Corria o mês de Maio do ano de 1978. No Brasil, mais especificamente no estado do Rio de Janeiro, nascia aquele que, num longínquo futuro, marcaria uma era no futebol nacional. O seu nome? Helton da Silva Arruda.

Falar do antigo guardião do FC Porto é falar não só de um jogador de futebol; é falar de um enormíssimo ser humano, alguém que se guiava pelo respeito e pela humildade, dentro e fora dos relvados, e de alguém que conquistou, para além do carinho da gente azul e branca, um enorme respeito e admiração também entre os adeptos adversários.

Porém, a sua história no futebol começa bem antes do Estádio do Dragão… Aliás, bem antes, até de São Januário.

O primeiro capítulo da história do pequeno Helton começa no futsal, longe das balizas, curiosamente. Em São Gonçalo, mais precisamente no bairro de Alcântara, o amor pela bola começou mais próximo do seu pé direito, contudo, seja por ação do destino, seja por “preguiça de correr”, como o próprio afirma, Helton foi aproximando-se cada vez mais das redes.

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E cedo se percebeu que o lugar deste “garoto” seria entre os postes, posição onde começou a gerar olhares de interesse entre os grandes do Rio, nomeadamente tricolores e rubro-negros, olhares esses que acabariam por se materializar em convites para que este ingressasse nas suas camadas mais jovens.

Devido à distância significativa que separava a casa de Helton do centro de treinos do Fluminense FC, esta primeira sondagem teria sido recusada; por outro lado, a proposta do CR Flamengo soava mais atrativa.

Tudo parecia encaminhado para que o promissor guarda-redes vestisse de preto e vermelho, até que a grande pedra no sapato da sua carreira surge: uma queda de uma árvore acarretaria um coma que o forçava a um longo período de recuperação.

Mais de um ano após este infortúnio, e por conta da enorme vontade que este demonstrara para voltar a praticar o desporto que amava, Helton conseguiu dar a volta por cima, desta vez afiliando-se às escolas de formação do São Cristóvão FR, clube que o catapultaria, definitivamente, para um grande do futebol carioca. Tal haveria de acontecer no ano de 1995, num jogo em que Helton e companhia defrontariam o Gigante da Colina, o CR Vasco da Gama.

Na noite anterior ao encontro, fortes chuvas caíram sobre o Rio de Janeiro. Por ironia do destino, os dois únicos “goleiros” do São Cristóvão FR não haviam conseguido chegar ao local onde se realizaria o encontro, abrindo assim uma oportunidade para que Helton, à data, lateral direito, assumisse a camisola um.

Uma exibição apenas bastou para que olheiros do emblema cruzmaltino o encaminhassem para São Januário, casa do gigante brasileiro. Aí, o guardião completaria a sua formação e assinaria o seu primeiro contrato profissional.

Mas a grande oportunidade acabaria por surgir em 1999, em vésperas do recém-criado Mundial de Clubes da FIFA. Carlos Germano, guardião titular da equipa, passava por alguns conflitos em termos contratuais com o clube; tais problemas abriram as portas para que jogadores mais jovens, como Helton, tivessem espaço para lutar pela titularidade. E nessa luta, Helton levou a melhor, sendo premiado com um lugar no onze inicial no campeonato do mundo de clubes que se disputou no início do ano seguinte.

Fonte: UEFA

A partir daí, as redes vascaínas ficaram sob sua guarda, numa passagem que haveria por se revelar vitoriosa: durante esse período, o clube conquistou o campeonato brasileiro, a Copa Mercosul (num jogo que vale a pena rever), dentre outros títulos menores.

Em finais de 2002, o seu vínculo contratual com o emblema brasileiro chegaria ao fim e Helton cruzaria o Atlântico para rubricar contrato com a UD Leiria.

Em terras portuguesas, o guarda-redes cedo mostrou ao que vinha e conseguiu conquistar o seu espaço com certa rapidez em Leiria. Ainda na época 2002/03 e sob o comando técnico de Manuel Cajuda, a União de Leiria protagonizou uma campanha excecional, sendo quinta classificada no campeonato e finalista vencida no Jamor, precisamente pelo FC Porto.

Nas duas épocas que se seguiram, não mais a equipa da Beira Litoral conseguiu replicar os feitos de 02/03, voltando os seus objetivos de forma definitiva para a luta pela manutenção, objetivo que Helton e companhia cumpriram em ambas as temporadas.

2005 foi o ano do salto. O FC Porto vencia a corrida pela contratação do brasileiro e colocava-o à disposição de Co Adriaanse. O holandês optou, na maioria dos jogos, pela experiência de Vítor Baía, contudo, no final da época, Helton foi somando presenças no onze inicial, posto de onde quase nunca saiu nas próximas oito temporadas.

Nesse período, venceu títulos de todos os tipos, desde nacionais até internacionais, marcou presença na Copa América 2007, na qual o Brasil sagrou-se campeão, e consolidou-se como uma das figuras mais marcantes dos dragões no presente século.

Uma lesão grave contraída em Alvalade, em 2014, deixá-lo-ia de fora dos relvados por vários meses, sendo que, após concluir a sua recuperação, não mais conseguiu um lugar cativo na baliza portista, cumprindo o papel de suplente de Fabiano, num primeiro momento, e de Iker Casillas, na sua última época de dragão ao peito.
Hoje em dia tem 41 anos, é um amante de música, desenvolveu diversos projetos direcionados aos mais jovens e não se cansa de espalhar o seu carinho pelo FC Porto.

Artigo revisto por Inês Vieira Brandão