Agosto de 2019, numa realidade alternativa, em vésperas do começo do campeonato português, todos os guarda-redes da Primeira Liga, titulares e respetivos suplentes, combinaram, em segredo, uma reunião. Lá, discutiriam que medidas deveriam adotar para fazer face às constantes críticas que os adeptos dos seus clubes lhes dirigiam, quando, por um mero infortúnio, não conseguiam impedir que uma bola, classificada pela opinião pública como defensável, tocasse as suas redes.

“Estou cansado de tantas críticas”, dizia um. “Quando um avançado falha, não recebe metade das críticas que nós recebemos quando erramos; quando decidimos um jogo, não recebemos metade das glórias que um ponta de lança recebe”, complementava outro.

Estava decidido. De modo a que fosse dado o devido reconhecimento aos guardiões, estes fariam greve durante toda a temporada, porém de uma forma bastante peculiar. Treinariam normalmente com os seus companheiros, entrariam em campo quando fossem chamados para tal, contudo não iriam defender um único remate que fosse dirigido às suas balizas.

E, assim, começou o campeonato nacional. Sem que nenhum dos outros intervenientes no jogo tivessem conhecimento desta greve, os treinadores arquitetavam as suas estratégias normalmente, os jogadores de campo atuavam como habitualmente.

Anúncio Publicitário

Em suma, tudo mantinha-se inalterado. Bom, tudo à exceção dos remates à baliza: nesta realidade paralela, todos os remates ocorridos no nosso universo eram transformados em golo, devido à inoperância dos guarda-redes da Primeira Liga.

Tudo corria bem (apesar de algumas desconfianças e boatos lançados em programas televisivos), até que chegámos à vigésima quarta ronda da prova. A pandemia que agora vivemos atingiu de igual forma  esta nossa nova realidade, forçando, consequentemente, a uma pausa nas competições desportivas.

Agosto de 2019, numa realidade alternativa, em vésperas do começo do campeonato português, todos os guarda-redes da Primeira Liga
Assim estaria a tabela classificativa do campeonato nacional, à vigésima quarta jornada, neste universo paralelo
Fonte: José Mário Fernandes/Bola na Rede

Comparando ambos os universos (o nosso e o imaginário), é possível verificar que, caso a equipa que mais remates efetuasse à baliza vencesse sempre, algumas modificações iriam ocorrer, sobretudo na tabela classificativa.

Comecemos pelos lugares cimeiros. Nas posições que dariam acesso às competições europeias na temporada seguinte, são percetíveis algumas mudanças: uma troca direta entre SC Braga e SL Benfica, nos últimos lugares do pódio, juntamente com a inclusão de Vitória SC e de FC Famalicão no quarto e quinto postos, respetivamente. Em termos de liderança, o FC Porto continuaria a vestir a camisola amarela, desta vez ainda mais isolado.

No que toca a Sporting CP e Rio Ave FC, quarto e quinto classificados na nossa realidade, ambos cairiam algumas posições neste novo universo: os leões ocupariam o sétimo lugar, ainda que possua a mesma pontuação em ambas as realidades; os vilacondenses sofreriam a maior queda nesta comparação, “aterrando” apenas no décimo quinto posto, com menos catorze pontos.

No que toca à zona de despromoção, destaque para a presença do Belenenses SAD no último lugar da classificação, com apenas nove pontos arrecadados. Aquele que ocupa esta mesma colocação no universo em que vivemos, o CD Aves, ascenderia ao penúltimo lugar, conquistando, neste campeonato imaginário, mais quatro pontos.

Relativamente ao Portimonense SC, clube que se encontra abaixo da linha de água no nosso mundo, encontra-se separado por uma margem de vinte pontos da linha de água nesta realidade paralela num confortável oitavo lugar. O clube algarvio acabaria mesmo por possuir a maior subida neste campeonato paralelo.

No que aos golos diz respeito, devido ao facto de todos os remates à baliza efetuados na nossa realidade serem transformados automaticamente em golo neste universo, todos os clubes teriam um maior número de golos, quer marcados, quer sofridos. Dentre os dezoito clubes, destaque para o SC Braga, clube com mais golos marcados, para o FC Porto, equipa com melhor registo em termos defensivos, e, pela negativa, para o Belenenses SAD, equipa com menos finalizações certeiras e com o maior número de golos sofridos.

Por último, a maior goleada neste universo paralelo foi registada no Belenenses SAD 4-15 SC Braga, um jogo em que os bracarenses, na realidade que nos rodeia, acabariam também por golear, porém “apenas” por 1-7.

Comentários