Sporting, Benfica, FC Porto e Braga asseguraram a passagem às próximas fases da Champions League e Europa League. Enquanto os leões, dragões e guerreiros conseguiram apurar-se diretamente para os oitavos de final das respetivas provas da UEFA, as águias terão de recorrer a um playoff – equivalente aos 16 avos de final -, onde tornarão a enfrentar o Real Madrid, clube que venceram por 4-2, na última jornada da fase regular da Champions League.
A diferença qualitativa entre as duas provas da UEFA já referidas são muitas, isso é certo. Tal acentuou-se ainda mais com a mudança de formato das competições europeias que se sucedeu no início da época transata. Com a criação de uma fase de liga, que veio substituir a clássica fase de grupos, deixou de haver equipas a migrar da Champions League para a Europa League. Com o antigo formato, recorde-se, os terceiros lugares de cada grupo da prova milionária eram relegados à segunda competição da UEFA. Atualmente, não podendo isso acontecer, é certo que Braga e FC Porto são, pelo menos, candidatos a chegar a uma fase adiantada da prova.
Braga


Os bracarenses, comandados por Carlos Vicens, terminaram a primeira fase da Europa League na sexta posição, somando 17 pontos em oito jogos, para além de 11 golos marcados e apenas cinco sofridos. A derrota por 4-3 frente ao Genk foi a única registada na campanha europeia dos minhotos na presente temporada. De resto, foram dois empates, frente a Rangers e Go Ahead Eagles – ambos fora de casa -, e cinco vitórias, diante de Feyenoord, Celtic, Estrela Vermelha, Nice e Nottingham Forest. Agora, resta esperar para ver os desfechos dos jogos entre Ludogorets e Ferencváros, bem como de Celtic e Estugarda. Para o Braga é certo que defrontar um dos dois primeiros clubes é, teoricamente, mais acessível. Ainda assim, precisando de defrontar Celtic ou Estugarda, a equipa capitaneada por Ricardo Horta, como visto na fase de liga, não necessitará de se encolher e pode perfeitamente aspirar a uma presença nos quartos de final do torneio. Daí para a frente, dependendo apenas de si mesmos e mantendo a consistência exibicional que, na presente temporada, só no último par de jogos parece ter aparecido, os guerreiros terão toda a legitimidade para pensar em chegar à final. A profundidade do plantel é amplamente reconhecida, e Vicens, desde o início da época desportiva, tem procurado fazer coabitar diferentes jogadores, tornando o Braga um adversário muito difícil de analisar.
Neste percurso europeu, de acordo com aquilo que o sorteio ditar, os adversários mais complicados serão, à partida, Lyon ou Aston Villa, Bétis e Roma. Para já, a única certeza é que um possível embate frente ao FC Porto só poderá acontecer na final disputada no Besiktas Park, em Istambul. Os dois clubes do Norte de Portugal poderão repetir a final de 2010/2011, que os dragões acabaram por vencer.
FC Porto


O percurso exibicional da equipa orientada por Francesco Farioli até aqui, apesar de a qualificação entre os oito primeiros classificados ter sido conseguida, transmitiu a ideia de priorização da Primeira Liga face à Europa League. Nenhuma das exibições do FC Porto foi de encher o olho. Para além de uma derrota frente ao Nottingham Forest – numa altura em que os britânicos estreavam Sean Dyche no comando técnico e vinham de dez partidas consecutivas sem conhecer o sabor da vitória – registaram-se ainda empates a uma bola frente a Utrecht e Viktoria Plzen. Duas das cinco vitórias foram conseguidas apenas no fim do tempo regulamentar.
Com o campeonato a caminhar a passos largos para uma fase decisiva, com Farioli a ter de lidar com fantasmas do passado e havendo apenas quatro pontos a distanciar dragões e leões, veremos se o FC Porto não reforçará a intenção de abdicar da Europa League. Apesar de os adversários mais complicados serem, ao que tudo indica, os mencionados no espaço referente ao Braga e estarem perfeitamente ao alcance dos portistas, será necessário que esta seja uma equipa conectada em todos os momentos do jogo. Para clarificar da melhor forma aquilo que aqui escrevo, deixo o seguinte dado estatístico: em 8 jogos de Europa League, o FC Porto teve o mesmo número de golos sofridos (7) do que em 21 partidas na Primeira Liga.
Apesar de o plantel ser profundo e de as opções para as diferentes posições serem vastas, as mais recentes lesões fizeram soar os alarmes na Invicta. Principalmente a lesão de Samu, que faz o jovem ponta de lança espanhol falhar o que resta da temporada, é um duro golpe para os azuis e brancos. O jogador de 21 anos não só é o melhor marcador da equipa como desfalca uma posição que não conta, há já vários meses, com o lesionado Luuk de Jong. Kiwior e Martim Fernandes são menos duas opções para defesa portista, mas resta saber durante quanto tempo. À medida que a temporada avança, as ausências por lesão poderão aumentar, o que tenderá a determinar a (menor) aposta dos dragões na Europa League.
Numa ótica puramente qualitativa, parece-me claro que o FC Porto teria todas as condições para ser designado como um dos principais candidatos à conquista de um troféu que já venceu em duas ocasiões.
Benfica


