O Regresso a Casa é uma rubrica na qual os antigos redatores voltam a um lugar que bem conhecem e recordam os seus tempos remotos, escrevendo sobre assuntos actuais.

O amante de futebol vive um desafio: ver a maior quantidade de (bons) jogos, mesmo que nos últimos tempos ande a maior parte do seu tempo entre as divisões da sua casa, e que essas partidas sejam disputadas sem adeptos nas bancadas. Há quem siga esses encontros, mas há quem não tenha interesse em vê-los por considerar esta época perdida, devido à grande paragem provocada pela pandemia. Para este primeiro grupo de pessoas – para o qual eu sou suspeito – pergunto: quanta concentração precisamos para ver este futebol? É assim que devemos consumi-lo por tempo indeterminado?

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O futebol à porta fechada não me encanta, porque não acredito ser necessária tanta concentração para desfrutarmos do jogo. O que está à volta deste desporto, como factor de união e auto-conhecimento, também nos cativa. Mas terá de ser desta forma que iremos ver campeonatos a serem decididos e a festa nas ruas não poderá ser feita – o que irá acontecer com a Liga dos Campeões, em Lisboa, tão perto de muitos que nos lêem.

A confirmação da vinda da maior competição do futebol Europeu nunca deixará de ser uma boa notícia para o país, mas a recepção e abordagem política ao evento não foi de todo a melhor. O Primeiro-Ministro, António Costa, exaltou que a realização da Liga dos Campeões em Lisboa era “uma vitória dos portugueses”, nomeadamente dos “profissionais de saúde”, que continuam a travar o crescimento de casos de covid-19.

A classe política governante, no seu inconsciente, à procura de se afirmar no poder no futuro, não se conseguiu conter com os frutos que a “Champions” pode trazer à economia nacional. Por breves momentos, reparámos num esquecimento do número crescente de casos na capital, arredores e infelizmente, outra vez, em outros pontos do país – não é exequível, neste panorama, supor que esta fase final da Liga dos Campeões seja feita com adeptos nos estádios. E assusta ainda mais o presidente da UEFA, Aleksander Čeferin, afirmar tranquilamente que não existe um plano B, caso nada possa acontecer na capital portuguesa.

Toda a conjuntura em Lisboa preocupa, é vista atentamente lá fora e haverá certamente uma enorme pressão no universo político (talvez vergonha) em não voltar atrás, a uma situação próxima de confinamento. É necessário fortificar dois substantivos: lei e ordem, especialmente nesta altura de Verão, onde cresce a tentação de voltar a fazer uma vida normal e surgem problemas sazonais como os incêndios e a necessidade súbita das forças de socorro. O combate ainda não está ultrapassado, o “milagre português” não existiu – felizmente, a evolução da pandemia travou muito devido ao nosso forte confinamento – e é impensável estar ao sabor do número de casos, que nunca param de aumentar a cada dia que passa.

Portugal destacou-se pela organização de eventos desportivos como a final da Liga dos Campeões de 2014, a Liga das Nações de 2019 e ainda o Euro 2004, que tanta saudade nos deixa, vamos querer ser nós próprios a deitar todo esse trabalho e poder? Foi “prometida” uma final europeia na cidade do Porto até 2026, e no ano passado foi levantado um véu para uma eventual realização de um Campeonato do Mundo inédito e intercontinental com Espanha, e, quem sabe, Marrocos. Muito desse trabalho vai sendo feito e começa agora a ganhar novas proporções, especialmente na imagem de Portugal no universo futebolístico (melhorar a qualidade do seu campeonato e não apenas exportar o “seu produto para fora”) e em toda a sociedade que precisa de mais apoio e união do que nunca. O mesmo se aplica aos nossos festivais de música, à “gigante” WebSummit e outros grandes eventos pelo país – vamos mesmo querer perder isso tudo? Que esta Liga dos Campeões também trate de coroar a atitude da população portuguesa, que ainda precisa de se consciencializar sobre o tempo que vivemos.

Voltando ao futebol, muitos dos adeptos, tal como muitos que escrevem e lêem o Bola na Rede, tiveram outro desafio: o de se refugiarem na substância do jogo. Provavelmente nunca assistimos a tanto debate de ideias, como no BnR TV, ao acesso aos protagonistas de todas as idades e muitos conteúdos de recordação. Houve tempo para olhar para trás e aprender. Por isso, agora “regressei a casa”, a pensar no futuro, porque queremos voltar a ver bom futebol, queremos comunicá-lo ao maior número de pessoas possível, recuperar hábitos de trabalho, a nossa sanidade até, e saber que, mesmo à distância, vem aí Messi (e tantos outros craques) e a Liga dos Campeões a Lisboa. Foram em apenas três ocasiões que o astro argentino marcou presença nos relvados da nossa capital e vamos aqui relembrá-los.

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Desde os galácticos do Real Madrid, do grandioso Barcelona de Rijkaard e Guardiola, e ainda a conquista da Liga dos Campeões do Porto de Mourinho em 2004, o Francisco tem o talento de meter bola em tudo o que é conversa, apesar de saber que há muitas mais coisas que importam. As ligas inglesa e alemã são as suas predilectas, mas a sua paixão pelo futebol português ainda é desmedida a par com a rádio. Tem também um Mestrado em Jornalismo na Escola Superior de Comunicação Social, em Lisboa.                                                                                                                                                 O Francisco não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.