A tolerância que a passagem do tempo oferece não nos pode dissociar daquele que foi o mais hediondo crime que o destino cometeu para com quem, no universo benfiquista e futebolístico, vê o desporto como expressão artística: Pablo Aimar e Jonas desencontraram-se por um mísero ano.

O SL Benfica, casa de tantas gerações de craques, foi o maior lesado nesta sádica piada do tempo, na qual uma insignificante janela cronológica separa o adeus do maior playmaker desde Valdo e Rui Costa e a chegada do maior avançado estrangeiro da história do clube, de braço dado com Óscar Cardozo.

Foi de tão mau gosto a piada, que o trauma perdura e há-de perdurar para sempre – assombrosos são os ‘ses’ que apoquentam o imaginário de cada um de nós adeptos, lesados principais, definindo-se como mágoa maior que se sobrepõe à máxima anterior: que nível atingiria Pedro Mantorras se estivesse a salvo das lesões?

Aimar foi embora em 2013, já cansado das sucessivas chatices que o encaminhavam consecutivamente para a enfermaria. Chegou a um ponto em que o seu colossal talento não se sobrepunha aos poucos quilómetros que o corpo disponibilizava. De 90 minutos passou a fazer 60, até se despedir definitivamente nos 45 que fez em Instambul, na meia-final da Liga Europa. Foi o ponto final numa passagem enternecedora, que ao mesmo tempo nos deixou a todos de semblante carregado, desiludidos com as circunstâncias da sua aventura em Portugal, pois o Benfica merecia ter tido um Aimar no clímax das suas potencialidades.

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2013-14 já só é atacado com Rodrigo e Lima, às vezes Cardozo. O paraguaio seguia o caminho do argentino, já não correspondia aos chamamentos da estratégia de pressão imposta por Jesus. A dupla brasileira, com outra capacidade atlética, fazia as delícias do técnico e relegavam o ponta-de-lança para um papel secundário, que tem o auge na segunda mão da meia-final da Taça com o FC Porto, no sempre inesquecível ‘3-1 de André Gomes’: na expulsão de Siqueira, aos 28’, surge oportunidade para a suprema demonstração de auto-consciência de lendário assassino de área, que sugere ao treinador que o substitua – na percepção plena que a sua continuidade em campo seria sempre mais nefasta que colaborativa. Foi assim o último grande golo de Tacuara. Um golo cheio de dignidade.

Fonte: UEFA

A chegada de Jonas, na temporada seguinte, motiva exercícios mentais frustrantes que se tornam fúteis à nascença, nos quais a imediata reflexão revela a sua inutilidade. Apesar disso, o mundo da imaginação colectiva é um dos mais belos patrimónios imateriais que o futebol nos proporciona.

Debater-se-á para sempre, às custas de um desesperado ‘e se’, o mais tentador e utópico cenário desta década de Benfica: o que seria de Aimar-Jonas no apoio a Cardozo? Pura loucura e paixão. Exaltação demoníaca assente nos mais puros e delicados ideiais românticos numa relação que se tornaria a mais bela dentro de um campo de futebol. E, nós sortudos com a oportunidade de já ter visto Aimar-Saviola, salivamos sincronizadamente na mera hipótese de juntar Aimar a Jonas, génios com a mesma linguagem futebolística.

A possibilidade de juntar os dois no mesmo rectângulo de jogo invocará uma série de perguntas sem resposta, condições que à distância de meia dúzia de anos se tornam ridículas, dado o desplante com que se propõem – e se o físico de Aimar tivesse permitido mais uma temporada ou duas? E se Jonas tem chegado mais cedo?

O peso da idade e as lesões empurraram o argentino pelas traseiras. O mesmo destino teve Jonas às custas de um ingénuo Nuno Espírito Santo na chegada a Valência, mas felizmente houve quem no Benfica tivesse a visão que faltou antes.

O destino não quis o concílio dos dois na Liga NOS, assim que talvez fosse demasiada elegância e nível para futebol tão pobre de valores. Ganha quem mais grita e mais corre, quem com mais força derruba o adversário e quem, na luta das alturas, alivia melhor de cabeça em lutas bárbaras onde interessa tudo menos a bola.

Artigo revisto por Inês Vieira Brandão

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