Portugal estava a um passo de fazer ainda mais história em solo alemão. Na Allianz Arena, a Seleção Nacional tinha uma ‘oportunidade de ouro’ para chegar à final do Mundial, algo que não conseguiu em 1966, mas para isso acontecer era necessário ultrapassar um adversário que não traz boas memórias: tendo eliminado a equipa das Quinas na meia-final do Euro 2000, a França queria repetir o mesmo feito e alcançar novamente o jogo de atribuição do título de campeão do Mundo como em 1998, em que venceu em casa o Brasil por 3-0.

Os comandados de Scolari tinham já ultrapassado a Holanda e Inglaterra, com ambos os duelos a exigirem um esforço titânico por parte dos atletas portugueses, que acreditavam que a ida a Berlim era de facto possível de ocorrer. Do lado francês, Zidane era o comandante da armada gaulesa que venceu os jogos frente a Espanha e Brasil com elevada categoria e pretendia outra vez ser o “carrasco” de Portugal.

Com uma excelente atmosfera, o jogo começou com a França a querer logo visar a baliza de Ricardo, através de Malouda que fugiu bem da marcação de Miguel, mas o seu remate saiu sem a direção desejada. Portugal entrou adormecido na partida e Deco tratou de despertar os seus colegas: o mágico médio remata à entrada da área para uma defesa incompleta de Barthez, Pauleta chega atrasado a uma possível emenda e o resultado não se altera. O aviso luso estava dado para quais as verdadeiras pretensões para o resto da meia-final.

Aos oito minutos, foi Maniche a querer abrir o marcador em Munique e o seu remate causou perigo. Aos 13′ foi a vez de Ribéry combinar com Abidal, para o lateral cruzar para Henry que chegou atrasado por centímetros, deixando Scolari no banco a suspirar de alívio.

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O bom ritmo dos primeiros 15 minutos foi rapidamente abaixo e o encontro entrou numa toada diferente. Os dois lados passaram a jogar mais na contenção, embora a França parecia estar por cima. Portugal ia tentando em vão lançar o contra-golpe até que, aos 31 minutos, os franceses iriam dispor de uma ocasião soberana para fazer o primeiro golo: Henry é tocado por Ricardo Carvalho e o árbitro apontou de imediato para a marca de onze metros.

O povo português nem precisava de rezar para que Zidane falhasse a grande penalidade, uma vez que na baliza estava um guarda-redes habituado a defender castigos máximos. Depois de ouvir o apito, o número 10 dos gauleses correu convicto para marcar mais uma vez a Portugal, mas Ricardo consegue parar eficazmente a bola e mantém tudo empatado. A estrondosa defesa do guardião do Sporting CP lançou a euforia no banco português, onde Scolari voltava a suspirar de alívio. Até ao descanso, não houve mais nada a assinalar e os jogadores foram para o balneário com o nulo no marcador.

Motivada pela defesa soberba de Ricardo, a seleção portuguesa entrou com toda a pujança no reinício da partida e abriu o marcador logo aos 47 minutos: o “puto maravilha” Ronaldo arranca do lado direito, tira dois defesas do caminho e assiste Pauleta que faz o 1-0. Enorme festa do lado português que estava agora mais perto de chegar a final.

Como seria de esperar, a reação francesa não demorou a surgir e foi novamente Zidane a testar a atenção de Ricardo num remate fora de área, com o guardião a fazer uma excelente parada e a manter Portugal na frente do marcador. A iniciativa de jogo passava a ser do lado francês que estava obrigado a correr atrás do prejuízo, com os portugueses a limitarem-se a defender e à espera de lançar um ataque “venenoso” para acabar com as dúvidas quanto ao vencedor do jogo.

Sem grande vontade de esperar por um rasgo genial de Zizou ou Henry, Raymond Domenech adota uma estratégia mais atacante e lança Louis Saha e David Trezeguet, de forma a ter mais homens na frente de ataque. Contudo, isso acabaria por ser fatal para os franceses…

O relógio do jogo estava a favor dos portugueses que iam fazendo os possíveis para o tempo passar o mais rápido possível, o que estava a correr de feição, apesar do enorme amasso sofrido: Ribéry (60’), Trezeguet (67’) e Henry (71’) podiam ter feito o empate, mas as suas tentativas foram facilmente defendidas por Ricardo. A França bem tentava de todas as formas possíveis chegar ao 1-1, contudo a defesa portuguesa estava concentrada e ia mantendo a baliza a zeros.

