o passado tambem chuta

Na crença popular, um fantasma mais não é do que a alma ou espírito de uma pessoa ou coisa, e pode manifestar-se no mundo dos vivos de variadas formas.

Penso nisto e não posso deixar de me recordar de Perugia Calcio e dos seus apaixonantes e leais adeptos, que durante décadas deram outro colorido aos jogos do Calcio.

Em 2010 o histórico Perugia desapareceu do mapa Fonte: wikipedia.org
Em 2010 o histórico Perugia desapareceu do mapa
Fonte: wikipedia.org

Fundado em 1905 sob a designação de A. C. Perugia, este histórico italiano nunca foi um clube de primeira linha, tão-pouco dotado de um palmarés recheado, tendo ascendido à Série A apenas na década de 70.

Um dos grandes feitos do clube remonta à temporada 1978-1979, quando se manteve invicto no campeonato, averbando 11 vitórias e 19 empates. No entanto, este incrível registo acabaria por ser insuficiente para se sagrar campeão pela primeira vez na sua história, terminando na segunda posição, logo atrás do AC Milan.

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A trajetória do Perugia ficou sempre marcada por uma grande oscilação entre os dois principais campeonatos, sendo que, após várias tentativas para regressar à Série A na década de 80, logrou obter o tão desejado regresso à elite do futebol transalpino em 1996, sob o comando do técnico de Giovanni Galeone.

A incrível massa associativa que lotava o Renato Curi nos bons velhos tempos Fonte: Wikipédia.org
A incrível massa associativa que lotava o Renato Curi nos bons velhos tempos
Fonte: Wikipédia.org

O clube sedimentava-se na primeira divisão e, em 2003, viria a conquistar o seu único título europeu, a extinta Taça Intertoto, juntamente com Villarreal e Schalke 04, numa competição que ficou marcada pelo seu invulgar formato, no qual se jogavam três finais, assegurando aos três vencedores o acesso à Taça UEFA (Liga Europa).

Não obstante os laivos de conquistas (sempre secundárias) e as qualificações para as competições europeias, e conhecido por fazer a “vida negra” aos grandes colossos, os ventos de mudança não tardavam a causar mossa: a grave crise económica que atingiu vários clubes de menor dimensão em Itália chegara ao histórico Perugia da pior maneira possível. A falência do clube seria decretada em 2005. Tudo foi feito para salvar o clube, desde a entrega de donativos por parte dos fiéis adeptos à alteração de nome, mas o fim anunciado parecia cada vez mais perto.

Em 2010, o Tribunal de Perugia declara a falência do clube, que falhava os compromissos financeiros para se poder inscrever na terceira divisão nacional naquele mesmo ano. O seu espírito de resiliência e o apoio incansável das suas gentes lançava nova cartada no verão de 2010, e o clube mudava uma vez mais o nome para A.S.D. Perugia Calcio, na tentativa de resgatar as épocas perdidas e lograr obter um novo começo, longe das dívidas que o asfixiavam lentamente.

Mas não havia volta a dar. No verão de 2011, já como Associazione Calcistica Perugia Calcio, os “Grifoni” competiram no último escalão do futebol italiano, sempre apoiados por uma pequena e devota legião de fãs, naquela que foi a última aparição de histórico emblema.

Hoje em dia, a cidade de Perugia permanece atónita e inconformada com o cruel e fatal destino do seu emblema maior, que tem no “Renato Curi” um monumento à memória de um passado recente, onde nos bons velhos tempos cerca de 30.000 devotos adeptos pintavam de vermelho e branco as bancadas de Itália.

Foto de Capa: GettyImages