o passado tambem chuta

Foi há cerca de 86 anos atrás que se perdeu um dos nomes míticos do nosso futebol. José Manuel Soares, que ficou conhecido para a eternidade como Pepe, destacou-se pela sua técnica e capacidade goleadora numa época em que o futebol seria ainda bastante rudimentar comparativamente com o jogo que hoje em dia conhecemos. Foi na época de 1925/1926 que Pepe se estreou no único clube que representou, o Clube de Futebol “Os Belenenses”, clube fundado há apenas 6 anos pelo seu vizinho e ex-jogador do Sport Lisboa e do Sporting CP, Artur José Pereira.

Nascido numa humilde família de Belém, José Manuel Soares estreou-se com 18 anos pela equipa da Cruz de Cristo, num jogo frente ao Benfica onde após estar a perder por 4-1, o Belém acabou por fazer a remontada e vencer por 4×5, com um golo de grande penalidade apontado por… Pepe. De imediato se tornou popular para os adeptos do futebol, popularidade essa que viria a aumentar bastante como consequência dos seus desempenhos posteriores. Nas duas primeiras épocas de Pepe, o Belenenses venceu um Campeonato de Lisboa e um Campeonato de Portugal.

Pepe Fonte: http://www.lojaazul.osbelenenses.com
Pepe
Fonte: CF “Os Belenenses”

E não foi apenas no clube que mostrou o seu talento para o futebol. Em 1928 representou a seleção portuguesa na sua primeira competição internacional, os Jogos Olímpicos de Amesterdão, onde em três jogos apontou dois golos. Portugal havia de cair nos quartos-de-final, mas deixando uma boa imagem na competição. Haveria de jogar um total de 14 jogos pela nossa seleção, marcando por sete vezes. No seu clube, aquele que segundo os relatos era um jogador com uma excelente capacidade de drible, enorme velocidade e um remate fortíssimo, em apenas seis épocas (a última incompleta), venceu por três vezes o Campeonato de Lisboa e sagrou-se por duas vezes campeão nacional. Em todas as edições que disputou do Campeonato de Lisboa tornou-te no melhor marcador, com destaque para 36 golos apontados em 14 jogos na época de 1929/1930. Chegou a marcar dez (10!) golos em apenas um jogo, numa vitória por 12-1 do Belenenses sobre o Bom Sucesso, recorde que ainda perdura.

Pepe em jogo por Portugal contra a França, onde fez 2 golos Fonte: osbelenenses.com
Pepe em jogo por Portugal contra a França, onde fez dois golos
Fonte: CF “Os Belenenses”

O mais impressionante é pensar na juventude que tinha quando alcançou tudo isto, sendo que aos 23 anos de idade perdeu a sua vida. Naquela época, o futebol não era ainda profissionalizado, pelo que os jogadores tinham o seu emprego fora do futebol de modo a conseguirem o seu sustento. No dia 23 de outubro de 1931, saiu para o seu emprego levando uma lancheira com sandes de pão com chouriço preparadas pela sua mãe, para o seu almoço. Algum tempo após o almoço, Pepe começa a sentir-se mal acabando por ser transportando para o Hospital da Marinha onde acabaria por falecer, já no dia seguinte. Segundo o que se apurou naquela altura, este acidente ter-se-á devido ao facto de a sua mãe ao preparar a refeição ter confundido potassa com bicarbonato de sódio, o que levou ao envenenamento do capitão do Belenenses.

Funeral de Pepe Fonte: http://www.osbelenenses.com
Funeral de Pepe
Fonte: CF “Os Belenenses”
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A cidade de Lisboa e os amantes do futebol ficaram em choque com esta perda tão precoce, e foram cerca de 30 mil pessoas que marcaram presença no último adeus ao jogador. Pepe foi a primeira grande estrela do futebol português, à data uma modalidade em crescente afirmação e a dar os primeiros passos que viriam a resultar no seu profissionalismo e mediatismo que hoje conhecemos. O Belenenses era um clube que crescia a passos largos, conquistando com Pepe os primeiros títulos de campeão regional e nacional. Apenas poderemos supor e entrar no mundo dos “ses”, mas se esta tragédia não tivesse acontecido, até onde poderia ter ido este jogador, e que crescimento e quantos títulos mais poderia ter atingido o Belenenses?

Foto de Capa: CF “Os Belenenses”

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