recordar é viver

Dérbi dos dérbis, jogo do povo, clássico eterno, eis alguns dos muitos atributos que podem definir um Sporting vs. Benfica. Então quando se trata de partidas a contar para a Taça de Portugal, é um autêntico festival: golos e mais golos, polémica, reviravoltas, histórias que daqui a dezenas de anos serão recordadas. E é mesmo isso que poderão ler mais abaixo, um “cheirinho” daquilo que foram alguns dos dérbis mais marcantes relativos à Taça de Portugal, tanto em Alvalade como na Luz, nos últimos anos. Porque se nos aventurássemos até décadas atrás… não haveria leitor neste país com a paciência necessária para acompanhar este texto.

SL Benfica 1-3 Sporting CP: 1999/2000

Resumo do jogo

Numa fria noite de 26 de Janeiro de 2000, o Sporting gelou um Estádio da Luz quase repleto de espectadores com uma vitória incontestável por 3-1, em jogo respeitante aos oitavos-de-final da Taça de Portugal. Os leões, orientados por Augusto Inácio, dominaram por completo a partida, beneficiando das excelentes actuações de homens como André Cruz, César Prates, Mpenza – estes três últimos haviam sido reforços de Inverno – Pedro Barbosa e Acosta. Robert Enke, guarda-redes do Benfica, foi sempre um homem em sobressalto, tal foi a quantidade de vezes que o Sporting se acercou com perigo da baliza dos encarnados. O triunfo leonino foi construído com golos de Acosta (bis) e de André Cruz, de nada valendo ao Benfica o tento de Uribe, através da exemplar marcação de um livre directo.

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Este desafio acabou por ser o espelho fiel da temporada: um Sporting forte e incisivo, que acabaria por se sagrar campeão nacional, quebrando um jejum de 18 anos e que chegou à final da Taça, perdida para o FC Porto; e um Benfica sem chama, com graves limitações no plantel, e que nem sob o comando do conceituado Jupp Heynckes evitaria o terceiro lugar final. Um dado curioso deste jogo prendeu-se com o facto de não ter sido televisionado, depois de uma acesa luta entre RTP e SIC pela transmissão do mesmo que não teria efeitos práticos. Em suma, apenas na Luz ou através da rádio se pôde acompanhar no momento o show de bola do Sporting, naquela que foi uma das suas melhores prestações de sempre no reduto do eterno rival.

SL Benfica 3-3 Sporting CP (7-6 g.p.): 2004/05

Resumo do jogo

Também a 26 de Janeiro, mas desta feita cinco anos depois, jogou-se um dos dérbis mais electrizantes de que há memória. Num hino ao futebol, o Benfica de Trapatonni superou o Sporting de José Peseiro, mas apenas com o recurso ao desempate por grandes penalidades. Os primeiros minutos do desafio foram qualquer coisa de extraordinário: Geovanni abriu o activo logo aos 3’, para de seguida a turma verde-e-branca dar a volta ao resultado através de Hugo Viana (15’) e Liedson (17’), até Geovanni restabelecer a igualdade aos 22’, bisando assim no encontro. Assistiu-se a uma partida disputada a um ritmo frenético, sem grandes preocupações defensivas, o que se revelou mais surpreendente em relação ao habitualmente defensivo Benfica da altura, contrastando com um Sporting que praticava um futebol muito ofensivo.

Apesar das várias oportunidades para marcar, o espectáculo do golo só voltaria no prolongamento, depois do empate (2-2) no final do tempo regulamentar. Aos 110’ deu-se um momento mágico: Paíto, num rasgo individual inesquecível por toda a ala esquerda encheu-se de fé, humilhou Luisão com um incrível túnel e bateu Quim, deixando o Sporting à beira da vitória. Só que do outro lado da barricada havia Simão, que aos 118’ levou a eliminatória para os penáltis com um soberbo remate de meia-distância. Na marca de castigo máximo, o Benfica foi mais feliz e beneficiou do remate de Miguel Garcia à barra, na sétima grande penalidade, para prosseguir na prova, deixando o Estádio da Luz em delírio, numa época que assinalaria o regresso das águias à conquista do campeonato onze anos depois, falhando a dobradinha ao sair derrotado no Jamor perante o Vitória de Setúbal. Já o Sporting, como se sabe, falharia o título e a vitória na Taça UEFA em Alvalade… no espaço de quatro dias.

