o passado tambem chuta

Talvez se perguntem porque ainda não escrevi sobre jogadores como o Humberto Coelho ou o Luís Figo. Também não escrevi sobre craques como Michel Platini; nem sobre o José Henrique, o Damas ou o Pujol. É simples: a não ser o José Henrique, os outros foram grandes jogadores; jogadores de memória, mas ainda não tocaram na varinha mágica que me faz escrever. Normalmente, escrevo sobre as lendas que por algum motivo me tocaram ou me fizeram vibrar. E o José Henriques fez-me vibrar e, depois da saída do lendário Costa Pereira, foi o primeiro guarda-redes do Benfica que me fez sentir seguro. Adorava o Melo. Conhecia-o desde os juniores e da rivalidade que mantinha com o excelente Rui do FC do Porto nas seleções inferiores.

Eu era do Melo, mas também sabia que o Rui era um excelente guarda-redes. Tinha mais corpo; era completo; era sério na baliza. Mas, o Melo, quando teve a prova dos nove na primeira equipa do Benfica, teve um dia que o marcou: o famoso dia do São Lourenço. Lourenço, avançado-centro do Sporting, marcou-lhe três golos num dérbi; um deles foi um belo e falado chapéu. E desapareceu da primeira equipa; mais tarde, alinhou pela Académica de Coimbra, onde fez excelentes épocas e tapou o vazio deixado pelo dr. Maló. Portugal, naquela época, tinha grandes guarda-redes, e não só o Porto, o Sporting ou o Benfica.

Não era conhecido. Regressou ao Benfica depois de andar alguns anos a endurecer pelo Amora, pelo Seixal e pelo Atlético, onde se notabilizou. Era um guarda-redes para o Benfica que passara despercebido nas camadas inferiores. Hoje, acontece-lhe o mesmo. Fala-se do Bento, do Preud`homme, mas, do José Henriques, nem um ligeiro sopro. Não era pior; era melhor; era o Zé Gato. As bancadas do velho Estádio da Luz sentiram-se aliviadas quando se apropriou da baliza do Costa Pereira. Começou no Arrentela e depois no ano 1959 veio para os juniores do Benfica, onde foi companheiro do Simões.

Teve rivalidade fora do Benfica. Depois de poucos meses, desalojou o Nascimento e fez-se com a baliza por uma década. A rivalidade morava no Estádio José Alvalade. Vítor Damas era referência no futebol português e um ídolo em Alvalade. A camisa da seleção era muito cara. Mas José Henriques agigantava-se e consolidava-se como um guarda-redes com vastos recursos. Não era muito alto para a posição; no entanto, tinha a garra e o poder de salto para ir lá acima socar as bolas com poder. A seleção abriu-se e rendeu-se. Lembro-me de um jogo contra Inglaterra onde o Zé Gato voou e socou bolas até à extenuação. Depois do jogo, soube-se que jogara os últimos minutos do desafio lesionado numa mão. Numa das saídas impactara com o punho numa cabeça e ficara magoado. Essa exibição foi uma das muitas que fizeram empolgar os adeptos. Jogou-se no Brasil uma mini-Taça do Mundo. Zé Henriques defendeu tudo e atemorizou os sonhos dos contrários. Portugal jogou a final do torneio com o Brasil e não havia bola que passasse; no entanto, perto do fim do jogo, Jairzinho conseguiu marcar e Portugal foi vice-campeão. O campo do Ajax viu uma das mais célebres exibições do José Henriques. O Benfica venceu esse jogo e o grande craque do jogo foi o Zé Gato.

Era felino; arrojado; uns reflexos prodigiosos e também socava. Ganhou a nível nacional muitos campeonatos; taças; disputou um final da Taça da Europa. Foi grande. É grande. Saiu do seu Benfica em 1979 e ainda fez grandes jogos no Nacional. Despediu-se no Sporting da Covilhã. Agora, ocupa-se das camadas jovens da formação benfiquista. Transmite o seu saber, o seu querer e a sua grande qualidade humana.

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