No regresso de José Mourinho a Portugal e ao Benfica, Fábio Espinho cumpriu papel de personagem principal no lado do AVS SAD naquele que foi, ainda que de forma interina, o primeiro jogo como treinador principal numa carreira que se prepara para, mais dia menos dia, arrancar. Para tal, contam os anos de experiência como treinador-adjunto de Rui Ferreira, mas também todos aqueles que o médio desfrutou nos relvados. Entre o sonho do presente, a ambição do futuro e as memórias do passado, Fábio Espinho mostra, em entrevista ao Bola na Rede, que o futebol pode muito bem ser um estado de vida.
«O jogador português e o treinador português estão muito valorizados pelo que fazem entre portas, mas também no estrangeiro».
Fábio Espinho
Bola na Rede: O que é, neste momento, o futebol para ti?
Fábio Espinho: Neste momento, o futebol é tudo para mim. Desde que me conheço que me vejo ligado ao futebol. Comecei a jogar pequenino, com cinco ou seis anos. Vejo também o meu futuro ligado ao futebol. Não só o passado e o presente, mas também o futuro. É para aí que estou a direcionar-me também.
Bola na Rede: Quais são as ambições para o futuro?
Fábio Espinho: Como fiz carreira como futebolista, agora quero seguir carreira como treinador. Já tive três experiências como treinador-adjunto e consegui adquirir muita coisa, não só como jogador, mas também como treinador. Penso que está na altura para pôr em prática como treinador principal toda a minha experiência e tudo o que vivi.
Bola na Rede: É um objetivo ainda para esta temporada ou só num projeto a aparecer no verão?
Fábio Espinho: Nunca digo nunca, mas sinceramente estou a apontar para o início da próxima época. Já estamos em março, a maior parte dos campeonatos estão a acabar e os objetivos, na maior parte dos casos, estão conseguidos. A história do futebol diz que este não é o momento para grandes trocas e apontarei para o início da próxima época.
Bola na Rede: Aponta para algum patamar em específico? Primeira Liga, Segunda Liga, Liga 3…
Fábio Espinho: Neste momento estou a fazer, e termina em junho, o UEFA A. É o nível 3 que me permite treinar até à Segunda Liga. É claro que se pudéssemos começar logo pelo topo era ótimo, mas sei que não é assim tão fácil. Independentemente da divisão, desejo que seja um projeto sustentado, ambicioso e que me permita fazer o meu trabalho dentro da visão do clube.
Bola na Rede: O que é necessário para um projeto ter essas características?
Fábio Espinho: A visão do clube, a visão das pessoas, as infraestruturas, que são cada vez mais importantíssimas. Diariamente falo de futebol e há pouco tempo falava com um colega e enaltecia a matéria-prima e a qualidade que temos aqui em Portugal. Os três grandes usufruem da maior qualidade nas infraestruturas e das condições em Portugal, não só de visão. É verdade que também há clubes como o Braga, o Vitória SC, o Moreirense, o Famalicão e peço desculpa se me esqueci de mais algum, que já começam a querer nivelar no que toca a infraestruturas e condições profissionais. Imaginemos nós se houvesse um equilíbrio não só na qualidade, mas também nas infraestruturas e condições de trabalho. Não ia só aumentar o nosso nível, o nosso campeonato, mas ia mandar-nos para outro patamar. Não só o campeonato, mas jogadores, treinadores e direções. Ia ser bom para toda a gente. Sabemos que é difícil de promover isso, estamos a falar de milhões, mas é pena porque o jogador português e o treinador português estão muito valorizados pelo que fazem entre portas, mas também no estrangeiro.
Bola na Rede: Como é que um país com essa desigualdade tão latente e com apenas 11 milhões de pessoas consegue produzir tanta qualidade bruta ao nível de jogadores e treinadores?
Fábio Espinho: É verdade e eu não consigo responder a isso. De facto, vamos há uma ou duas décadas, ou até mais, nessa onda. Tenho 40 anos e desde novo me recordo de grandes jogadores e treinadores, mas das últimas gerações têm saído boas fornadas e muita qualidade. Eventualmente, se as equipas chamadas pequenas tivessem outro tipo de apoios e condições, podíamos ser muito melhores.
