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O Atletismo é um dos desportos mais igualitários a nível global, no que diz respeito a géneros. Homens e mulheres têm, normalmente, o mesmo tempo de antena (algumas transmissões televisivas das provas de estrada ainda falham neste campo), alcançam os mesmos prémios quando vencem e é dos poucos desportos que falamos na generalidade, sem encaixar a que género nos referimos (ao contrário do Futebol, no qual, por exemplo, se faz questão de falar em “Futebol Feminino” e não apenas “Futebol”). Ainda assim, existe sempre espaço para melhorar e há uma disciplina do Atletismo que, ainda hoje, é das mais desiguais. Falo da Marcha.
Desde 1932 que os homens percorrem a distância de 50 km em Jogos Olímpicos. Já no que diz respeito a Mundiais, os 50 km fazem parte, do programa masculino, desde a primeira edição, em 1983. Na verdade, a primeira experiência de campeonatos globais organizados pela IAAF foi em 1976, na Suécia, com apenas um evento: os 50 km Marcha masculinos!
No entanto, para se perceber a desigualdade histórica na Marcha, devemos olhar mais a fundo para a disciplina e não apenas para os 50 km. Os primeiros eventos de Marcha em Jogos Olímpicos foram os 3.500 metros e as dez milhas nos Jogos de Londres, em 1908, no entanto, a primeira vez que a Marcha foi praticada por mulheres, em Jogos Olímpicos, foi com a inclusão dos dez km, em Barcelona, em 1992! Foram, portanto, necessários 84 anos para o COI reconhecer que não são apenas os homens que têm direito a marchar. Já nos Mundiais, os 10 km femininos apareceram cinco anos antes (1987, em Roma), sendo substituídos pelos 20 km apenas em 1999, em Sevilha, um ano antes da distância feminina se estrear em Jogos Olímpicos.
Esta é, portanto, uma “guerra antiga”. Apesar de várias disciplinas se terem aberto demasiado tarde às mulheres (as décadas de 80 e 90 foram bastante importantes para haver maior igualdade de género, desde as provas de distância aos saltos), a verdade é que a Marcha manteve-se “orgulhosamente só”, discriminando o feminino (bem, não incluamos, para já, o caso do Decatlo/Heptatlo, que chegará um dia).
2016 foi um ano crucial para a igualdade nos 50 km. Nesse ano, em Roma, decorreu a World Race Walking Team Championships. O evento, por equipas, correu bastante bem a Portugal, alcançando nos 20 km femininos a quarta posição (Ana Cabecinha foi sexta e Inês Henriques oitava, depois de uma desqualificação). No entanto, a grande notícia nas distâncias maiores é que, pela primeira vez, as mulheres puderam competir numa prova de 50 km, não tendo uma prova própria, mas podendo competir com os homens, contando também para a classificação final por equipas. Claro que não era o cenário ideal e claro que não era, ainda, uma prova feminina, mas foi um passo que muitos consideraram necessário para o que viria a acontecer no ano seguinte.
Depois da distância, no feminino, ter sido oficialmente aprovada pela IAAF (agora, World Athletics), o ano de 2017 deu-nos a primeira recordista oficial do evento: Inês Henriques!
Antes, a IAAF já havia deliberado que, a partir de 1 de Janeiro desse ano, qualquer performance abaixo das 4:30:00 seria aceite, cumprindo os pressupostos para recorde mundial. Com essa aguardada aprovação, após vários anos de luta pela integração da distância, Inês Henriques participou nos Campeonatos Nacionais, em Porto de Mós, a 15 de Janeiro. Mostrando estar totalmente preparada, a portuguesa terminou a prova em 4:08:26 (apesar de difíceis 5 km finais em mais de 30 minutos).
Dúvidas, no entanto, se mantiveram, relativamente à incorporação da disciplina, no feminino, nos Mundiais de Londres. A IAAF defendia não ter tempo para a mudança de programa, argumentando ainda que não existiam atletas femininas, de elite, em número suficiente para que o evento fosse suficientemente competitivo para fazer parte do programa dos Mundiais nesse ano.
A intenção inicial da IAAF era que as mulheres pudessem participar na prova masculina (sem medalhas femininas) e que, para se qualificarem, deveriam alcançar o mesmo mínimo que os homens (4:06:00), algo que não acontece em nenhuma disciplina. No entanto, várias federações pressionaram a organização (o treinador de Inês Henriques, Jorge Miguel, foi um dos que mais esteve na frente dessa batalha) e a ameaça de uma ação legal contra a IAAF, interposta pelo advogado norte-americano Paul DeMeester, foi fundamental para que a organização se tenha decidido pela inclusão da prova nos Mundiais de Londres… 12 dias antes do início dos Campeonatos!
Nessa decisão, anunciada a 23 de Julho, a IAAF deliberou também que a marca de qualificação – 4:30:00 – teria que ser alcançada até ao dia 25 desse mês… e que as atletas apenas poderiam terminar a prova, caso passassem o quilómetro 48 com um tempo abaixo de 4:17, no que muitos viram um “presente envenenado” por parte da IAAF. O mínimo da IAAF apenas tinha sido alcançado por cinco mulheres até essa data, ao qual se juntaram duas outras campeãs de área.
E assim, a 13 de Agosto de 2017, fez-se história, com sete mulheres a partirem, junto com os homens, para a primeira prova de 50 km feminina na história dos Mundiais. Inês, que junto com o seu técnico, muito batalhou por essa inclusão, confessou, num especial BnR Modalidades, que essa foi a maior vitória, mas para ela ainda estava destinada a maior recompensa de todas.
Inês Henriques terminou a prova em primeiro lugar, tornando-se na primeira campeã mundial do evento e melhorando o seu recorde mundial para 2:05:56. Repararam na marca? Sim, Inês não só foi campeã mundial (com direito a medalha de Ouro e prémio monetário de $160.000), com recorde mundial, como o fez com uma marca que cumpria os mínimos pedidos aos homens, dando uma verdadeira chapada sem mão à IAAF e a quem tanto complicou a inclusão da prova feminina ao mais alto nível. Nesse dia, Inês precisou de se superar e fazer o que nunca alguém tinha feito, apenas para poder ter os mesmos direitos que os homens.
A IAAF, no entanto, apenas “arrumou a viola” temporariamente. Apesar de a prova continuar a fazer parte do programa e ter sido incluída nos Mundiais de Doha do ano passado, a verdade é que a organização já anunciou que pretende reduzir distâncias e os 50 km deixarão de ser marchados em Mundiais, seja por homens ou mulheres. Muitos culpam a IAAF, outros dizem que a IAAF apenas está a querer agradar ao COI que, há muito, pretende a exclusão dos 50 km dos Jogos Olímpicos, por considerá-la uma prova longa e sem interesse comercial.
A verdade é que, no que diz respeito à igualdade de géneros ou direitos humanos no geral, o COI sempre se mostrou menos progressista do que a IAAF e, para os Jogos de Tóquio, agora apenas em 2021, ainda teremos os 50 km masculinos (pela última vez?), mas as mulheres apenas deverão ter os 20 km para participar. Essa vitória, talvez, já não esteja ao alcance de Inês, mas o lugar na história que alcançou, já ninguém o tira.
Foto de Capa: World Athletics
Artigo revisto por Inês Vieira Brandão













