A Odisseia é um poema da era da Grécia Antiga que relata uma história de superação. Um dos clássicos da literatura que Homero ofereceu ao Mundo. Apesar da complexidade da obra, a mesma pode-se resumir no regresso de Ulisses à sua terra natal, Ítaca, depois da Guerra de Troia.
O guerreiro esteve presente nos 10 anos de conflito e tardou outros 10 anos a retornar a casa. Com a ajuda dos Deuses, Ulisses cumpriu a sua missão e regressou aos braços de Penélope. Um livro de obrigatória leitura, que nos ensina a não desistir dos nossos objetivos, pese embora as dificuldades que são impostas. São vários os livros da Literatura Clássica que nos apresentam uma história facilmente transportável para outros temas, com outros protagonistas, mas com a mesma lição no final.
No futebol, existem várias narrativas de superação, de cair ao ‘barro’ e voltar ainda mais forte, com jogadores/clubes a aprenderem com as dificuldades que lhes foram apresentadas. São as feridas que carregam, mas que, no fundo, também se tratam da própria história e memória.


O Málaga é uma dessas instituições que nos últimos anos conheceu todos os cenários: desde estar na fase a eliminar da Champions League até ir a Melilla jogar um encontro da Primera RFEF. São quase dois opostos, algo que não faz sentido algum no futebol profissional, quando uma instituição está praticamente destinada ao sucesso.
Contudo, a má gestão permite uma queda assim. O Málaga contou com um investimento do Sheik Abdullah Bin Nasser Al Thani, que conseguiu guiar os andaluzes ao sucesso, mas que mais tarde se desinteressou pela instituição, acabando mesmo por ser pelos próprios sócios, em 2020. O La Rosaleda deixara de ser um palco que recebia a festa do futebol, mas apenas desilusão atrás de desilusão. Hoje em dia, a equipa ainda é liderada por um administrador judicial (José María Muñoz), já que Al Thani continua a ser o proprietário do clube. Contudo, o qatari nada pode fazer no Málaga, nem mesmo aproximar-se das instalações do clube. A sua gestão danosa levou a que esteja em busca e captura e que o Ministério Público Espanhola defenda uma pena de prisão de 14 anos para si e para os seus filhos.
Dentro do campo, esta instabilidade também se fez notar. Em 2017/18, a primeira quebra, com a descida à La Liga 2. O conjunto tentou um regresso rápido, mas falhou. O que sucedeu? O Málaga passou a ser uma equipa de meio de tabela do segundo escalão, olhando mais vezes para baixo do que para cima. Se alguém contasse isto a um adepto do clube em 2012/13 (presença na Champions League), esta história seria considerada como surrealista e sem qualquer fundamento. Incrível como tudo muda numa questão de anos.


A descida aos infernos surgiu em 2023. O Málaga passara a ser oficialmente um conjunto de Primera RFEF, pisando as competições amadoras. Já tinha ocorrido no passado, mas a última vez remontava a 1992, data da sua refundação. Os boquerones atingiam o degredo, tal como sucede nos livros. O herói sempre chega a um ponto no qual está numa situação tão negativa, que não existe uma solução à vista. A diferença é que na literatura, o autor pode recorrer ao imaginário e criar soluções imprevisíveis. Na realidade, só o trabalho (e alguma sorte) permite a chegada ao sucesso.
O Málaga havia caído numa competição onde tinham estado outros históricos, na qual o Deportivo de La Coruña se encontrava ‘preso’. Curiosamente, são dois emblemas com histórias relativamente semelhantes, com muitos pontos em comum, apesar de tão distantes geograficamente. Voltaremos a fazer referência aos galegos no final do artigo.
A estrutura do Málaga decidiu contratar Loren Juarros para o cargo de diretor desportivo. O antigo defesa era um homem com muita experiência no norte de Espanha, mais precisamente na Real Sociedad, conjunto que serviu até 2018.


