Recordar é Viver | Franco Baresi: Não Fare Il Portoghese

- Advertisement -

A expressão italiana utiliza-se quando alguém se aproveita das circunstâncias para poupar uns trocos. Mas porquê a associação do carácter português à mesquinhez? Qual a origem? Explicam-nos os responsáveis pelo sítio digital da embaixada lusa em Roma.

 «A má reputação que os portugueses ganharam em Roma, a de entrar nos locais sem pagar (o sentido comum desta expressão), é totalmente injusta e tem uma justificação histórica que redime a reputação que o povo português tem em todo o lado, a de ser um povo humilde, mas honrado. Acontece que nem sempre fomos humildes….

Era uma vez, durante o reinado de D. João V, o Magnânimo, Portugal era considerado uma das nações mais ricas da Europa, ou seja, do mundo naquela altura. De facto, o século XVIII foi uma época de sumptuosas embaixadas ao Papa, a do Marquês de Fontes (1713) e a de Mello e Castro, Conde das Galveias (1718) – vivendo este último perto da Plaza Argentina.

Foi provavelmente ele quem promoveu espetáculos no Teatro Argentina a que, naturalmente, a comunidade portuguesa residente em Roma não tinha de pagar para assistir. E assim, com a sua caraterística astúcia, qualquer romano que quisesse entrar nos espetáculos sem pagar fingia-se de português…»[1]

Baresi x FC Porto
Fonte: FC Porto

O que tem isto a ver com Franco Baresi? Pouco. A lenda milanista despediu-se da aventura terrena no último dia de Julho e, por tudo o que alcançou, fixa-se justamente na eternidade. Adolescente era quando o irmão Giuseppe, dois anos mais velho, o levou consigo às captações do Inter. A um disseram que sim, ao pequenino (em idade e na altura, que nunca passaria dos 176 centímetros) não viram qualidades suficientes que compensassem. Passou a estrada e tentou no rival Milan. Ao atingir a maioridade, e na mesma época em que se despedia Gianni Rivera, a outra lenda Niels Liedholm tornou-o titular, com 40 jogos em 78-79.  O cliché de o resto ser história aplica-se bem, porque o assunto é conhecido e se não o for a alguém mais desatento, já tanto se falou e escreveu sobre a carreira de Il Piscinin Baresi que seria redundante listar a interminável sucessão de triunfos e troféus, alguns quase inacreditáveis: como é possível alguém se lesionar numa segunda jornada da fase de grupos dum Mundial, ser operado ao menisco e, vinte e poucos dias depois, ser titular na final, anulando alguém como Romário?

Como é possível alguém, como líder de sector, ser responsável pela mudança duma lei do jogo por parte da FIFA? Quando o Milan foi ao Bernabéu defender uma vantagem de dois golos contra o Real Madrid da Quinta del Buitre (pentacampeão espanhol, contexto importante) e colocou Butragueños e Hugos Sánchez em posição de fora de jogo um total de… 24 vezes, o organismo máximo do futebol mundial chegou à conclusão de actualizar a Lei 11, formatando-a para os moldes actuais: qualquer avançado já não precisava de ter uma parte do corpo atrás do penúltimo opositor (podia estar em linha) e, mais importante ainda, alguém tinha de intervir activamente no lance para ser considerado em offside. Mesmo atentando que era Baresi a comandar Tassotti, Costacurta e Maldini, parece mentira. 

Como é possível alguém, já do alto dos seus trinta e quatro anos, tornar possível o Scudetto do Milan menos concretizador da história? O Milan 1993-94 marcou apenas 36 golos em 34 jornadas, a pior taxa de concretização na história dos campeões nacionais – o título veio por causa da organização defensiva: 15 golos sofridos e 22 clean sheets, com Baresi na liderança. 

A carreira de Franco Baresi são 20 anos de proezas deste género. Um nome tão grande do jogo há de, seguramente, ter enfrentado portugueses algum dia. Para exaltar uma vida tão recheada de sucessos, o Bola na Rede foi então tentar perceber se Baresi sabia fazer-se de português com portugueses. Se, tomando o significado da expressão a um sentido mais alargado, o talento de Franco proporcionou a que se aproveitasse das circunstâncias para se superiorizar a lusitanos. Pois então, quantas vezes nos defrontou Baresi? 14. Quantas vezes perdeu? Zero. Nenhuma (nove vitórias e cinco empates). 

À Selecção, ganhou sempre: na qualificação para o Euro 88 (duas vezes) e para o Mundial de 94, num jogo em San Siro decidido pelo golo de Dino Baggio (em fora-de-jogo) – na tal noite, permitam-nos o desvio, em que Carlos Queiroz gritou o célebre desabafo de que era «preciso varrer com toda a porcaria» que existia na Federação…

Ao FC Porto, ganhou três em cinco. A primeira vez em 1979, a última em 1996 – nesse entretanto, no único jogo entre as duas equipas em que podia ter actuado e não o fez, os Dragões ganharam em San Siro com o icónico bis de Mário Jardel.

