O Passado Também Chuta: Fernando Cruz

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o passado tambem chuta

O Benfica da década dos 60 do século passado era composto por jogadores que entranhavam no coração dos adeptos. Os simpatizantes e sócios viam-nos aparecer e crescer, levados pela mão de Valdevieso, na “Ilha de Madeira” que ficava à sombra do Estádio José Alvalade. Era uma mina de talentos. Fazer uma lista significa esquecer-se de muitos e a memória daquele ninho de grandes jogadores não merece essa afronta. Sendo catraio vi desfilar naquele campo pelado jogadores que alimentaram não só o Benfica; nutriram o futebol de elite Português. Muitos daqueles garotos chegaram a internacionais mesmo não tendo podido vincar na primeira equipa do Benfica. Estou a lembrar-me do Mendes; do Guerreiro; do Arcanjo e de tantos outros que a tecla não os desce da memória. O Benfica era o Eusébio e Cia, mas, além da companhia notável que hoje estariam todos nas melhores equipas europeias, o Benfica era uma escola de futebol incomparável.

Chegado do Bairro da Liberdade apareceu aos dezasseis anos Fernando Cruz. Perto dos vinte anos estava às ordens do Bella Gutman. Pertencia por garra e talento à primeira equipa e viveu a Lenda da melhor equipa portuguesa de sempre desde o primeiro pontapé. Foi dos Magriços que entravam em todas as convocatórias ainda que o grande Hilário tivesse o crachá de titular. Mesmo assim e numa época onde não se somavam seleções como palitos, alinhou como titular pela Seleção Portuguesa onze vezes. Recordemos que um craque como o Germano não ultrapassou as vinte e quatro participações na seleção. Fernando Cruz, como os grandes que conheceram o futebol de rua e que mamou na escola benfiquista sabia jogar e foi titular no Benfica como médio-defensivo e como defesa-esquerdo.

Era um jogador técnico; sabia como se levava a bola nos pés; soube evolucionar as funções e criar espaços mais abrangentes e foi as costas; a retaguarda doutro mito incomparável tanto da formação benfiquista como daquela equipa irrepetível: António Simões. Estes tipos de jogadores não só eram queridos; eram mimados por todos porque eram conhecidos desde o berço da “Ilha da Madeira”. Aquele Benfica tinha o coração do tamanho do mundo, por isso, a gritaria entranhável que se dava no velho Estádio da Luz deu origem ao mito do Inferno da Luz.

Fernando Cruz com a camisola do Benfica Fonte: pesmitidelcalcio.com
Fernando Cruz com a camisola do Benfica
Fonte: pesmitidelcalcio.com

Morou durante onze épocas no Estádio da Luz e disfrutou com a camisola do Benfica colada ao corpo. Disputou cinco finais europeias (só o José Augusto e o Coluna o igualam.). É um bicampeão de Europa. Durante os onze anos ganhou sete campeonatos nacionais; três taças de Portugal e uma infinidade de troféus de Verão. O Benfica era reclamado e muito respeitado. Numa das homenagens que recebeu o Eusébio chamou a atenção para a sua qualidade técnica. E era, durante o jogo, muito racional. E sabia dar o toque “malandro” quando necessário. O seu espaço estava guardado e seguro.

Depois de abandonar o Benfica ainda jogou no Paris Saint-Germain. Dias passados, quando contemplei uma fotografia do Fernando Cruz ao lado do Simões, do Hilário, do José Augusto e de familiares de alguns Magriços no Estádio da Luz, voei ao passado e revivi aquele Estádio a sonhar e atronar.

José Luís Montero
José Luís Montero
Poeta de profissão, José simpatiza com o Oriental e com o Sangalhos.                                                                                                                                                 O José não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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