A primeira missão foi tentar o regresso de Sergio Pellicer, um treinador que conhecia bem a casa, ainda que também fizesse parte da trágica época de 2022/23. Loren Juarros entendeu que a solução para o projeto do Málaga não estava em investimentos, na compra de muitos jogadores, na exaltação dos feitos do passado. A realidade era dura: os blaquiazules eram uma equipa que estava num estrato semiprofissional e estavam longe de viver um bom período financeiro, muito pelo contrário. Era difícil de aceitar.
A direção desportiva decidiu então olhar para dentro, para a cidade, para os seus adeptos e para a sua formação. Quem poderia sentir maior frustração que quem tinha (e tem) o Málaga no coração?
Geralmente, no futebol espanhol, associamos a formação a conjuntos do norte, principalmente a Athletic e a Barcelona, sem descurar das canteras do Celta de Vigo e da Real Sociedad. Ao sul, assistimos à aposta do Real Bétis para contrariar esta tendência, acompanhado pelo Málaga, que recorreu aos ‘filhos da ruína’ (expressão genial criada pelo jornalista Miguel Quintana) para atingir os seus objetivos.


Loren Juarros sabia que a Primera RFEF poderia ser traiçoeira. Um mau ano, teria como consequência uma segunda época no terceiro escalão, um orçamento ainda menor. Para os ‘tubarões’, o semiprofissionalismo pode ser letal. O Málaga não falhou, ainda que não tenha conquistado a promoção direta. O grupo 2 tampouco era fácil. O Castellón conseguiu uma subida confortável, com um projeto liderado por Bob Voulgaris. O Córdoba ficara em segundo. Numa divsão norte-sul, os boquerones ficaram no terceiro posto e no playoff ultrapassaram a concorrência do Celta de Vigo B e do Gimnàstic Tarragona (que representa na perfeição uma instituição ‘presa’ na Primeera RFEF).
Alfonso Herrero, Einar Galilea, Jokin Gabilondo ou Genaro foram alguns dos heróis. Todavia, a cantera é que mereceu o aplauso. Dani Lorenzo, David Larrubia, Kevin Medina e Roberto Fernández foram absolutamente diferenciais. O ponta de lança mereceu a atenção inclusivamente do Braga que investiu sem medo mais de três milhões de euros no seu passe. O Málaga estava de volta ao profissionalismo e não se podia cair novamente, no risco de se transformar num clube elevador.
Sergio Pellicer foi elevado a herói e a confiança foi mantida. Aposta acertada. A turma do La Rosaleda realizou uma temporada sem sobressaltos em 2024/25, com um 16.º lugar, ainda longe de sonhar com o regresso à La Liga. O grande destaque? Antonio Cordero, extremo produto da academia, que acabou por dar o salto para o Newcastle. Quiçá o seu grande erro até ao momento. O jogador partiu para Inglaterra de maneira a viver um sonho, mas acabou cedido ao Westerlo e ao Cádiz, sem grande sucesso. O futuro ditará qual o destino do jogador apenas com 19 anos.


Voltemos ao La Rosaleda, onde Loren Juarros avançava para a sua terceira época como diretor desportivo, onde sabia que não poderia realizar investimentos elevados, algo já adotado como costume. Perderam-se algumas peças como Kevin Medina, Nélson Monte ou o já citado Antonio Cordero. Chegaram nomes que conheciam bem o escalão: Javi Montero, Joaquín Muñoz, Eneko Jauregi, Darko Brasanac ou Carlos Dotor. O único investimento? 350 mil euros em Adrián Niño, promessa do Atlético Madrid.
O Málaga não abdicou dos seus princípios, bem pelo contrário. Adotou uma postura assertiva no mercado e manteve a aposta no produto nacional: apenas três estrangeiros no plantel:
- Darko Brasanac
- Aaron Ochoa
- Haitam Abaida
Os dois últimos, formados na própria cantera. Grande parte dos atletas conhecia a cidade e a instituição com as próprias mãos. No plantel, estavam 14 elementos formados no Málaga:
- Carlos López
- Moussa
- Diego Murillo
- Dani Sánchez
- Ángel Recio
- Izan Merino
- Ramón Enríquez
- Dani Lorenzo
- Haitam Abaida
- Aaron Ochoa
- David Larrubia
- Rafa Rodríguez
- Rafita
- Chupe


