João Prates está na Tribuna VIP do Bola na Rede. É treinador de futebol, licenciado em Psicologia do Desporto e está no seu espaço de opinião no nosso site. O técnico de 52 anos já orientou o Dziugas da Lituânia, o Vaulen da Noruega e o Naft Maysan, do Iraque, e esteve na formação do Al Batin e Hajer Club da Arábia Saudita.
Com Francesco Farioli, o FC Porto tinha algo que no futebol vale ouro e raramente faz barulho, estabilidade. Uma defesa a funcionar, números claros, quatro golos sofridos, uma dupla de centrais sólida, Jan Bednarek e Jakub Kiwior, rotinas consolidadas, confiança instalada, aquela base silenciosa que sustenta uma equipa competitiva sem precisar de discursos grandiosos. E depois muda-se. Não por rendimento. Não por quebra de forma. Muda-se por nome.


Quando entra Thiago Silva no onze do FC Porto, caem várias coisas ao mesmo tempo. Cai uma regra que foi defendida durante meses, a do pé dominante. Cai a lógica da continuidade. Cai a hierarquia construída dentro do campo. E quando tantas referências caem de uma vez, o balneário sente. Sempre sentiu. Vai sempre sentir. O futebol pode mudar sistemas, modelos, ideias, mas há princípios humanos que não acompanham as modas.
Este tema não é sobre atacar jogadores. É sobre perceber o impacto das decisões. O balneário aceita quase tudo, menos incoerência. Uma dupla que funciona não se mexe. Não está escrito em lado nenhum, mas está gravado em todos os balneários profissionais ou não. Quando se mexe nessa dupla para acomodar um nome sonante, a mensagem enviada não é tática, é simbólica. O mérito deixa de ser critério absoluto e o estatuto passa a contar. A partir desse momento, algo muda no ar, é inevitável, é humano.
A perceção de justiça é um dos pilares invisíveis de qualquer grupo de alto rendimento. Quando ela se quebra, não há alarme imediato. Não se vê logo no treino. Vê-se nos detalhes. No meio segundo de atraso na cobertura. Na comunicação que deixa de ser instintiva. No jogador que já não corrige o colega porque sente que afinal não vale tudo o mesmo. O futebol vive de confiança e a confiança constrói-se com coerência, não apenas com discursos.


Os jogadores não exigem decisões perfeitas, exigem critérios claros. Aceitam ser suplentes, aceitam sair do onze, aceitam perder espaço quando sentem que o caminho é o mesmo para todos. O que não aceitam é a mudança constante das regras a meio do jogo. Hoje um critério é inegociável, amanhã evapora-se. Hoje a hierarquia é clara, amanhã é redesenhada sem explicação. É aqui que nasce a desconfiança silenciosa, aquela que não gera conflitos abertos, mas corrói tudo por dentro.
Quem viveu balneários reconhece estes sinais à distância. Arrisco dizer que Lucho González, adjunto de Farioli no FC Porto, não se revê neste tipo de detalhes. Porque quem passou por dentro do jogo sabe que estas coisas não passam em branco. Não há rebelião, não há sabotagem, não há jogadores a querer perder. Isso é conversa simples para problemas complexos.


As equipas não perdem porque alguém entra em campo para jogar mal. Perdem porque o futebol não é só pernas, é cabeça, é confiança ,é sentir que quem está ao teu lado está ali porque merece, porque respondeu, porque cumpriu, não porque tem nome, passado ou currículo. Quando essa sensação se perde, o rendimento cai, mesmo que ninguém saiba explicar exatamente por quê.
O treinador não perde um balneário num dia. Perde-o aos poucos. Uma exceção mal explicada. Um critério que muda sem aviso. Uma decisão simbólica disfarçada de opção tática. O grupo não explode, afasta-se. E quando isso acontece, já não há modelo de jogo que salve.
A gestão de balneário vive destes detalhes que parecem pequenos para fora e são gigantes por dentro. No futebol profissional, os erros mais caros raramente nascem de más ideias. Nascem de incoerências. E quando a coerência falha, o jogo acaba sempre por cobrar a fatura, dentro de campo e fora dele, porque no futebol, como na vida, ninguém rende bem num sistema em que deixa de acreditar.
O campeonato abriu de novo, e temos um FC Porto x Sporting à frente, vamos ver a equipa que Farioli escolhe.

