o passado tambem chuta

O meu Pai, conhecido por José Ilha, era sportinguista. Falava-me de Azevedo; Jesus Correia; Vasques; Peyroteo; Travassos e Albano. Mais tarde, conheci de vista um tal Manolo e rezava a lenda que era muito bom, mas tivera o azar de estar tapado pelo grande Albano. Este Sporting entrou na lenda e na mitologia do futebol português. Na época dos contos paternos sobre o seu Sporting vivia-se a irrupção do Eusébio no futebol português. O meu Pai, orgulhoso do seu clube e admirador do Travassos, dizia-me: ”tal como o Eusébio, o Travassos também foi raptado e escondido. O Porto queria ficar com ele e levou-o para o norte; escondeu-o porque o rapaz era leão. Davam-lhe muito dinheiro e emprego, mas o Travassos conseguiu enganá-los; regressou a casa dos pais e assinou logo pelo Sporting. Também lhe deu muito dinheiro e montou-lhe um negócio com outro violino; com o Vasques: a Cofril que se dedica ainda hoje aos frigoríficos”.

Nesse tempo, muitos futebolistas praticavam várias modalidades. O Travassos não era um desses e, na CUF, clube onde se estreou sendo bem menor de idade, praticava, além do futebol, o atletismo. Era um grande velocista e chegou a fazer os cem metros em onze segundos. Mas, o futebol é o futebol e ganhou a partida. Fazendo, finalmente, parte do Sporting Clube de Portugal chegou a hora da estreia. Chegou a hora de enfrentar o máximo rival: Sport Lisboa e Benfica. Batia à porta a época 46/47. José Travassos fez nada mais, nada menos do que três golos; o Benfica saiu com a pesada carga de 6-I. A seleção não se fez esperar; realizou trinta e seis jogos e corria o ano I955 quando recebeu um telefonema que encolhe e não deixa acreditar: estava convocado para defender a Seleção de Europa contra Inglaterra. A Federação inglesa comemorava o seu septuagésimo quinto aniversário.

O "Zé da Europa" era um dos "cinco violinos"  Fonte: novafloresta.blogspot.com
O “Zé da Europa” era um dos “cinco violinos”
Fonte: novafloresta.blogspot.com

O meu Pai relatava a convocatória pela Seleção de Europa como se tratasse de um feito próprio de um génio: ”jogou pela Seleção de Europa; foi o primeiro português a jogar com os melhores jogadores de Europa e não só jogou, como fez um grande jogo e depois deu-se ao luxo de criticar o comportamento de estrelas como Kopa e do Puskas. Quando regressou foi aclamado e automaticamente lhe puseram um nome especial: Zé da Europa. Era um centrocampista resistente que metia a bola para um companheiro pelo cu da agulha. Era fino e marcava grandes golos; um deles chama-se «roda de moinho»”.

O Zé da Europa ganhou mais de dez títulos com o Sporting, sendo oito deles campeonatos nacionais. O Sporting jamais teve tanta glória e jamais forjou tanta lenda. Hoje não se pode ver o Sporting sem ter em conta essa equipa fabulosa. O Sporting que venceu a velha Taça das Taças pode ser uma referência mas jamais terá a aura mítica que alcançou o Sporting dos cinco violinos comandados pelo José Travassos. As lesões produto da beligerância dos adversários foram uma constante; dos quatro meniscos, ficou sem três. Bateu o ano de I958 e disse adeus ao futebol. Nesse dia foi-se um dos quatro mitos do futebol português; primeiro foi o Azevedo; depois o Zé da Europa; seguidamente o Matateu e finalmente o Eusébio. Posteriormente, chegaram os Figos e os Ronaldos, mas esses não tiveram que passar além da Taprobana.

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