João Prates está na Tribuna VIP do Bola na Rede. É treinador de futebol, licenciado em Psicologia do Desporto e está no seu espaço de opinião no nosso site. O técnico de 52 anos já orientou o Dziugas da Lituânia, o Vaulen da Noruega e o Naft Maysan, do Iraque, e esteve na formação do Al Batin e Hajer Club da Arábia Saudita.
Há momentos em que o futebol nos obriga a parar e a fazer uma pergunta simples, mas incómoda: a quem deve servir a ideia de jogo, ao treinador ou aos jogadores?
As recentes declarações de Luís Pinto ajudam a recentrar o debate no essencial. Não se trata de abdicar de identidade, nem de “trair” convicções. Trata-se de compreender o contexto, as características do plantel e o momento competitivo.
Um treinador não é um escultor a trabalhar mármore perfeito. É, antes, um facilitador de rendimento. A nossa função principal não é provar que a nossa ideia é válida, mas sim extrair o máximo rendimento possível dos jogadores que temos à disposição criando a ideia a partir das suas características.A rigidez como inimiga do rendimento
Em teoria, todos gostamos de modelos dominantes, estruturas bem definidas e saídas limpas desde trás. Na prática, o futebol raramente é teórico. Quando uma equipa: luta pela manutenção, tem jogadores jovens, apresenta limitações técnicas em zonas específicas, ou vive um contexto emocional instável, a rigidez torna-se um risco. Não um risco ideológico, mas um risco competitivo.
Manter uma forma de jogar que coloca jogadores em constante desconforto não é fidelidade à ideia. É insistência. E insistência, no futebol, costuma custar pontos. O conforto do jogador como alavanca competitiva. Colocar o jogador confortável não é facilitar. É potenciar. Um jogador confortável decide mais rápido, erra menos, executa com maior confiança, e sustenta melhor o plano coletivo.


Adaptar a estrutura, simplificar comportamentos ou escolher um sistema mais funcional não significa abdicar de princípios. Significa priorizar o rendimento real sobre a estética ideal. O modelo não desaparece. Ajusta-se. Contexto acima do dogma
Há equipas que, mesmo em contextos de pressão extrema, insistem em comportamentos que não dominam. Saídas curtas forçadas, riscos desnecessários em zonas críticas, decisões que ignoram o momento do jogo. Não se trata de certo ou errado. Trata-se de adequação.
O futebol não pune quem defende baixo. O futebol pune quem não percebe o contexto. A ideia como meio, não como fim
Os treinadores que deixam marca não são apenas os que têm uma ideia clara. São os que sabem quando ajustá-la.
A identidade não está num sistema fixo. Está na capacidade de ler o jogo, ler os jogadores e tomar decisões coerentes com a realidade. No fim, a pergunta mantém-se simples: O jogador serve a ideia ou a ideia serve o jogador?
No futebol real, a resposta pode decidir épocas inteiras. Adaptar não é ceder. Adaptar é liderar.

