o passado tambem chuta

Argentina é tango e mais craques que estrelas no céu. Uma vez, a Argentina organizou um Campeonato do Mundo. O país vivia o trágico pesadelo da ditadura militar de Videla. Algum “cambalache” aconteceu para que Argentina conseguisse permanecer na prova, mas a Argentina também tinha um senhor craque chamado Mario Alberto Kempes. Apareceu para o futebol ao mesmo tempo que um centrocampista primoroso chamado Ardiles. Todo o mundo fala de Maradona e do Campeonato Mundial que alcançou, mas, como dizia Bocage: “antes do mundo ser mundo / e antes de haver adões / tinha o Luisinho preguinhos no fundo / com que rompia os calções”. E antes de Maradona existiu Mário Kempes “El Matador”.

Era uma bala a caminho da baliza contrária. Avançava com a bola nos pés e rematava de média e curta distância como os grandes. Era inteligente; sabia colocar-se; jogava sem bola. Veio para Espanha; vestiu a camisola do Valência e fez-se respeitar no campeonato espanhol como poucos o conseguiram até aos nossos dias. Não é preciso muito; hoje, este mundo da internet pode levar-nos à mais variada documentação da época e se procuramos veremos como Mario Kempes era considerado e temido pelos campos de Espanha. Por Espanha e Europa passaram craques argentinos da mais variada dimensão: desde o falecido Di Stéfano até ao atual Messi, passando por Omar Sivori, Kempes ou Maradona. A Argentina tem fornecido ao mundo futebolístico craques em todas as posições e para realçar uma delas que não é muito habitual mencionarei o guarda-redes Loco Gatti. A Argentina, hoje, encontra-se no cimo, novamente, a nível de seleções. Messi terá muito. No entanto, fintar como Messi fintava o português Simões e o futebol não foi inventado há meia-dúzia de anos.

Mario Kempes é uma das maiores figuras da história do Valência  Fonte: insidespanishfootball.com
Mario Kempes é uma das maiores figuras da história do Valência
Fonte: insidespanishfootball.com

Mario Kempes, além de campeão mundial em 1978 com a sua seleção, levou o Valência a ganhar uma Taça das Taças e uma Taça de Espanha e com o River Plate ganhou um campeonato argentino. É pouca coisa, mas a realidade económica dos clubes situa-os perante as oportunidades de alcançar ou não alcançar campeonatos sonoros e o clube onde mais durou Kempes, o Valência, nunca passou de um segunda fila com prestígio. O Real Madrid e o Barcelona, acompanhados a larga distância pelo Atlético de Madrid, foram no passado e são no presente os clubes que gozam do poder e da oportunidade de formar equipas que são autênticos caprichos.

Por todas estas circunstâncias, Mario Kempes, ainda que esquecido pela comunicação social, é ainda maior. Levar um Valencia a ganhar uma Taça das Taças não o faz qualquer um e conseguir o primeiro Campeonato do Mundo para Argentina é bastante mais difícil que atingir hoje o louro da imortalidade. Muitas vezes somos ingratos, mas a História sempre marca o caminho percorrido com pedras e mais tarde ou mais cedo tropeçamos com a complexidade do passado e com a sua verdadeira dimensão.

Anúncio Publicitário