Recordar é viver | Dimitar Berbatov, a última estrela búlgara

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Quando se fala de grandes nações futebolísticas, a Bulgária raramente é incluída na conversa, principalmente para quem não viveu (ou não recorda) o desporto rei dos anos 90. Em 1994, a seleção balcânica surpreendeu tudo e todos em território norte-americano, conseguindo um histórico quarto lugar no mundial. Hristo Stoichkov, estrela do Barcelona, foi bota de ouro do torneio e viria a arrecadar nesse ano a única Bola D’Ouro do seu país.

A lista de nomes sonantes do futebol búlgaro fica, no entanto, quase toda confinada ao século XX. Asparuhov, Bonev e Penev foram três grandes figuras que chegaram a alinhar simultaneamente pela seleção até à morte trágica de Asparuhov (num acidente rodoviário), em 1971. São os três considerados lendas da Bulgária, com Dimitar Penev a ter o mérito acrescido de orientar a seleção durante a campanha memorável de 1994.

Na década de 90, a Primeira Liga viu jogar três jogadores ofensivos de qualidade ímpar, vindos da Bulgária: Emil Kostadinov (FC Porto), Krasimir Balakov e Ivaylo Yordanov (ambos do Sporting).

Longe da ribalta do Mundial de 1994, estava um jovem de 13 anos nascido em Blagoevgrad, que viria a tornar-se uma das grandes estrelas do futebol búlgaro. Filho de dois desportistas profissionais, Dimitar Berbatov não escapou à pobreza que se vivia na Bulgária e passou a infância a treinar com uma bola de basquetebol (ou mesmo com uma bexiga de porco inflada).

Berbatov começou a formação na sua cidade natal, pelo Pirin, e aos 17 anos viajou até Sofia para representar o CSKA, seguindo as pisadas do seu pai. No emblema da capital, o jovem rapidamente mostrou estar “uns furos acima” da concorrência e, apesar das críticas aos resultados coletivos, a sua qualidade individual chamou à atenção do Bayer Leverkusen, que o levou em janeiro de 2001.

Os primeiros meses no clube germânico não foram fáceis, com o treinador Berti Vogts a dar pouquíssimas oportunidades ao recém-chegado Berbatov. Já a época 2001/02 correu, pelo menos a nível individual, às mil maravilhas. Entre astros como Michael Ballack, Lúcio e Zé Roberto, Berbatov despontou no “Neverkusen” (alcunha dada à equipa, depois dos segundos lugares alcançados na Champions League, Bundesliga e DFB Pokal).

Em cinco épocas e meia na Alemanha, o avançado búlgaro fez 202 jogos e apontou 91 golos. Para além do estilo de jogo calmo com momentos de brilhantismo, estava agora adicionado o “fator golo”, e Berbatov tornava-se um dos atacantes mais temidos da Bundesliga. No verão de 2006, mudou-se para o norte de Londres, para representar o Tottenham.

A adaptação ao futebol inglês não constituiu um obstáculo para Berbatov, que apontou 46 golos nas duas temporadas em White Hart Lane. Viria a transferir-se por 31 milhões de libras para o recém-coroado campeão europeu, Manchester United, no verão de 2008.

Apelidado de “Languid Bulgarian Genius”, Dimitar Berbatov era considerado preguiçoso por quem percebia menos do jogo. Já Alex Ferguson (entre outros), percebiam que o génio búlgaro gastava a energia que poupava em sprints a ler o jogo e a posicionar-se da forma mais inteligente. Com um domínio de bola invejável e criatividade muito acima da média, Berbatov é um distinto exemplo de estética futebolística.

Em Old Trafford, tornou-se peça chave do ataque dos red devils e juntou ao seu palmarés dois títulos da Premier League, uma Taça da Liga, dois Community Shields e um Mundial de Clubes. Em Manchester, sagrou-se ainda o melhor marcador da edição 2010/11 da Premier League, com uma manita apontada frente ao Blackburn como ponto alto.

Nas passagens pelo Fulham, AS Mónaco e PAOK, Berbatov teve ainda algum impacto dentro de campo, mas principalmente na experiência transmitida aos companheiros mais jovens. Se a quebra física do avançado era evidente, a classe e a maturidade mantinham-se em níveis de topo mundial. Em 2018, após realizar apenas 9 jogos pelo Kerala Blasters, da Índia, Berbatov pendurou as chuteiras aos 37 anos de idade.

Quanto à seleção búlgara, Berbatov estreou-se em 1999, participou apenas num grande torneio (Euro 2004) e somou 78 internacionalizações e 48 golos, sendo ainda o melhor marcador de sempre, a par de Hristo Bonev.

João Pedro Santos
João Pedro Santos
Licenciado e mestre em Biotecnologia pela Universidade de Aveiro, é atualmente estudante do Programa Doutoral em Engenharia Química e Biológica da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto. Tendo a música e o desporto como grandes interesses, dedicou-se recentemente à escrita de artigos de opinião para o projeto Bola na Rede.

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