o passado tambem chuta

Chamava-se Sócrates. Também foi político, mas, que se saiba, nunca esteve em Évora. A ditadura brasileira suspeitou dele; o mundo admirou-o; o Mundial de 1982 jogado em Espanha foi a sua grande confirmação, ainda que a seleção brasileira, praticando um futebol fascinante, tenha ficado pelo caminho. A Itália de Paolo Rossi ganhou apoiando-se em duas características: o oportunismo letal em frente à baliza e a consistência defensiva. Chorou-se a eliminação daquele Brasil. Não jogavam, maravilhavam. E o Sócrates, com a sua enorme estatura e um pé diminuto – 41 -, arquitetava o jogo daquela equipa de uma forma sublime. Era a elegância; bom toque; cabeça levantada; bola a correr para o companheiro mais bem situado.

Começou a jogar no Botafogo de Ribeirão Preto. Estudava Medicina. Treinava pouco, mas a sua imensa qualidade permitia-lhe esse luxo. Chegou a ganhar a Taça de São Paulo em disputa direta com o São Paulo. E marcava golos, ainda que fosse só um homem do meio-campo. Tocou à porta 1978. Os sinos do Corinthians tocaram em alvoroço a sua contratação. Acompanhado por Geraldão, também procedente do Botafogo de Ribeirão Preto, formou uma grande equipa. Ganhou depois de uma larga seca de títulos: o campeonato Paulista de 1979 e o bicampeonato brasileiro em 1982-83. O Timão ultrapassou fronteiras; a sua qualidade futebolística foi mencionada em todos os recantos.

Mas Sócrates não era um atleta. Fumava, bebia e fazia o que lhe apetecia. Dizia que se não tivesse vivido como viveu não seria um homem tão completo. Um dos seus biógrafos compara-o em genialidade com o universal Garrincha. Usava o calcanhar como recurso para o drible. Essa manha compensava a falta de apoio num pé pequeno em relação à estatura. Desconcertava. Lançou-se a fazer uma espécie de democracia direta no clube; o peso da palavra era igual desde um simples funcionário até ao Presidente.

Sócrates é um ídolo para os brasileiros Fonte: deviantart.net
Sócrates é um ídolo para os brasileiros
Fonte: deviantart.net

Aquela seleção que disputou o Mundial de 1982 tinha, entre outros, o famoso Pelé branco:  Zico. Tinha por lá o Eder, o Falcão, o Júnior. Foi uma equipa que sonhou sobre o relvado, mas que não se aproximou da coroa de louros. Já tarde Sócrates veio até a Itália para vestir as cores da Fiorentina. Não teve sorte ou o futebol italiano daqueles tempos não conjugava com o Doutor. Regressou ao Brasil, percorreu ainda diferentes clubes; no entanto, a sua época deslumbrante passara à Historia.

Depois de deambular, chegou a ser treinador, ator, músico. E continuou a viver, a ser quem era: alguém que não conjugava com o tradicional mundo de futebol. Morreu cedo. O mundo do futebol e não só rendeu-lhe tributo. Foi-se com a tenra idade de 57 anos. Entre os seus vários sobrenomes tinha um que o definia totalmente como jogador: o Calcanhar de Ouro. O dinamizador da Democracia Corintiana, apesar de não ser um atleta, não deixa de ser considerado um dos melhores jogadores de sempre.

Foto de Capa: Wikipedia

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