o passado tambem chuta

Scirea. Líbero. Vencedor. Mestre. Todas as palavras têm sinónimos e há jogadores que são sinónimo de todas as palavras. A palavra líbero teve princípio e princípios. Existiu como aquele que dentro do Catenaccio ficava livre para ser o último defesa que varria toda a possibilidade atacante. Existiu como aquele quarto-defesa que saía com a bola controlada; jogava e era o primeiro organizador. Eram jogadores elegantes; técnicos; grande sentido posicional e grande capacidade tática. Scirea foi um destes líberos que fez escola de beleza e clarividência futebolística. Está entre os grandes da posição; está entre os cem grandes jogadores de sempre e em Itália é uma instituição tanto na Seleção como na Juventus.

Ganhou tudo; foi campeão de tudo. Não existiu campeonato que se negara à sua classe. Com a Juventus ganhou todas as competições que se disputaram na Europa; campeão da Europa; campeão da Taça da UEFA; campeão da Taça das Taças e como existia a Taça Intercontinental (Taça do Mundo de Clubes disputada entre o vencedor da Taça Libertadores e o Campeão de Europa) lá foi ele para elevá-la ao Olimpo italiano. Em Itália ganhou tanto que só um saco poderia transportar os seus troféus. Prefiro, para não assustar, dizer: ganhou sete campeonatos Italianos (além de duas Taças de Itália). Chegou 1982. A seleção italiana estava apurada. Scirea, o homem que manteve Baresi sentado no banco dos suplentes, estava selecionado.

Scirea é um dos melhores jogadores de sempre da Juve
Scirea é um dos melhores jogadores de sempre da Juve
Fonte: giornalettismo.com

Chegaram a Espanha depois de uma época complicada em Itália. O futebol italiano passara por um cúmulo de castigos pela corrupção. Enzo Berzot, o selecionador, conseguiu abstrair-se disso e conjuntar um bom número de craques. Transcreverei a equipa-tipo, porque nada dela se desperdiçava: Zoff; Bergomi, Gentile, Scirea e Collovati; Cabrini, Antognoni e Tardelli; Bruno Conti, Paolo Rossi e Graziani (Altobelli – suplente muito ativo; tecnicamente excelente e marcador do golo que desarmou a Alemanha). Itália tinha uma defesa comandada por Scirea com arte e engenho; tinha um meio-campo criativo, Antognoni, e combativo; depois, o seu ataque era letal e desbordante (Conti). Espanha recebeu-a com desconfiança. As estrelas chamavam-se Brasil (de Sócrates) e Argentina (de Maradona). Itália começou de forma desengonçada, no entanto, passou à fase que dava acesso às meias-finais. Tinha pelo caminho a Argentina. Gentile, amavelmente, secou Diego Armando Maradona. Itália teve pela frente o Brasil fantástico de Sócrates. A seleção “canarinha” precisava, unicamente, de empatar. Gentile, Cabrini; Zoff; Scirea; Dino Zoff e o inesquecível Paolo Rossi levaram o resultado, depois de vários empates, até ao 3-2. A maravilha daquele Mundial embarcou para o Brasil e Itália ficou, entre os presuntos de Jabugo, à espera da poderosa Alemanha.

Chega o dia ambicionado e Itália tinha no palco presidencial o Presidente da República Sandro Pertini. Era um velho simpático, que se deixou levar pelas emoções ao lado, do hoje desaparecido da cena política Juan Carlos. Itália não perdoou; quando Altobelli marcou o terceiro golo, o velho Pertini saltou e festejou no palco de autoridades como se fosse um rocker.

Scireia foi, talvez, nesse campeonato o líbero perfeito e a extensão do treinador Berzot. Seis anos depois, 1988, despediu-se da Juventus. Um ano depois, na Polónia, perdeu a vida num desastre de automóvel. Malogrou-se a sua preciosa vida, no entanto, a sua lenda perdura e ecoa no mundo do futebol.

Foto de Capa: Wikipedia

Comentários