Sporting CP 5-3 SL Benfica: 2007/08

Resumo do jogo

Eis que chegamos a um jogo mítico que muito provavelmente gerou problemas cardíacos em vários portugueses. Estávamos nas meias-finais da Taça de Portugal e os rivais da capital vinham realizando uma época sofrível, tendo ambas as formações dito adeus ao título ainda em fase precoce. Portanto, a temporada de Sporting e Benfica jogava-se naquela noite chuvosa de 16 de Abril de 2008. O dérbi correspondeu inteiramente às expectativas, com duas partes completamente distintas: um Benfica inteligente, tacticamente perfeito e extremamente eficaz no primeiro tempo; um Sporting avassalador, massacrante, imparável na etapa complementar. Rui Costa e Nuno Gomes, actuais elementos da estrutura directiva do Benfica, colocaram o clube da Luz na frente por dois golos ao intervalo, para tranquilidade dos seus adeptos e de Fernando Chalana, na altura treinador do Benfica, depois da demissão de José Antonio Camacho. Porém, a imprevisibilidade do dérbi lisboeta voltaria em todo o seu esplendor na segunda parte. Depois de uns primeiros 45 minutos em que pareceu anestesiada, o Sporting de Paulo Bento surgiu em campo transfigurado, convicto de que poderia aniquilar um frágil Benfica.

E isso aconteceu, com Alvalade a assistir a uma prestação assombrosa dos leões, que a partir dos 68’ iniciaram uma reviravolta épica. Yannick Djaló, Liedson e Derlei viraram o jogo a favor do Sporting, apesar de logo a seguir Christian Rodríguez ter reposto a igualdade para o Benfica. Mas o conjunto leonino estava devorador e não estranhou que Yannick Djaló voltasse a fazer o gosto ao pé, até que Vukcevic sentenciou a meia-final aos 90’+3. Passados mais de sete anos, ainda muitos benfiquistas se questionam sobre aquilo que terá acontecido ao seu clube, ao passo que os sportinguistas viveram uma das melhores noites de sempre do clube. E para terminar em beleza, o Sporting conquistou mesmo a Taça de Portugal, ao bater o tricampeão FC Porto por 2-0.

Sporting de luxo abateu Benfica em 2007/08 Fonte: piscssr.com
Sporting de luxo abateu Benfica em 2007/08
Fonte: piscssr.com

SL Benfica 3-3 Sporting CP (4-3 a.p.): 2013/14

Resumo do jogo

O mais recente episódio de dérbis absolutamente lendários. Quarta eliminatória, um super Benfica de Jorge Jesus que viria a vencer todas as competições nacionais da temporada a receber um Sporting orientado por Leonardo Jardim, mas que mesmo com um plantel muito mais curto acabaria por atingir um excelente segundo lugar no campeonato. Do lado benfiquista a figura foi, como em tantas outras ocasiões frente ao rival da 2.ª Circular, Óscar Cardozo, assinando um sensacional hat-trick na primeira parte, traduzindo uma excelente exibição do Benfica nesse período, apenas abalada com um golo de Capel. Com um 3-1 ao intervalo, poucos suspeitariam de que o Sporting tivesse forças para lutar pelo apuramento, erradamente. Aproveitando a permeabilidade da defensiva encarnada – em Outubro de 2013 o Benfica ainda abanava bastante, acusando o traumático final de época anterior – os leões partiram para cima do adversário e colheram frutos com essa atitude, embora as águias tivessem desperdiçado uma ou outra oportunidade. Maurício aos 67’ e Slimani aos 90’+2 silenciaram a Luz e levaram a contenda para prolongamento.

“Tacuara” Cardozo arrasou em 2013/14 Fonte: Sport Lisboa e Benfica
“Tacuara” Cardozo arrasou em 2013/14
Fonte: Sport Lisboa e Benfica

E no tempo extra? Terá imperado a cautela? Nada disso. Ambas as equipas continuaram ao ataque oferecendo ao desafio uma carga dramática. E numa noite assim, o golo decisivo teria que fugir ao tradicional figurino, tal como veio a verificar-se: aos 97’, e caído em pleno relvado, Luisão cabeceou para golo, com a bola a passar por entre as pernas de Rui Patrício, naquele que foi um dos maiores frangos da carreira do internacional português. Até final mais frisson, com o Sporting a terminar a partida com apenas nove jogadores – expulsões de Rojo e Wilson Eduardo – mas nunca deixando de criar perigo. Contudo, o Benfica acabou por seguir em frente na Taça, num dérbi que durou muito para lá daquele sábado. A arbitragem de Duarte Gomes foi duramente criticada pelos dirigentes do Sporting, com destaque para as declarações de Bruno de Carvalho que não deixou de lançar farpas sobre… Jorge Jesus, quando ninguém adivinhava aquilo que se iria passar no Verão 2015.

Veremos então o que nos reserva o jogo deste sábado. Mas com uns antecedentes assim, será difícil que não se escreva sobre ele num “Recordar é Viver” de 2048.