o passado tambem chuta

A Escócia é uma nação milenar e parte integrante do Reino Unido. Conta-nos a história de que a sua formação enquanto país independente foi marcada por grandes disputas territoriais, desde as invasões romanas, à ocupação pelos Vikings, passando pelos confrontos com Inglaterra do temível Eduardo I.

É um país que abriga um legado histórico ímpar. O emblemático Castelo de Edimburgo, o kilt, traço marcante da cultura e identidade do país, o Whisky, o Festival de Edimburgo, o Monstro de Loch Ness, figura mitológica que preenche o imaginário de todos aqueles que visitam o Lago Ness, ou o célebre “O´Flower of Scotland” entoado por uma qualquer Gaita de Fole.

 Mais do que uma viagem ao período medieval, que apenas a sua capital, Edimburgo, pode proporcionar, é na rival e mais populosa cidade de Glasgow que se encontra o maior foco de rivalidade de toda a Escócia desde a segunda metade do séc. XIX.

Católicos de um lado, Protestantes do outro. Celtic Football Club e Rangers Football Club. Os dois principais, e maiores, clubes de toda a Escócia protagonizam um dos mais escaldantes, antigos e fervorosos derbys do planeta, conhecido por “The Old Firm” (A Velha Firma). Para muitos especialistas esta histórica partida de futebol é muito mais do que um jogo, é a maior rivalidade do mundo do futebol.

Anúncio Publicitário

Esta designação, pela qual é conhecido o derby de Glasgow, remonta ao tempo em que os dois clubes, por razões e interesses económicos combinaram empatar o jogo do título, forçando, assim, a realização de uma última e decisiva partida, beneficiando, desse modo, da receita de bilheteira extra.

Numa cidade fortemente marcada por intensas divergências culturais, étnicas e religiosas, rapidamente estas discordâncias se transferiram para o futebol. O clima de guerrilha, paixão, fanatismo e loucura que caracteriza o Old Firm concebeu-lhe uma aura eterna que arrebata gerações e gerações (os adeptos dos dois clubes disputam a condição de verdadeiros descendentes do povo Celta).

Uma rivalidade vibrante Fonte: autonomyscotland.org
Uma rivalidade vibrante
Fonte: autonomyscotland.org

Fundado em 1888 por imigrantes irlandeses católicos, o Celtic de Glasgow é o clube predileto dos escoceses, tendo milhares de adeptos irlandeses. No seu estádio, o Celtic Park, é comum verem-se bandeiras com o retrato do Papa João Paulo II.

Por seu turno, o Glasgow Rangers foi fundado em 1882, por membros ligados à monarquia inglesa e à igreja protestante, sendo que a esmagadora maioria dos seus adeptos são seguidores político-religiosos da Rainha Elizabeth II do Reino Unido, sendo visível no Ibrox Stadium várias bandeiras alusivas à Grã-Bretanha.

Os dois gigantes de Glasgow dominam e bipolarizam em larga escala o futebol escocês, só perdendo o título, excecionalmente, em determinadas épocas, para o Hearts, Aberdeen e Hibernians, que protagonizam o denominado “New Firm”.

A propósito, desde a longínqua temporada de 1984/1985, que um clube não se intromete na hegemonia de Rangers e Celtic. O último clube a alcançar o título de campeão foi o Aberdeen, treinado por um tal de Alex Ferguson.

No histórico de duelos entre estes dois clubes, o Rangers tem vantagem, averbando um total de 241 vitórias, contra 199 do seu rival Celtic.

O período mais negro da história do Old Firm deu-se em 2012 quando o Rangers desceu à quarta divisão do futebol escocês em virtude de uma grave crise financeira que assolou o clube, acabando por regressar à primeira divisão apenas esta temporada.

Num país onde o Golf se destaca como a principal atividade desportiva, e com um campeonato de futebol com pouca expressão e visibilidade, o Old Firm, por toda a história e carga simbólica que o caracteriza, é o derby mais intenso do futebol mundial, com uma rivalidade que vai muito além do tapete de jogo.

Artigo revisto por: Diana Martins

Foto de capa: futeboleuropeu.com.br