Este é um daqueles casos em que o que hoje é um universo paralelo, amanhã poderá ser a realidade do campeonato nacional. Pedro Proença terá uma decisão importante nas mãos e o mais complexo será conseguir que os clubes cheguem a um acordo.

Uma possibilidade será um play-off a duas mãos para decidir o campeão. Nesta altura, com dez jornadas por jogar, a luta do título restringe-se à rivalidade SL BenficaFC Porto. O clube azul e branco lidera por um ponto e com vantagem no confronto directo. Com 30 pontos por disputar, esta é uma margem mínima e, não havendo calendário para disputar o campeonato até ao fim, um duelo a dois será a decisão lógica. Um duelo em que poderá ser dada a palavra ao FC Porto na definição de quem joga primeiro em casa.

Nessa realidade ainda paralela, Pinto da Costa, ouvindo e seguindo a opinião de Sérgio Conceição, anuncia que o FC Porto irá disputar a primeira-mão no Estádio da Luz e o jogo decisivo na Estádio do Dragão.

Assim arranca Junho. Depois de um mês de Maio com 20 dias de pré-época, nos quais os clubes aproveitaram para preparar fisicamente os seus jogadores e lhes dar ritmo competitivo com três jogos amigáveis à porta fechada, finalmente, a 5 de Junho, o futebol nacional abre-se aos adeptos.

Anúncio Publicitário

Sábado, às 18h, o Estádio da Luz brilha num bonito dia de sol e enche-se de adeptos eufóricos por voltarem a ver a bola rolar ao vivo, por voltarem a viver o seu clube e por começarem a decisiva luta pelo título contra o seu mais forte rival.

A euforia nas bancadas contrasta com o nervosismo no relvado. As equipas entram prudentes e receosas. Os visitantes sabem que têm um segundo jogo perante os seus adeptos. Os encarnados receiam aquele golo forasteiro que pode ditar a consagração final.

A bola vai sendo mais benfiquista, mas são os arranques de Diaz, Corona e Marega que vão criando maiores sobressaltos no jogo. Após uma sequência de vários cantos, ao décimo sexto minuto Jesus Corona acaba mesmo por colocar a bola na cabeça de Marcano, que ao primeiro poste finaliza perante a passividade da defesa encarnada.

Os adeptos encarnados desesperam. Os jogadores tremem. E a equipa de Sérgio Conceição ganha um novo ânimo. Os azuis e brancos dominam o resto do jogo até ao intervalo, um domínio que acaba sempre por esbarrar em mais uma exibição incrível de Odysseas Vlachodimos.

O intervalo traz um novo oxigénio aos jogadores de Bruno Lage. A equipa encarnada entra em campo com um novo respirar e empolgada por um Estádio da Luz cheio de crença a gritar pelo clube com um infinito oxigénio nos pulmões.

Com um resultado muito positivo nas mãos, e já ciente da inevitável reacção do adversário, Sérgio Conceição aborda a segunda parte com uma equipa mais recuada, mais fechada no seu meio-campo e focada em esporádicos lançamentos longos a explorar rápidos contra-ataques.

Joga-se mais com o coração, um vulcão de emoções que resulta num aumento das faltas, das disputas de bola e das correrias desenfreadas. Pouca criatividade, muita luta. Minuto 60 e tudo igual. Minuto 70 e mantém-se a vantagem portista.

Em campo já se encontra Seferovic ao lado de Vinícius, estando o centro do terreno entregue ao guerreiro Samaris. No lado portista, Mbemba complementa o trio defensivo portista enquanto Sérgio Oliveira se junta a Danilo e Uribe. Numa altura em que o jogo directo começa a imperar, é a criatividade que acaba por triunfar. Uma tabela entre Pizzi e Rafa desequilibra a defesa portista com o extremo português a fugir à marcação e a ser carregado em falta já dentro da grande área.

Decorre o minuto 78′ e Pizzi avança. O estádio treme, mas a bola entra. Está feito o 1-1, está feito o golo do empate. A nação benfiquista respira de alívio e o jogo termina mesmo empatado.

Pizzi é uma das figuras do play-off
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

Uma semana depois, é a vez do Estádio do Dragão encher. Dia 12 de Junho é o dia da consagração do novo campeão nacional. 4-3-3 vs 4-2-3-1. Luta, garra e lançamentos rápidos vs confiança, toques e criatividade.

