Tribuna VIP: Quando o treinador percebe que já não controla o contexto

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João Prates está na Tribuna VIP do Bola na Rede. É treinador de futebol, licenciado em Psicologia do Desporto e está no seu espaço de opinião no nosso site. O técnico de 52 anos já orientou o Dziugas da Lituânia, o Vaulen da Noruega e o Naft Maysan, do Iraque, e esteve na formação do Al Batin e Hajer Club da Arábia Saudita.

Há conferências de imprensa que dizem mais pelo tom do que pelas palavras. Há silêncios que explicam melhor uma época do que qualquer estatística. Após a derrota na meia-final da Taça da Liga, Rui Borges não parecia um treinador à procura de desculpas. Parecia um treinador cansado. Cansado de perder jogadores. Cansado de adaptar planos. Cansado de competir com variáveis que já não controla, as lesões.

Com mais duas lesões a juntar-se a uma lista já pesada, o problema deixa de ser tático e passa a ser estrutural. E é aqui que começa uma realidade que o futebol raramente quer discutir.

O treinador é avaliado por resultados mesmo quando já não consegue reproduzir o processo, mesmo quando o plano deixa de ser o plano. Mesmo quando as rotinas desaparecem, a qualidade baixa e as soluções passam a ser«remendos». Quando as lesões se acumulam, o treino deixa de ser o ideal e passa a ser o possível.

Perde-se qualidade, intensidade, jogadores adaptados a posições e todos tem oportunidade que de outra forma talvez não surgisse. Mas a realidade é só uma, existem sempre jogadores que são a primeira opção.

Rui Borges
Fonte: Paulo Ladeira / Bola na Rede

A preparação já não serve para crescer, serve para sobreviver, e no entanto, o calendário não abranda, há sempre um próximo jogo. há sempre uma exigência intacta, há sempre um resultado à espera. É neste ponto que o treinador sente o nó na garganta, não por medo, mas por impotência de querer fazer o trabalho bem e não conseguir porque não tem as melhores ferramentas.

Impotência por saber que a ideia está lá, mas o contexto não acompanha, Impotência por liderar um grupo que dá tudo, mas não consegue dar mais. Impotência por continuar a ser o rosto de um problema que já ultrapassa o campo.

Lembro-me de viver algo semelhante na Lituânia, poucos recursos, opções , erros que se repetiam não por falta de compromisso, mas por falta de soluções. O plano existia, mas o contexto não ajudava. E todos os dias havia treino, jogo, cobrança, como se tudo estivesse normal. É aí que o treinador cresce ou quebra. Não pelo resultado, mas pela capacidade de continuar a liderar quando sabe que, naquele momento, já não controla tudo.

O futebol profissional vive de resultados, e isso é inegociável, mas quem decide devia saber ler contextos, porque quando se ignora o contexto, a análise torna-se injusta.E quando a decisão é injusta, raramente é inteligente.

O treinador não pede desculpas. Pede apenas que se entenda que nem todos os jogos se perdem por incompetência, nem todos os ciclos se quebram por falta de ideias. Há momentos em que o maior desafio não é ganhar. É continuar a liderar quando já não se controla o jogo das quatro linhas.

E isso, quem nunca esteve lá, dificilmente entende, porque acreditem, ninguém mais que ganhar, do que o treinador.

João Prates
João Prateshttp://www.bolanarede.pt
João Prates está na Tribuna VIP do Bola na Rede. É treinador de futebol, licenciado em Psicologia do Desporto e está no seu espaço de opinião no nosso site. O técnico de 52 anos já orientou o Dziugas da Lituânia, o Vaulen da Noruega e o Naft Maysan, do Egito, e esteve na formação do Al Batin e Hajer Club da Arábia Saudita.

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