A quarentena continua, caros leitores. A ausência de temas de debate no seio futebolístico também permanece. A guerrilha entre clubes rivais (a todos os níveis) proveniente desde o gatinhar do desporto rei cessou a sua atividade. Não existem provocações e trocas de galhardetes, não há lugar para arrufos e diz-que-disses, a Justiça não age nem realiza sentenças, não se exerce o comentário sapiente das arbitragens duvidosas, não se verifica a mínima fenda para violência entre claques e a “arte” do vandalismo de estabelecimentos sofreu uma quebra abrupta. A situação caótica necessita de “futebolbounds”…

Assuma-se, portanto, que o futebol compõe uma série e que cada temporada se atribui uma designação diferente conforme a temática que lhe corresponde. Dos temas traçados, a minha preferência recai sobre as guerrilhas, desde que as mesmas não assombrem o meu clube. Nos outros, a situação tem o seu quê de graça e, com o devido acompanhamento e refresco, podemos passar tardes e serões de modo alegre. Nessa temporada do futebol português constam inúmeros episódios cobertos de irrisórias passagens e momentos que lançam a perplexidade de uns e a inquietação e fúria noutros.

Provavelmente existirá algum benfiquista a ler este texto e a pensar “estes sportinguistas não param de pensar em nós. Incomodamos muita gente. Mal o futebol surge como tema de conversa, o nome do glorioso vem à baila”: Arthur Conan Doyle criou Watson para acompanhar Sherlock Holmes e não para andar atrás de si próprio, portanto, caro rival, cure essa mania da perseguição.

Anúncio Publicitário

Evidentemente, saliento o melhor: a permuta de João Vieira Pinto, do Sport Lisboa e Benfica para o Sporting Clube de Portugal. Melhor! Da Luz para o desemprego, do desemprego para o Euro 2000 e da competição para Alvalade. Não convém queimar etapas no processo até porque esse facto contribuiria para a desinformação de quem acompanha religiosamente o jornal.

Um dos Meninos de Ouro, uma das birras de Vale e Azevedo e um dossiê gerido com pinças não esterilizadas. A crise financeira ergue-se como desculpa, esquece-se a gestão danosa. Entre Heynckes e João Vieira Pinto, a seleção não primou a lógica, a vontade dos benfiquistas e o interesse do jogador. Um dos filhos do Verão Quente foi chacinado, o chefe dos marujos do navio benfiquista foi empurrado pelo capitão com perna de pau e olho de vidro. Caso contrário, os confrontos com Paulinho Santos permaneciam. Aproveitou quem, à data, tinha as garras mais afiadas…

João Pinto
O Grande Artista vestiu a camisola dos dois grandes de Lisboa, deixando saudades em ambos os lados da 2ª Circular
Fonte: SL Benfica

Verão de 2000: Dias da Cunha, o herói improvável, convenceu o avançado a envergar as cores do leão. Assinou, foi aposta e rapidamente conquistou a confiança e o carinho do clã verde e branco. A missão assentava na renovação do título de campeão nacional com direito a ingresso na Liga dos Campeões. Sabia-se, desde o momento da oficialização do contrato, quem ocupava a pole position. A qualidade era inquestionável, as exibições portentosas na sua grande maioria, os golos brotavam com alguma espontaneidade, as assistências eram matéria lecionada com frequência. Mas, para infelicidade sportinguista, não chegou para cumprir a missão.

O ano seguinte cumpriu o quarto requisito escrito no epitáfio do clube: a glória. A chegada de Mário Jardel a Lisboa exultou a massa adepta, mas essa histeria necessitava comprovação e justificação no seio das quatro linhas. Não bastava ter duas glórias de clubes rivais para reservar o título antecipadamente. E foi assim que aconteceu! Os dois avançados representavam a metáfora perfeita de pai e filho: João Vieira Pinto proporcionava a Jardel não só o suficiente como o necessário: a labuta semanal e incansável permitia que Jardel pudesse auferir do pão que ao Sporting urgia comer e a inteligência e qualidade técnica possibilitou outorgar ao “Super Mário” a capacidade de resolver como ordenava a tarja presente nas bancadas. Não era do Guaraná, Jardel, era dos cruzamentos do João Pinto! Além disto, golos, muitos golos, muitos rins partidos, muitos passes telecomandados, muita visão de jogo, um pé direito de ouro, um pé esquerdo de prata e uma cabeça de diamante.

Seguiram-se mais dois anos de leão ao peito sem sucesso, mas com a mesma dedicação e a mesma devoção. Pelo menos, transparecia. Mas, o “Grande Artista” estava em queda livre, facto deduzido pela perda de peças fulcrais na manutenção dos objetivos, de alguma ambição e da capacidade de finalização dos avançados, obrigando-o a assumir uma dupla-função: a de assistência e a de finalização. Salvou-se a atitude em campo e os pezinhos de lã…

Saliento algo que sempre considerei ser altamente louvável: o profissionalismo e a resposta às más línguas que, em algum momento, o quiseram derrubar, a resposta dada no campo, o facto de mostrar a quem o calcou que não estava nem um bocadinho amarrotado. Sem dúvida, um jogador que se superiorizou a tudo o resto, ao compêndio extrafutebol. Contudo, a polémica estalava sempre a seu lado. Relembre-se o penalty nas Antas em 2002, tema de conversa distendido de cafés a portas de catedrais religiosas. Relembrem-se as expulsões e o temperamento facilmente inflamável (a agressão a um árbitro no Mundial de 2002, trocas de carinho com Secretário, etc). Nódoas no currículo todos as têm, não é?

Éramos felizes com João Vieira Pinto e sabíamos disso.

Fonte: Seleções de Portugal

Artigo revisto por Diogo Teixeira