apresentando-se como um trinco disciplinado taticamente e a nível temperamental, que impressionou tanto pela estampa física como pela qualidade do pé esquerdo. Apesar do destaque que conquistou, começou a temporada com exibições apenas razoáveis. Isto poderá ser explicado pela necessidade de adaptação ao futebol Português e por se encontrar a jogar numa posição mais adiantada, numa clara tentativa de tirar proveito das suas qualidades de construção e remate potente. Mas quando Jaime Pacheco o recuou para o lado de Tiago, a produção de Kaz subiu em flecha, à medida que se ia afirmando como âncora da equipa, exibindo os seus dotes de recuperador de jogo. Terminou a temporada com cinco golos – quase todos espetaculares – e apresentou uma regularidade exibicional impressionante, o que lhe valeu uma transferência para o FC Porto.

  1. Roland Linz

O Austríaco era um dos melhores ‘matadores’ em atividade no futebol português. No Áustria Viena, já tinha mostrado as suas qualidades, exibindo o chamado ‘killer instinct’. No futebol português (técnica e taticamente mais evoluído do que o Austríaco), teve de sofisticar os seus processos. Foi absolutamente preponderante e agradava a todos, o que lhe permitiu transferir-se para Braga no ano seguinte. Incompreensível, quanto a mim, é o facto de nenhum dos três grandes ter analisado corretamente o potencial de Linz, tendo em conta os parâmetros que se impunham: idade e qualidade do jogador, adaptação feita e absoluto estado de necessidade do Boavista.

Deceções: Zairi e Ricardo Sousa

As entusiasmantes contratações de Zairi, apelidado de “Cristiano Ronaldo Marroquino”, e de Ricardo Sousa, conceituado médio ofensivo que já contava com uma passagem de sucesso pelo Bessa, fracassaram. Zairi nunca foi opção e acabou por sair. Já o médio Português, sem fulgor físico e sem nunca demonstrar o mesmo rendimento que o levou à ribalta, acabou por ser preterido por Essame.

Este é claramente um exemplo de uma equipa que, naquele ano, podia ter sido grande. Podia se não existisse tanta instabilidade Diretiva, se não existissem tantos problemas financeiros, trocas de treinadores e jogadores desenquadrados com a realidade do clube. Foi uma época “perdida” e que devia ter servido de exemplo para os anos vindouros, o que acabou por não acontecer. Em 2019, Lito Vidigal é despedido do Boavista FC, que estava na nona posição, depois de ter sido invencível nas primeiras nove jornadas. A equipa do Bessa tem história e tem adeptos. É um nome mítico e apetecível no futebol Português, mas os constantes erros de gestão pagam-se caro e não permitem dar um passo em frente.

Bom isolamento!

Artigo revisto.