A equipa de Sérgio Conceição parte em vantagem. Numa primeira parte equilibrada, os azuis e brancos mais uma vez partem na frente do marcador. Diaz, servido por Sérgio Oliveira, partiu a direita defensiva encarnada, livrou-se de Rubén Dias e coloca no segundo poste de Odysseas. Decorre o minuto 33 e o Porto adianta-se no marcador.

Uma primeira parte em que um lance individual ditou a diferença no marcador. O FC Porto quis mais, mas não fez mais que os encarnados. Em desvantagem, para o segundo tempo Bruno Lage lança Dyego Souza. O avançado luso-brasileiro junta-se a Vinícius na frente de ataque.

Para os adeptos benfiquistas que estão no Estádio do Dragão, uma névoa levanta-se no relvado. Não entendem o que estão a ver. Olham Dyego Sousa, mas observam César Brito, esfregam os olhos e o jogo continua. 

Os azuis e brancos agora defendem uma vantagem mais confortável. Weigl serve Pizzi à direita, que procura a combinação com Taarabt, mas não entra. O marroquino agora procura a esquerda do ataque. Desmarca Rafa, mas aparece Pepe a cortar.

Os minutos passam e os adeptos encarnados continuam com a visão desfocada. Enquanto a bola roda pelos jogadores, um avançado de vasta cabeleira vai ajeitando o cabelo enquanto procura o espaço para furar a defensiva portista. Agora é Nuno Gomes que aparece no apoio a Vinícius. Voltam a esfregar os olhos e o jogo prossegue.

A partida chega ao minuto 74′. Marchesin defende um remate de Vinícius para canto. Grimaldo assume, olha para área e bate tenso. Na entrada da pequena área, Dyego Souza antecipa-se a Pepe e de cabeça empata o jogo e a eliminatória. Rafa corre, agarra na bola e leva-a para o meio-campo. Rubén Dias, repetidamente, levanta os braços e puxa pelos adeptos encarnados que agora gritam mais alto que nunca.

O Estádio do Dragão treme, Sérgio Conceição corre louco no banco, o FC Porto percebe que a eliminatória acabou de mudar de cor. O jogo prossegue num vulcão de emoções. Vinícius dá o lugar a Chiquinho. Zé Luís rende Uribe.

O Porto tenta ter mais iniciativa, mas a bola rola melhor nos pés dos encarnados. O jogo caminha para o fim e já cheira a prolongamento.

Numa tentativa de servir Marega, Marcano bate longo, mas Ferro antecipa-se ao maliano, domina de peito e coloca rápido em Grimaldo. Estamos no minuto 88. O lateral espanhol respira, levanta a cabeça e arranca. Flete para o centro e deixa Corona pregado à linha, coloca em Weigl que rapidamente lhe devolve a bola com o Uribe a controlar a tabela com os olhos.

Grimaldo prossegue, toca na frente para Vinícius, que apertado por Marcano segura e toca para Pizzi. O capitão encarnado domina a bola, levanta a cabeça e levanta o esférico. Não é cruzamento nem é remate. Pizzi faz a bola sobrevoar a defesa portista e encontrar Dyego totalmente isolado frente a Marchesin.

Bate o minuto 89′, aproxima-se o minuto 90′. O jogo decorre em câmara lenta. A bola amortece no peito do avançado encarnado, que vê o guardião portista sair dos postes. Assim que a bola toca o seu pé é imediatamente picada, deixando lentamente Marchesin para trás e começando a descer em direcção ao segundo poste. O estádio prende-se numa inspiração infinita e a bola cruza a linha e encontra o conforto na malha lateral, no fundo das redes do Dragão.

Os adeptos encarnados vibram, vibram mas hesitantes. Estão a olhar para o festejo do avançado. Sozinho, no ar, de frente para os adeptos portistas e com os braços dobrados e punhos cerrados… “A vida é uma festa”, lê-se. É a loucura encarnada e é Lima que se junta aos seus antecessores a empurrar Dyego para a glória eterna.

Os jogadores encarnados correm, correm a abraçar o avançado. Todo o banco encarnado salta invadindo o relvado. Faltam cinco minutos para o apito final, mas a festa já é encarnada. O desespero portista não encontra compatibilidade na curva da bola. E o árbitro coloca o apito na boca.

O mar azul já abandona o Dragão ao som da consagração do campeão.“E o Benfica é campeão, e o Benfica é campeão”, grita-se num só pulmão.

E a 12 de Junho faz-se história. E consagrado para todo o sempre na glória encarnada, fica o nome do marcador: Dyego Lima Gomes Brito Sousa.

Artigo revisto por Inês Vieira Brandão