As memórias do Jamor para Benfica e FC Porto

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Foi uma tarde histórica no Jamor, como são todas as que têm o Estádio Nacional como pano de fundo. O Benfica venceu o FC Porto na final da Taça de Portugal Feminina e conquistou a Dobradinha apenas pela segunda vez na sua história. O Clássico, que se passará a repetir pelo menos duas vezes por temporada, foi jogado pela primeira vez e, nas bancadas, foram 22.285 pessoas a apoiar as duas equipas, a maior enchente da história da competição.

O destaque maior passa pelo Benfica, pentacampeão nacional e que voltou à conquista das taças, depois de duas finais consecutivas perdidas e de uma derrota nas meias-finais no último ano. Não deixa de ser um demonstrativo de hegemonia e superioridade que, numa época de muita mudança, com a transição no comando técnico, e numa das temporadas de menor expectativa, o Benfica tenha conseguido conquistar os dois principais títulos do panorama português.

Benfica Taça de Portugal Feminina Jogadoras
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

No Jamor, diante de um adversário de uma divisão inferior e sem a experiência acumulada pelas águias nos últimos anos, não houve grandes dúvidas quanto ao vencedor. O Benfica cedo se adiantou no jogo, dominou a primeira parte de forma clara e, mesmo sem fechar o resultado, teve sempre segurança na gestão da partida. Foi, acima de tudo, uma exibição de maturidade competitiva, a grande diferença entre as equipas.

O Benfica tinha maior responsabilidade ao entrar em campo e fez-se valer desse mesmo fator. Não sendo uma exibição deslumbrante ou de poderio ofensivo sem comparação, foi um encontro que as encarnadas viram resolvido bem cedo, com o golo madrugador e o alargar da vantagem antes do intervalo e que, apesar de nunca ter estado num território verdadeiramente seguro, em virtude do 2-0 no marcador, também nunca esteve verdadeiramente em causa.

Com a estratégia do FC Porto pensada para anular o jogo interior do Benfica, foi através dos corredores que as águias mais conseguiram chegadas de perigo. Apesar da mobilidade constante, Nycole Raysla a partir da esquerda, Lúcia Alves a partir da direita e com Diana Silva mais centralizada e apoiada por Caroline Moller, as encarnadas conseguiram remeter o conjunto adversário ao seu meio-campo. Com o FC Porto organizado num 5-4-1 com as alas a defender de dentro para fora, procurando também uma posição mais avançada para a transição ofensiva, como Ivan Baptista explicou no pós-jogo, o Benfica foi descobrindo vantagens e superioridades no corredor. Aí, os 3×2 e os 2×1 constantes permitiram às águias invadir o último terço e criar perigo com cruzamentos atrasados que permitiam a instalação no meio-campo adversário.

Diana Gomes Karoline Lima Benfica FC Porto Feminino
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

Apesar das vantagens, os golos até surgiram de bola parada, onde Caroline Moller aproveitou todos os espacinhos para marcar. Chegou há um ano, como reforço mais sonante do Benfica, e não desiludiu, comprovando todo o estatuto inerente a uma jogadora contratada ao Real Madrid. É fácil sermos deslumbrados pela técnica e elegância nos movimentos e recursos técnicos da dinamarquesa – cuja roleta no Jamor ainda anda às voltas pela cabeça – mas foi na relação com a baliza que se destacou. Plena de sentido de oportunidade e de antecipação nos dois golos com que resolveu a final.

O FC Porto, acima de tudo, deu uma prova de competência. Era natural, pela menor experiência e tempo de projeto, que o conjunto de Daniel Chaves, mais habituado a dominar e a impôr-se que a ser dominado e ter de baixar linhas, vivesse um jogo diferente. Ainda assim, e apesar da derrota, a exibição azul e branca deixa espaço para o crescimento futuro. Mais do que a final em si, o FC Porto jogou o primeiro encontro da próxima época, onde os desafios serão maiores.

O percurso na Taça de Portugal Feminina, com eliminações de emblemas da Primeira Liga, abre caminho a olhar para o FC Porto como um candidato sério, pelo menos, à metade superior da tabela. É possível adivinhar ao plantel mudanças mais ou menos profundas, com um mercado que trará novidades ao plantel. Ainda assim, há no plantel jogadoras com qualidade para fazer a transição e olhar um patamar acima. Só no relvado do Jamor, Cora Brendle, Alice Reto, Eliza Turner, Maria Ferreira, Lara Perrruca ou Lily Bryant mostraram argumentos e pormenores diferenciadores.