E como diz a velha máxima “Quem não marca sofre”, foi Portugal a “matar” o jogo à entrada para os últimos 10 minutos da partida, através de Simão. O número 11 aproveitou um rápido contra-ataque em que a defesa gaulesa estava descompensada, e no frente a frente com Barthez, picou a bola e fez o 2-0 que carimbou o passaporte para a final. O segundo golo sofrido deitou abaixo o conjunto francês que nem sequer conseguiu reerguer-se para tentar marcar o golo de honra.

Apito final do árbitro uruguaio Jorge Larrionda e a festa portuguesa explodiu de forma vibrante logo no relvado. Pela primeira vez na história, Portugal ia jogar a final dum Mundial e queria terminar a prova com um desfecho totalmente diferente do verificado no Europeu de 2004.

CR17 resolve Final e Portugal é campeão do Mundo

Dia 9 de julho de 2006. Domingo. O povo português reunia-se para voltar a ver a sua seleção numa final, mas desta vez o adversário não era a Grécia, mas sim a Itália. Acabada de eliminiar o anfitrião do torneio com recurso a prolongamento, a squadra azzurra procurava conquistar o quarto título de campeão do Mundo.

Figo, Cristiano Ronaldo e Deco contra Totti, Pirlo e Gattuso. A expetativa era enorme para ver este duelo que decidiria o vencedor do Mundial 2006. Com o Olympiastadion bem lotado, o jogo praticamente começou com o golo de Portugal: minuto sete, Cristiano Ronaldo ultrapassa bem Zambrotta e remata em jeito para o primeiro tento da partida. Buffon bem se esticou, mas “nem com asas” conseguia defender este belo remate do extremo do Manchester United FC. Vantagem madrugadora em Berlim para enorme felicidade dos adeptos portugueses.

Fortemente afetados pelo golo sofrido nos primeiros minutos, a resposta italiana foi tímida e sem grande perigo, com exceção feita para a tentativa de Pirlo num livre frontal aos 20 minutos, em que a bola embateu com estrondo na barra. Esse foi mesmo o único lance digno de registo dos italianos em toda a primeira parte, já que Portugal controlou a seu belo prazer o ritmo de jogo e foi com toda a justiça para o descanso em vantagem.

Insatisfeito com a resposta dada pelos seus atletas, Lippi fez entrar Del Piero com o objetivo de ver outra vez o número sete faturar, como havia acontecido contra a Alemanha. Mal entrou, o atacante quase fez o tento do empate: aos 48’, num canto batido com toda a classe por Pirlo, Del Piero cabeceou e a bola foi ao poste. Mais uma vez, eram os postes a substituir Ricardo e a ajudar Portugal a manter a sua magra vantagem.

Nesta fase do jogo, Portugal estava mais remetido a tarefas defensivas como seria de esperar, embora Ronaldo não quis limitar-se a defender e fez mesmo o segundo golo luso aos 65’ numa bela combinação com Deco à entrada da área, em que Buffon volta a não ter grandes hipóteses de defesa. O sonho de “conquistar o caneco” estava cada vez mais perto de se concretizar!

Iaquinta e Gilardino foram as últimas opções técnicas de Lippi para conseguir um empate milagroso. Scolari percebeu que era o momento para defender a vantagem preciosa de dois golos e fez entrar Ricardo Costa para o lugar de Figo, que recebeu uma enorme ovação no momento da substituição, já que o capitão luso fazia o seu último jogo pela seleção e podia acabar a sua carreira como internacional com “chave de ouro”.

A Itália arriscou tudo para marcar dois golos, o que felizmente para Portugal acabou por não acontecer, já que as maiores estrelas estavam desinspiradas na hora de finalizar. O jogo foi-se encaminhando a passos largos para o seu fim, e quando se ouviu o apito final foi a euforia total! Portugal dava mais um passo histórico e conquista o Mundial, sendo esse o primeiro título da seleção A.

A festa prolongou-se por mais uns dois dias na receção aos 23 heróis nacionais que elevaram a bandeira portuguesa ao patamar mais alto do Futebol e mudaram o “triste fado português”. Portugal parou completamente nesse dia 11 de julho de 2006, com todas as pessoas a querer ver de perto o troféu conquistado com todo o mérito na Alemanha.

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