o passado tambem chuta

Del Piero é uma lenda e ainda está presente na retina dos espectadores. Deixou o futebol europeu há meia dúzia de meses no clube da sua vida, a Juventus, para rumar à Austrália e, agora, à Índia. No entanto, acontece que defendeu a camisola biaconera durante dezanove anos. Por isso, parece um jogador longínquo. Por isso, parece um jogador do presente. Tinha os dois pés. Possuía uma técnica primorosa. Tinha finta e imaginação. Rematava as faltas com a precisão dos predestinados. Antes dos vinte e três anos arrebatou o Troféu Bravo, superando a esperança espanhola Emílio Butraguenho. A desolação que provocou em Espanha foi importante; o seu menino bonito, o seu menino educado, fora ultrapassado por um italiano.

E ganhou tudo; ganhou, inclusivamente, a Serie B italiana depois da queda e hecatombe da Juventus por problemas “misteriosos”. Venceu oito vezes a Seria A italiana. É fácil dizer ou escrever este dado, mas, se meditarmos, podemos assustar-nos. Não é fácil vencer quase metade dos campeonatos que se disputa. Foi Campeão de Europa. Foi Campeão Mundial com a seleção. Depois, com a idade, maravilhou o mundo com a forma como marcava as faltas. Não tinha posição ideal; todas as posições eram boas porque treinava as faltas desde todas as posições e ângulos. Até ao dia do seu adeus chutou a Itália marcou para dar vitórias ao seu clube.

Livres: uma das grandes especialidades de Del Piero  Fonte: fantasista10.co.uk
Livres: uma das grandes especialidades de Del Piero
Fonte: fantasista10.co.uk

Del Piero, ainda que admirado, careceu de alguns prémios individuais. Nunca ganhou uma Bola de Ouro. No entanto, era e é considerado entre os seus colegas como um dos grandes de sempre. Quero recordar que foi colega de um português que foi Campeão de Europa com o Juventus – Paulo Sousa, o geómetra – e foi membro destacado da geração do Luís Figo e do Rui Costa.

O Estádio do Real Madrid tem fama de exigente e sábio. O Real Madrid e a Juventus encontraram-se numa disputa durante o Campeonato de Europa. Del Piero marcou dois golos e foi determinante. O Estádio Santiago Bernabéu, em pé, aplaudiu a Del Piero. Poucos jogadores contrários tiveram esse privilégio, mas existe um trio sagrado de privilegiados: Maradona, Ronaldinho Gaúcho e Del Piero. O campo que viu evolucionar a Di Stéfano, Rial, Kopa, Didi ou Luís Figo quando tropeça com a excelência agradece e reconhece.

Podemos gostar ou não gostar da Liga Italiana, mas, fundamentalmente, é um campeonato muito difícil. Ganhar os campeonatos que Del Piero ganhou com a Juventus é epopeico; no entanto, disputar mais de quinhentos jogos com uma equipa do nível de exigência da Juventus e andar em todas as batalhas só os únicos, os grandes, os míticos o conseguem. Del Piero não só é um jogador mítico, foi flor que perfumou os campos de futebol.

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