O número de atletas que tinham passado pela Primera RFEF também fazia a maioria, com grande parte da equipa blanquiazul a ter vivido o primeiro momento de recuperação em conjunto:
- Alfonso Herrero
- Carlos López
- Jokin Gabilondo
- Puga
- Moussa
- Einar Galilea
- Dani Sánchez
- Dani Lorenzo
- David Larrubia
- Ramón Enríquez
- Izán Merino
- Diego Murillo
- Aaron Ochoa
- Haitam Abaida
- Juanpe
Estes nomes tinham ajudado a erguer o Málaga de regresso à La Liga 2, atravessaram de mãos dadas um caminho complicado e sabiam que não poderia existir um retrocesso. A manutenção de tantos jogadores provava igualmente que o projeto da direção desportiva era a longo prazo. O curto e o médio prazos entravam na ordem do dia, mas não se ia hipotecar o futuro da instituição para obter melhores resultados.


A época não começou da melhor maneira, com o Málaga a envolver-se na luta pela manutenção. A estrutura tinha de fazer algo. A 18 de novembro de 2025, Sergio Pellicer acabou por sair. Estavam todos agradecidos ao treinador que já era um histórico, mas uma atitude tinha de ser tomada. Juan Funes foi surpreendentemente o eleito. Aos 42 anos, estava na equipa B e os resultados nem sequer estavam a ser positivos, com o Atlético Malagueño em zona de despromoção da Segunda RFEF (acabou mesmo por ser despromovido). Porém, a aposta no professor era forte, com um contrato válido até 2028.
Juan Funes conhecia bem a casa, tinha trabalhado com grande parte dos membros do plantel. A sua escolha foi alvo de críticas por um lado, mas outros aficionados deram uma oportunidade. O Málaga começou a recuperar lugares, a apresentar um estilo de jogo atrativo e a equipa técnica mostrou que facilmente os andaluzes conseguiriam realizar uma temporada estável. Porém, foram mais além. O treinador alcançou 17 vitórias em 30 partidas, valor surreal.
O Málaga estava no playoff de promoção, terminando a La Liga 2 com 73 pontos, que noutras ocasiões permitiria inclusivamente uma subida direta. O La Rosaleda, que já estava encantada com o projeto, sentia que 2025/26 poderia ser o ano de retorno ao primeiro escalão, de onde caíra oito anos antes. O Las Palmas foi o primeiro adversário. Uma vitória nas Canárias por 1-0 tornou a eliminatória muito mais simples. Em casa, o emblema andaluz logrou um empate, que os colocava a dois jogos de atingir o apogeu.


No dia 20 de junho, um sábado com bom tempo, a equipa do Málaga viajou até Almería para o último capítulo de 2025/26, um tudo ou nada, já que o primeiro encontro do playoff terminou com um empate. Um duelo andaluz, com duas formas de ver o futebol de maneira distinta. Para muitos, o conjunto de Rubi era o antagonista da competição, com investimento árabe, Cristiano Ronaldo como sócio, janelas de transferências de milhões que deram condições para se montar um plantel que tinha a capacidade de ser promovido de uma forma direta.
Quando se deu o apito inicial, a maior parte dos aficionados se colocou do lado do Málaga. Porquê? Pela história de superação, pela identificação dos valores do projeto e pelo desejo que uma equipa que passou tão recentemente pelo inferno, regressasse a um lugar onde merecia estar, a La Liga.
Quem resolveu? Os meninos da formação. Chupe aproveitou um erro da defesa do Almería para fazer o 1-0 e David Larrubia marcou o segundo tento. Pouco havia a fazer para a turma de Rubi. Léo Baptistão ainda reduziu, mas a festa no relvado do Estádio de los Juegos del Mediterráneo foi mesmo dos visitantes.