O Benfica é a primeira equipa a entrar em ação nas eliminatórias das competições europeias, para voltar a defrontar o Real Madrid. Depois de Trubin, guarda-redes ucraniano das águias, ter marcado de cabeça nos últimos instantes da partida frente a esse mesmo adversário, os encarnados garantiram o último posto de acesso aos 16 avos de final da Champions League. Mourinho, acertadamente, previu que nove pontos fossem suficientes para que o Benfica se salvasse de uma eliminação precoce.
Depois de um início de competição desastroso, com o Benfica a colecionar quatro derrotas consecutivas – a primeira das quais frente ao Qarabag e que ditou o despedimento de Bruno Lage -, as vitórias frente a Ajax e Nápoles, ambas por 2-0, devolveram a esperança, ainda que diminuta, aos adeptos benfiquistas. Logo depois, o desaire frente à Juventus, especialmente marcada pelo falhanço de Pavlidis, parecia ir ao encontro de uma época desastrada e sem qualquer planeamento. O jogo frente ao Real Madrid, contudo, surpreendeu até os mais crentes. Esses dois últimos jogos da fase de liga refletiram aquela que tem sido a época do Benfica: inconsistente, atípica e em que rapidamente se vai do céu ao inferno…e vice-versa.
O sorteio ditou que, na próxima terça-feira, dia 17 de fevereiro, o conjunto de Mourinho vai receber, novamente, o Real Madrid. Se a vitória por 4-2 diante dos merengues – acima de tudo nos moldes em que aconteceu – parecia impossível de se perspetivar, fica ainda mais complicado prever o que acontecerá nestes 16 avos de final. Por um lado, a equipa espanhola é reconhecida em todo o mundo e é, destacadamente, aquela que mais troféus da Champions League já conquistou: 15, em toda a história, cinco deles nos últimos dez anos. Diz-nos a matemática que este clube castelhano, no espaço temporal referido, vence-a ano sim, ano não. Não a tendo levantado no ano passado, seria presumível que este fosse o ano de a “orelhuda” voltar para o Santiago Bernabéu…mas futebol e matemática nem sempre andam de mãos dadas.
Se há ano em que o Benfica agradece defrontar o clube de Florentino Pérez, este é o ano. O Real Madrid não atravessa tempos fáceis a nível estrutural, exibicional e de resultados. Para além de o plano Xabi Alonso ter saído furado, pelo que a equipa, dentro de campo, deixou de ser fiel aos princípios e mentalidade que devem reger uma equipa desta dimensão, começaram a surgir desavenças entre adeptos, direção e jogadores. Mesmo com Arbeloa, ainda que o clube tenha vencido cinco dos sete encontros já disputados, o Real Madrid continua longe da pujança que apresentou nos anos dourados – foi, inclusivamente, eliminado da Taça do Rei por um emblema do segundo escalão. Por estes motivos, não é possível retirar o Benfica da equação, muito menos depois da vitória épica registada há cerca de duas semanas.
Esta será uma eliminatória imprevisível e que, para o bem e para o mal, ajudará a compreender e a perspetivar o que poderá significar o percurso dos lisboetas na prova milionária: se forem derrotados pelo Real Madrid, é certo que o percurso europeu acabou; se derrotarem os merengues, a motivação poderá ajudar a chegar a uma fase mais adiantada da prova – quartos de final, por exemplo – e os adversários seguintes terão de encarar este Benfica com mais respeito.
Sporting


No outro lado da segunda circular, o Sporting tem feito um percurso na Champions League extremamente competente. As derrotas frente a Nápoles e Bayern Munique e o empate diante da Juventus – todos nos terrenos adversários – não chegam para minimizar as grandes vitórias diante do Marselha, Club Brugge, PSG e Athletic Club, já sem contar com a goleada conseguida frente ao Kairat Almaty. Os 16 pontos somados, aos quais se juntam 17 golos marcados e 11 sofridos, permitiram aos leões atingirem o sétimo lugar na fase de liga e, consequentemente, avançarem para os oitavos de final da mais importante competição da UEFA.
O clube de Alvalade poderá assistir confortavelmente aos 16 avos de final, apenas com a certeza de que jogará contra o vencedor dos jogos entre Bodo/Glimt e Inter Milão ou Benfica e Real Madrid. É certo que a dificuldade irá acrescer, visto que o Sporting terá de jogar duas vezes contra o adversário que lhe calhar. Todavia, a formação orientada por Rui Borges, ao ter derrotado o PSG e, mais tarde, tendo conseguido estabelecer-se entre as oito melhores equipas da Europa, não pode ser ignorada e menosprezada. Na teoria, é certo que o Sporting gostaria de defrontar o Bodo Glimt ou o eterno rival. Contudo, neste momento, não é possível dizer que o Sporting não poderá surpreender Inter Milão ou Real Madrid. A salvaguarda da condição e gestão física dos jogadores será importantíssima para que os atuais bicampeões nacionais possam continuar a lutar com os tubarões europeus. As ondas de lesões, que por agora parecem ter abrandado, têm abalado constantemente a equipa técnica de Rui Borges.
Com o tricampeonato na mira e sendo bem mais realista vencer a Primeira Liga do que a Champions League, não é de estranhar que, em situação de urgência, o Sporting acabe por dar primazia ao campeonato. Até lá, é legítimo os leões pensarem em, pelo menos, chegar aos quartos de final da mais importante competição de clubes do mundo.
Apresentados todos os factos, mas sem poder antever com certezas o que acontecerá nas fases que se seguem, uma coisa parece-me certa: no contexto europeu, esta tem sido – e poderá continuar a ser – a melhor campanha dos principais clubes portugueses nos últimos dez anos.

