29 de abril de 2012. Ainda hoje fica na memória como um dos dias mais negros da história do Futebol português. Numa situação precária a nível financeiro, a União Desportiva de Leiria vivia tempos muito delicados. Com quatro meses de salários em atraso, 16 jogadores do plantel optaram por avançar para uma rescisão coletiva dos contratos que os ligavam à SAD do clube.

Resultado? A equipa ficou reduzida a um conjunto de apenas oito atletas para alinhar no encontro da 28.º jornada da Liga, frente ao CD Feirense, no Estádio Municipal da Marinha Grande.

«A preparação dessa semana foi tranquila e levada com normalidade. Falou-se muito sobre o sucedido, mas pouco se soube acerca desse assunto. E até ao último momento – dia de jogo – todos nós no CD Feirense pensámos que íamos enfrentar 11 jogadores. Ninguém queria acreditar que esta situação iria mesmo acontecer». A revelação é de Miguel Assunção, guarda-redes de 27 anos que representa atualmente o Sertanense FC, mas que, na altura, se sentou no banco de suplentes do adversário, o CD Feirense.

As peripécias em torno deste jogo foram-se acumulando até ao momento do apito inicial. Poucas horas antes do jogo foi o próprio presidente da UD Leiria, nesse ano, João Bartolomeu, que deu início a nova polémica: «O presidente João Bartolomeu só apareceu ao intervalo a dizer que um dos seus jogadores tinha roubado uma mala com dinheiro. Na altura, falei com o nosso capitão, o Cris, que tinha jogado com o Keita na Académica. O Cris disse-me que não acreditava em nada daquilo. Revelou-me que o presidente da UD Leiria é que não era cumpridor e que deveriam existir mais motivos para se desconfiar dele do que do Keita. Lembro-me também de que na altura o Keita chorou depois deste caso. Sentia-se injustiçado…».

Sobre o jogo, a expectativa era muita, mas a verdade é que a UD Leiria acabou mesmo por não conseguir demover nenhum dos jogadores. Sobraram apenas oito: Jan Oblak, Pedro Almeida, Shaffer, Al-Hafith, John Ogu, Filipe Oliveira, Niklas Barkroth e Djaniny. Destes atletas, três pertenciam ao SL Benfica (Oblak, Shaffer e Barkroth), dois eram juniores (Pedro Almeida e Filipe Oliveira) e outros dois tinham rescindido, mas acabaram por voltar atrás com a decisão (Ogu e Al-Hafith). Acabaram por jogar apenas estes oito, para evitar que a equipa fosse automaticamente despromovida por não comparecer no encontro.

Jan Oblak esteve presente neste episódio insólito do futebol português
Fonte: UEFA

«No dia do jogo, quando saímos para aquecimento, percebemos que não havia adversário a aquecer. Até que a uns 20 minutos de começar o encontro saíram oito jogadores. Digamos que foi constrangedor para ambas as partes…». Miguel Assunção representava uma equipa que estava em dificuldades no campeonato e que precisava de ganhar para lutar pela manutenção. Por isso, para o adversário, era imperativo ganhar, independentemente do estado do adversário:

«O sentimento de todos os jogadores do CD Feirense foi muito mau. Mas, acima de tudo houve respeito pela situação. Fizemos o nosso trabalho e engane-se quem pensa que foi fácil. A UD Leiria abdicou do ataque, como era esperado, e montou uma muralha em frente da baliza. Foi complicado, mas lá conseguimos a vitória. Houve solidariedade e respeito para com os jogadores adversários. Todos perceberam o momento delicado, mas as equipas jogam para ganhar».

Miguel Assunção representa o Sertanense
Fonte: Miguel Assunção

O resultado acabou por ser o esperado: o CD Feirense goleou fora de casa por 4-0, com golos de Miguel Pedro (2x), Pedro Queirós e Bédi Buval. Mas a equipa fogaceira sentiu dificuldades para desbloquear a partida. Só no período de compensação da primeira parte é que o CD Feirense conseguiu fazer o primeiro golo do encontro e para isso muito contribuiu um jogador: Jan Oblak.

«Desde início, foi a maior barreira que suportou aqueles oito jogadores. Notava-se que tinha algo mais… Uma qualidade incrível! Fez várias defesas e percebia-se que tinha uma maturidade muito grande para um jovem. Recordo-me que, na altura, quando o jogo acabou dirigi-me a ele para o cumprimentar e dar-lhe os parabéns pela exibição e personalidade. O Oblak pediu-me que trocássemos de camisolas e ainda hoje tenho a camisola lá em casa. É uma das minhas melhores recordações».

A camisola trocada com Oblak está agora na casa de Miguel Assunção

Miguel Assunção era ainda um atleta com pouca experiência como profissional, já que tinha acabado de ser incluído no plantel de seniores. Era suplente de Paulo Lopes, guarda-redes a quem se refere como um “pai” no mundo desportivo.

Hoje tem 27 anos, joga no Campeonato de Portugal e já foi campeão desta divisão ao serviço do Real Sport Clube. Hoje guarda este triste episódio na memória e deixa um conselho para todos os jovens futebolistas que agora começam a dar os primeiros toques na bola: «Por vezes, o nosso trabalho e dedicação não chega, é preciso ter “a” oportunidade. A todos os jovens jogadores reforço que não desistam dos vossos sonhos. Não parem de sonhar e, em momento algum, deixem o trabalho de lado».

Agradecimentos ao Miguel Assunção pelos depoimentos

Foto de Capa: Liga Portugal

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