Lily Bryant FC Porto Diana Gomes Benfica
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

A próxima época será a primeira do futebol feminino com Benfica, FC Porto e Sporting na mesma divisão. Com o projeto do Braga num momento de alguma incógnita, mas sempre com uma força intrínseca, e clubes como o Torreense ou o Valadares Gaia em evolução clara, há perspetivas de um campeonato bem interessante de acompanhar. Que venha daí o próximo ano.

BnR na Conferência de Imprensa

Bola na Rede: O Benfica cria muitas combinações pelos corredores, procurando gerar vantagens e superioridades numéricas. Na primeira parte, principalmente, acaba por conseguir várias chegadas através dessas dinâmicas. Pergunto à Lúcia quais foram as sensações e dentro de campo como foi operacionalizada a estratégia e ao mister o que pretendia com estas dinâmicas?

Lúcia Alves: Antes de mais, vou dizer-lhe que o relvado estava muito pesado e seco, o que não facilita as coisas. Como já referi muitas vezes, sinto-me super confortável em jogar com a Catarina [Amado]. Acabamos por jogar muitas vezes de olhos fechados porque já sabemos o movimento uma da outra. Achei que sim, havia vantagens, e havia outras alturas que não. Seja jogo de corredores, seja jogo interior sinto-me confortável nos dois.

Ivan Baptista: Nós viemos preparados para ter jogo interior, jogo exterior. Foi mais a reflexão que fazia há bocado, de elas conseguirem interpretar os espaços e as dinâmicas a que o adversário nos obrigava nos momentos de primeira e segunda fase de construção. Como estava a dizer, a pressão das alas do FC Porto, porque a avançada praticamente não pressionava as nossas centrais e preocupava-se mais com a Pauleta e a [Anna] Gasper, com a 6 que ia mais perto das centrais, e com a Angeline [da Costa] a encaixar entre as centrais dela e a acompanhar a Diana, ia fazia com que o corredor central estivesse, de certa forma, preenchido, e que elas tivessem montado essa teia para que nós procurássemos as zonas interiores, para depois procurarem aproveitar o facto de terem as alas, as extremas, a Maria [Ferreira] e a Lara [Perruca] altas no terreno na pressão às nossas centrais e melhores posicionadas em comparação com as nossas laterais para explorar essas transições. Isso fez com que os espaços se abrissem por fora. Não fui eu que lhes disse que hoje íamos jogar em combinações por fora mais do que em combinações por dentro. Nós, felizmente, temos muita qualidade no corredor central e no corredor lateral e são elas que têm de interpretar isso dentro de campo. A pressão do adversário fez com que a nossa lateral estivesse quase sempre solta. O “segredo” passava por conseguir colocar a bola lá, umas vezes com largura da lateral e ala por dentro, outras vezes com dupla largura com lateral e ala por fora, e explorar esses espaços. Colocar aí e depois tentar capitalizar o 2X1 que tínhamos nos corredores. Como a Lúcia falou, muitas vezes não foi possível capitalizar porque a bola travava. O relvado, com o vento que se fez sentir, rapidamente secou e depois criava muita dificuldade naquilo que era a velocidade que precisávamos para entrar no último terço. De forma geral, foi isso a leitura que fiz.

Bola na Rede: É um jogo muito diferente aos que o FC Porto está habituado a jogar, onde costuma ter mais capacidade de se impor e enquadrar no meio-campo ofensivo e de defender mais alto. Tendo em conta estes aspetos, quão diferente foi a preparação do jogo e depois a sua operacionalização?

Daniel Chaves: Acaba por ser diferente. Estou sempre a ressalvar, mas a verdade é que o Benfica vive muito da qualidade da sua guarda-redes no primeiro momento de construção, o que nos limita nessa tentativa de bloco mais alto. Não era por ser Benfica, porque não nos assustamos, claramente, e acho que o jogo demonstra isso. Demonstra é a qualidade que uma jogadora a mais consegue para colmatar as dificuldades de outras. Ajuda muito. Se quisermos saltar a zonas mais altas, acabam por ter desbloqueadoras porque alguma jogadora há de estar livre. Tivemos de nos adaptar a isso. Estrategicamente, quisemos roubar por outras zonas e sabíamos onde queríamos ferir e de que forma o adversário se iria ajustar a essa pressão. Depois, foi tentar trazer para campo. Operacionalizar é sempre mais difícil porque replicar a qualidade técnica do adversário em treino dificulta essa parte. É óbvio, mas sabíamos caminhos. Obviamente que também usamos estratégias para lá do treino para o fazer e explicar às jogadoras por onde queríamos ir e por onde queríamos chegar.

Diogo Ribeiro
Diogo Ribeirohttp://www.bolanarede.pt
O Diogo tem formação em Ciências da Comunicação, Jornalismo e 4-4-2 losango. Acredita que nem tudo gira à volta do futebol, mas que o mundo fica muito mais bonito quando a bola começa a girar.

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