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Futebol sul-americano | Mudança de paradigma a nível de seleções?

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Agora que se chegou ao final da qualificação para o Mundial do Catar 2022, a América do Sul depara-se com um cenário com o qual não se tem confrontado nos últimos anos: a ausência de nomes de seleções habitualmente presentes nas fases finais de Mundiais. A que se deverá tal acontecimento? Vamos lá tentar descobrir.

É verdade que o número de seleções na América do Sul é curto. É também verdade que o Brasil e a Argentina continuam, definitivamente, num patamar acima de todos os outros. O Uruguai, apesar de apenas ter assegurado a qualificação na penúltima jornada, tem ainda jogadores como Cavani, Luís Suarez, Godín ou Giorgian Arrascaeta ou Muslera, capazes de guiar os mais jovens e promissores Darwin Nunez, Diego Rossi, Pellistri, Ugarte ou Facundo Torres. Há potencial e grandes jogadores a “fazerem-se”, outros já feitos. Têm a clara obrigação de estar no Mundial. Mas, ainda assim, no momento em que escrevo este texto sinto que algo pode estar a mudar no futebol sul-americano.

Ainda que o Peru tenha estado no último mundial, não deixa de ser estranho que seja esta a seleção a ocupar o quinto lugar, que abre ainda uma vaga para o Mundial, num grupo com outras seleções com muito mais talento individual. O mesmo se pode aplicar ao Equador, sem qualquer desprimor por cada um dos plantéis, as diferenças de nomes de uns e outros criam diferenças abissais entre seleções. Mas a verdade é que essas diferenças não se traduzem em resultados no campo.

Quer saber uma curiosidade, caro leitor? Tanto o Peru como o Equador têm algo em comum. Consegue adivinhar o que é? Um treinador argentino, pois é. O Peru conta com Ricardo Gareca ao comando da seleção e Gustavo Alfaro comanda o Equador, enquanto todos as outras seleções, impossibilitadas de chegar ao Mundial, contam com selecionadores caseiros, ou de outra nacionalidade. O treinador argentino tem ganho nos últimos anos grande impacto, não só na América do Sul, como no Mundo, e este pode ser um dos fatores que explica a ausência de seleções, na teoria, mais capazes de chegar à fase final do Mundial. Nomes como Marcelo Bielsa, Jorge Sampaoli, Diego Simeone, Lioenel Scaloni, Antonio Mohamed, Gerardo Martino, entre tantos outros são figuras argentinas que aumentam a lista de técnicos bem-sucedidos, ou pelo menos conhecidos como verdadeiros entendedores do jogo e de todas as suas variantes. Olhar para o Equador e para o Peru é olhar para duas seleções bem montadas e que sabem aproveitar todas as suas potencialidades dentro de campo.

Alguém duvida da superior qualidade da Colômbia que tem nomes como Luís Díaz, James Rodríguez, Cuadrado, Muriel ou Rafael Borré? Não. Alguém duvida da qualidade e experiência Chilena já por duas vezes campeã sul-americana num passado recente? Também não. Mas há algo que se tem notado nos últimos anos. A maior preponderância da tática sobre a qualidade, numa altura em que o futebol sul-americano, também ele, se encontra em constante mudança. Ao simples futebol de rua e jogado com paixão e garra (que ainda se mantêm, felizmente), acrescenta-se agora a força da tática e como ela pode ser importante em momentos decisivos. Viu-se com a chegada de treinadores estrangeiros, e especialmente portugueses, como Jorge Jesus, Abel Ferreira, e agora Vítor Pereira e Luís Castro, com os primeiros dois a servirem de bons exemplos do que se poderia fazer de melhor.

A ausência da Colômbia é certamente pesada, pela enorme qualidade dos seus jogadores, mas acima de tudo, quem olha para os seus jogos percebe o porquê de não vir a estar presente. A ideia de jogo é “passar a bola a quem pode resolver o jogo” e isso acaba por ficar curto contra equipas bem organizadas, ainda que por vezes possa resultar. O Chile terá certamente mais dificuldades, porque parece não se encontrar agora uma requalificação da seleção do mesmo nível daquela que já conquistou a América do Sul. Eduardo Vargas, Alexis Sanchéz, Arturo Vidal, Gary Medel, Charles Aránguiz, entre outros, parecem já não ter o mesmo vigor e não se encontram craques destes todos os dias. Veremos o que o futuro terá para nos oferecer. As ausências de Paraguai, Bolívia e Venezuela não me chocam, ainda que, também aqui poderia haver espaço para se fazer melhor, (veja-se a qualidade dos jogadores que militam nessas seleções) mas claro, não podem passar todos.

Com tudo isto, não pretendo passar a imagem de que a tática poderá ser o único caminho para vencer no futebol da América do Sul. Se não houver uma boa dose de garra, paixão e inteligência emocional, de nada serve planear com todo o detalhe uma partida ao mais ínfimo pormenor.

Gabriel Henriques Reis
Gabriel Henriques Reishttp://www.bolanarede.pt
Criado no Interior e a estudar Ciências da Comunicação, em Lisboa, no ISCSP. Desde cedo que o futebol foi a sua maior paixão, desde as distritais à elite do desporto-rei. Depois de uma tentativa inglória de ter sucesso com os pés, dentro das quatro linhas, ambiciona agora seguir a vertente de jornalista desportivo.

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