O Málaga tinha operado um milagre, com um homem da casa no comando. Não foi um investimento que levou os boquerones de regresso à La Liga. Foi a prata da casa. O discurso do capitão Ramón Enríquez antes do começo de jogo diz tudo:
«Amanhã, os rapazes e as raparigas de Málaga não vão sonhar em ser adeptos do Real Madrid ou do Barça, vão sonhar em ser adeptos do Málaga Club de Fútbol (…) vamos entrar em campo com tudo aquilo que nos trouxe até aqui: personalidade, coragem, sem perdermos a cabeça. Todos os que aqui estão, confiem em mim quando vos digo que amanhã, quando acordarem, não haverá nada mais grandioso nem mais valioso do que ser uma lenda do Málaga Club de Fútbol».
Foi um homem da casa que disse isto. Um jogador que nem entrou em campo frente ao Almería e que, aos 25 anos, não sabe o que é vestir outra camisola. É um dos heróis dos adeptos.
Se outrora, o Málaga tinha em elementos estrangeiros (e em Isco) as suas referências, hoje são os nomes de Chupe, de David Larrubia, de Dani Lorenzo ou de Izan Merino que vestem as capas de super-heróis para os adeptos. Sem esquecer os que ajudaram nesta caminhada, como Roberto Fernández ou Antonio Cordero, que partiram para outras bandas, com o La Rosaleda no coração.
O Málaga acompanhou o Deportivo de La Coruña (que fez uma caminhada de aplaudir) e o Racing Santander no regresso à La Liga. Três históricos que sabem o que é sofrer, mas que voltam com tudo para evitar um regresso à La Liga 2. Para muitos, a próxima edição da La Liga será a melhor dos últimos anos, com a quantidade de recintos míticos que vão contar com partidas de elite.


Loren Juarros e companhia terão de olhar para o futuro. Já não existirá um limite salarial pouco superior aos 11 milhões de euros. Os direitos televisivos passarão dos sete milhões para os 40. O orçamento dará um pulo, com a referência de 22 milhões de euros de 2025/26.
Contudo, a estrutura não se pode esquecer do que ocorreu no passado. O Málaga deve o que é hoje à formação e às pessoas da cidade, que acompanharam o trajeto dos últimos três anos. Obviamente há que investir, mas com cautela, olhando primeiro para o que está dentro das portas da academia.
Chupe, David Larrubia ou Alfonso Herrero devem contar com interessados e o Málaga pode encher os cofres com uma série de jogadores. Porém, quererão os atletas deixa de fazer parte desta história bonita? Poucos jogadores podem apresentar no seu currículo um feito destes. Viveram o ‘inferno’ da Primera RFEF. Agora quererão desfrutar das idas ao Camp Nou e ao Bernabéu com o escudo de sempre ao peito.
Foram os tais ‘filhos da ruína’ que permitiram o sucesso. Anualmente vemos emblemas vivem crises devido a investidores, acabando mesmo muitos por desapareceram do mapa. Não está errada a existência de um ‘Messias’. O que está mal é que essa pessoa/entidade não siga a tradição do clube, respeitando a história, a memória e os adeptos. O Málaga é um exemplo de como as coisas foram mal feitas, onde as bancadas foram iludidas. Porém, também é uma referência no que toca a recuperações históricas, feitas a partir do suor de quem sente a instituição. Ulisses chegou a Ítaca. O Málaga também alcançou o seu destino final. Ou pode-se sonhar com algo maior para breve na capital da Costa do Sol?