Contra benfiquistas, a alegria de passar por cima de portugueses para conquistar uma das três Champions no currículo: o Milan de Arrigo Sacchi, no auge das suas potencialidades, derrotou no Prater o Benfica de Eriksson, em 1989-90. E à biografia do treinador sueco vamos para sublinhar o magnânimo talento de Baresi. O jogo foi rasgadinho, 1-0, confronto muito táctico – eufemismo para enfadonho. Sven Goran explica porquê:


«O Milan não criou verdadeiras oportunidades. A verdade é que nós também não. Falhámos na agressividade ofensiva. Mats marcou 40 golos durante a época, mas, contra defesas de classe mundial como Baresi ou Costacurta, foi impotente.»

Umas linhas depois, volta a insistir na tecla e desvenda o plano B.

«Sentíamos que era possível ganhar se conseguíssemos furar a defesa italiana. Mats não conseguia. Falei com Valdo, o nosso médio veloz, para que tentasse penetrações no meio-campo contrário. Era algo que já tínhamos treinado.»

A coisa não resultou e, pior, Rijkaard fez o golo num lance do mesmo género. O feitiço virou-se contra Sven.

«Depois disso, eles fecharam a loja. Coloquei mais um avançado, Vata, mas o nosso ataque não tinha força. Magnusson e Vata eram bons em Portugal, mas não eram Gullit e Van Basten».

Franco Baresi
Fonte: AC Milan

Certo, mas ponhamos as coisas em perspectiva: Magnusson fez 87 golos em 160 jogos. Foi o melhor marcador estrangeiro de sempre até Tacuara Cardozo. Valdo, o titular atrás dele, jogou meias-finais europeias pelo PSG e seria titular da Canarinha na Copa América ‘89 e no Mundial de ’90. Impotentes só pareceriam perante uma linha defensiva com Baresi…

Que não sirvam estas preciosidades para nos afastar do verdadeiro intuito duma homenagem e da solenidade que o momento pede. Baresi cumpriu em 66 anos o suficiente para ser lembrado enquanto resistirem amantes do desporto e da virtude humana. De Baresi disse certo dia Maradona (além de que tinha sido o melhor que enfrentou) que tinha cometido sobre ele muitas faltas, mas nunca com a intenção de magoar; e que, no fim, era sempre Baresi que estendia primeiro a mão para o levantar. Sem mesquinhez.


[1] https://roma.embaixadaportugal.mne.gov.pt/it/l-ambasciata/notizie/come-nasce-l-espressione-fare-il-portoghese

Pedro Cantoneiro
Pedro Cantoneirohttp://www.bolanarede.pt
Adepto da discussão futebolística pós-refeição e da cultura de esplanada, de opinião que o futebol é a arte suprema.

Subscreve!

Artigos Populares

Imprensa turca aponta valor que o Benfica pede por Vangelis Pavlidis: eis os milhões

Imprensa turca diz que o Benfica exige 45 milhões de euros por Vangelis Pavlidis. Fenerbahçe está interessado no avançado.

Treinador do Hearts já olha para o jogo com o Benfica: «Uma grande equipa europeia»

Wouter Vrancken, treinador do Hearts, diz que o Benfica é uma «grande equipa europeia». Primeira mão é já esta quinta-feira.

Imprensa inglesa avança: Geny Catamo é alvo prioritario de clube da Premier League

O Sunderland Echo revela que o Sunderland já iniciou contactos com o Sporting para a contratação de Geny Catamo.

Vasco Faísca é o novo selecionador de Sub-20 de Portugal: Eis as novidades na estrutura da FPF

Vasco Faísca, antigo treinador do Belenenses, Alverca e Farense, assumiu o comando da Seleção Sub-20 de Portugal.

PUB

Mais Artigos Populares

Mohamed Salah tem acordo com outro clube: eis qual poderá ser o seu destino

O Trabzonspor aproxima-se da contratação de Mohamed Salah. Emblema da Turquia chegou a acordo com o avançado.

João Palhinha é titular e assiste em vitória do Bayern Munique

O Bayern Munique venceu o Jeju por 2-1 num jogo de preparação. João Palhinha foi titular e fez a assistência para o segundo golo.

Renovação à vista no Benfica: Agente de Tomás Araújo viaja para Portugal para negociar novo contrato

Tomás Araújo ainda tem um contrato válido até 2029, mas o Benfica prepara-se para recompensar o defesa-central com um novo acordo.