A brevidade da minha existência impacienta-me. E, sem a devida e consentida autorização, a jovialidade incorpora-se na alma que restringe a minha fuga à realidade, descaracterizando a vontade de apreciar o que de belo existe. Se dependesse exclusivamente de mim, o superavit existencial concedia-me uns 20/30 anos com o simples desígnio de vivenciar a divindade futebolística que é Krassimir Guenchev Balakov.

A ideologia que me acorrenta poderá estar próxima da estupidez, mas considero que o búlgaro se localiza no mesmo patamar de grandeza e virtuosismo de Luís Vaz de Camões: o centro campista, durante a passagem por Alvalade, escreveu uma verdadeira epopeia no seio das quatro linhas, estendendo-as de norte a sul do país e extrapolando-as para pontos bem conhecidos do globo terrestre, deliciando e “enlouquecendo” o público coagido pela quimera e pela fantasia das suas exibições.

A ausência de robustez física e a baixa estatura não constituíam um entrave à genialidade que o caracterizava. A visão de jogo era assídua e pontual, a capacidade de desmarcação dos colegas conferia-lhe virilidade e o protagonismo que adquiria maioritariamente, a excelência no trato de bola era notoriamente exagerada e a rapidez de execução suscitava náusea e repulsa por parte do setor mais recuado adversário.

Além disto, a sua magistralidade primava-se pela “simplicidade” com que delineava e orquestrava cada jogada, afinando e oleando a postura dos restantes dez companheiros que, por ele, resistiam e combatiam até à última gota de suor e derradeira amostra de sangue. A envergadura dos dois dígitos (número dez) assentou na perfeição. Classe, entrega, objetividade e precisão coordenam o registo do búlgaro mais acarinhado pela massa adepta leonina na diretriz do ideal leonino “Esforço, Dedicação, Devoção e Glória”.

Cingindo energias a factos e números: Krassimir Balakov alinhou em 168 partidas com a listada verde e branca, efetivando os seus pontapés fulminantes num total de 60 vezes. O cenário de guerra edifica-se diante da batalha: nas seis dezenas de golos marcados, o médio bombardeava as balizas adversas, preferencialmente a longas distâncias e de bola parada, onde a redondinha descrevia trajetórias já antes descritas por flechas incandescentes projetadas através de um arco na conquista e domínio do opositor.

Verdadeiro artista e maestro leonino
Fonte: Wiki Sporting

17 de outubro de 1992. A SIC era o canal de informação mais recente e orientou a transmissão do eterno derby: o Sporting Clube de Portugal defrontou o Sport Lisboa e Benfica, partida relativa à oitava jornada do campeonato referente a 1992/1993. Com Bobby Robson a comandar a armada verde e branca, a equipa leonina vence o encontro por 2-0. Contudo, o destaque centra-se em “Bala” (era assim designado): o pontapé de saída pertence ao Benfica e, em apenas 13 segundos, o Sporting consegue recuperar a redondinha e o maestro, absorvido pelo fumo e nevoeiro concentrados em Alvalade, remata de fora da área sem qualquer hipótese de defesa para Silvino. Exibição portentosa do médio que culminava numa assistência para finalização de Ivaylo Yordanov.

29 de agosto de 1993. A segunda jornada do Campeonato Nacional ditava o embate entre Setúbal e Sporting CP, dois históricos nacionais. A turma de Carlos Queiroz saiu vencedora pela margem mínima (2-3). Porém, o astro disfarçado de homem igualou o encontrou ao minuto 55: após mau passe do central sadino, Balakov rouba a bola e dribla, num primeiro movimento, dois adversários; imprime velocidade, ultrapassa o meio campo adversário e trivializa os centrais, ludibriando-os numa execução rápida e frutífera; após tamanho gesto, ainda serpenteia o guarda-redes e finaliza à boca da baliza. Maradona rendeu-se ao criativo e talentoso baixinho, Pelé bajulou os seus pés e Johan Cruyff acompanhou os dois astros numa vénia e num aplauso.

30 de abril de 1995. Estádio da Luz, jornada 30 do Campeonato Nacional. No reduto das águias, o Rei Leão afiou as garras e mostrou-as perante os milhares de espectadores. Uma vez mais, o búlgaro foi protagonista da partida, encerrando em si uma exibição de classe e um golo de “bradar aos céus”. Passo a explicar: Michael Preud`homme ao receber um passe de Dimas e, pressionado por Yordanov, erra o alvo e entrega a bola a “Bala”; ora, o cenário encheu-se de magia quando vê o guarda redes do Sport Lisboa e Benfica adiantado e, num gesto técnico aprimorado, faz sobrevoar a bola sobre o mesmo num remate soberbo. O resultado ditava 0-2 e a rendição dos corações leoninos era já total.

Três instantes numa história que teve o epílogo em cinco anos. As memórias permanecem vivas e acesas na alma de cada sportinguista que acompanhou cada passo do génio búlgaro e que teve o privilégio de ser “possuído” pelo mesmo, bradando o seu nome aos sete ventos sempre que as exibições fossem consideradas autênticas relíquias.

Krassimir Guenchev Balakov é o nome tatuado em milhões de adeptos. A sua história é contada de geração em geração pelo facto de ter capital importância na história do clube centenário. Sem margem para dúvidas que, sem ele, o Sporting Clube de Portugal perderia um talento com luz própria, um astro no meio do espaço celeste leonino.

Foto de Capa: Sporting CP

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