Escrevo palavrinhas sobre passados gloriosos. Nunca escrevi sonhos rotos; sonhos truncados; batalhas perdidas. Desilusões de carreira. Faço memória através da festa de despedida de Mário Coluna. Foi uma festa agradável como todas as festas. Reconhecia-se a carreira de um jogador que arribou ao Benfica na década dos anos 50 do século passado como avançado-centro e que brilhou internacionalmente como motor da equipa e acabou como quarto-defesa.

A seleção internacional que chegou a Portugal para ajudar nos aplausos de despedida era liderada pelo treinador Ladislao Kubala. Selecionou muitos craques. Entre todas as figuras internacionais estava o mago Luís Suares a jogar a defesa-direito, pelas necessidades do guião. Luís Suares também, desde a posição de defesa-direito e com muitos anos já de carreira, me maravilhou.

No elenco selecionado vinham muitos jogadores espanhóis. Mais de meia equipa eram jogadores que Kubala conhecia como selecionador espanhol. Um desses jogadores chamava-se Rodilla, era jovem e fazia furor na Liga espanhola, ao serviço do Celta de Vigo. Ladislao Kubala situara-o na condição de internacional e, como promessa que apontava alto, convocara-o para uma seleção internacional repleta de craques, que despediria um bicampeão europeu.

Rodilla fala da Festa a Mário Coluna como um ponto alto, muito alto. Estavam os melhores de Europa… diz com nostalgia e orgulho. Pertencia às camadas inferiores do Celta de Vigo. Jogara no grupo filial Gran Peña. Depois foi rodar para o Langreo em Asturias e voltou então ao seu clube do coração. Rodilla adaptou-se então a uma nova posição. Passou de ponta de lança para extremo-interior direito e de marcar golos passou a oferecê-los com magia e bonomia.

Regressou a casa e começou a galgar. É notório o seu valor e com ele disfrutam os adeptos, e aproveita-se o Celta de Vigo e a Seleção. Mas, o infortúnio da lesão bateu-lhe à porta. O quadríceps entrou na senda dos problemas e as necessidades do guião apontavam que Rodilla dever-se-ia infiltrar aos sábados para jogador os domingos. Mau negócio; mau resultado e muito mal correspondido pelo Presidente do Celta de Vigo. Rodilla permanece na História do Celta porque pertenceu ao primeiro Celta europeu. Não existe outro jogador saído do Celta que jogara numa seleção de Europa. Além disso, tinha muita qualidade.

Rodilla com a camisola do Celta de Vigo
Fonte: yojugueenelcelta.com

Relata que talvez fora mal aconselhado. A operação correu mal e não se recuperou; perdeu velocidade, mobilidade, agilidade. E chega o momento em que literalmente o Presidente António Vasquez lhe disse numa reunião – quando tinha a possibilidade de ir para o Saragoça -: não sais, nem jogas… O jogador nunca soube as razões da atitude presidencial. Esteve um ano sem jogar. A época 74/75 fechou a porta. Foi então para o Valhadolid também metido numa história pouco satisfatória e começou então o deambular pela decadência.

Rodilla comenta que se sente um bocado impedido de confirmar o seu voo de altitude. Não merecia o acompanhamento que teve durante a lesão e muito menos o tratamento presidencial que recebeu. Exige-se muita fidelidade; amor à camisola aos atletas; os jovens que nos fazem disfrutar, no entanto, muitas vezes, são tratados de forma muito inadequada. Goram-lhes os sonhos, as possibilidades e no mundo do futebol – já naquele tempo – arrebatam-lhes muito dinheiro. Os sócios ou adeptos nestas circunstâncias deveriam colocar-se incondicionalmente ao lado do jogador. São os jogadores que dão felicidade ao amante do futebol.

Foto de Capa: yojugueenelcelta.com

artigo revisto por: Ana Ferreira

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