«Costumo dizer que ser treinador não tem nada a ver com ser jogador».
Fábio Espinho


Bola na Rede: Quais os principais sonhos na carreira como treinador?
Fábio Espinho: Não costumo criar objetivos a longo prazo. Gosto de dar passos do tamanho das pernas porque às vezes queremos dar passos maiores, a perna foge e caímos. Antes de mais, quero começar com um projeto com pernas para andar e ambicioso como eu sou. Sempre fui assim como jogador e felizmente fui subindo na carreira. Vejo o meu papel de treinador por aí, sem criar grandes expectativas e ir passo a passo, de forma sustentada e ir aprendendo. Como treinadores gostamos de ensinar, mas não podemos abdicar de aprender e de acompanhar o desenvolvimento do futebol. Estamos sempre em constantes adaptações. Quero tentar entrar num projeto viável e depois trabalhar.
Bola na Rede: Quais os principais desafios que um treinador tem?
Fábio Espinho: Costumo dizer que ser treinador não tem nada a ver com ser jogador. Muitos de nós somos jogadores a terminar carreira e com o objetivo de sermos treinadores, mas há diferenças. Um treinador tem mais responsabilidade, tem de lidar com vários departamentos, de liderar a equipa técnica, de gerir o grupo de jogadores, de se gerir com a estrutura do clube, de comunicar, de gerir a comunicação social. Não é só saber de futebol, é preciso tocar em várias áreas. Um treinador não tem de ser um especialista em tudo, mas tem de ser muito bom em pelo menos uma característica. Há treinadores muito bons no técnico-tático, no planeamento do treino, na metodologia do treino, na relação com os jogadores e com as pessoas. Há muitos fatores importantes e um treinador tem de ter pelo menos uma característica muito boa, tal como os jogadores. Os jogadores não são todos iguais, uns fintam mais, outros deixam tudo em campo, há uns mais rápidos, mais técnicos, mais inteligentes. O treinador também tem de ter características variáveis e ser bom em, pelo menos, uma.
Bola na Rede: Fazendo uma autoanálise, qual a tua característica principal de todas essas?
Fábio Espinho: Nunca fui treinador principal, fui treinador-adjunto na Segunda Liga no Torreense e no Académico de Viseu e na Primeira Liga no AVS. Falar de nós é sempre complicado, mas do feedback que recebo e que vou ouvindo, destacam o relacionamento e a relação que crio com as pessoas. Não estando a falar de mim, é esse o feedback que recebo. O relacionamento é de todo o tipo, com jogadores, com a administração, com qualquer pessoa. Isso satisfaz-me, porque falam da minha pessoa, da forma como vivo o meu dia-a-dia, enaltece os meus valores e o que me passaram na minha educação. Mais do que conhecedor do jogo, e acho que conheço o jogo da minha experiência como jogador e pelas variadíssimas posições onde joguei em toda a carreira que me deram uma visão abrangente do jogar o jogo, acho que a nível pessoal é isso. Da relação dá para extrair muito, não só da outra pessoa, mas também de mim.
Bola na Rede: Quão diferente é um balneário em 2026 comparando aqueles por onde andou quando começou a jogar?
Fábio Espinho: Não vou mentir, é diferente porque os tempos também são diferentes, as educações são diferentes. Falo por mim, pela forma como lido com os meus filhos. Muitas vezes queixamo-nos das novas gerações e nós próprios damos esse tipo de educação aos nossos filhos. Antigamente havia maior respeito pelo jogador mais velho, pelo capitão, pelos jogadores com mais estatuto dentro do balneário. Fazia-se ouvir mais as vozes deles e os mais novos respeitavam. Agora não digo que não aconteça nem que não haja respeito, mas é diferente. Há mais irreverência, há mais mimo. Um jogador jovem não lida tão facilmente com a crítica nem com uma forma de estar tão agressiva. Cabe ao treinador perceber a cabeça e a tipologia de cada um para tentar adaptar a sua forma de comunicar.
«José Mourinho desejou-me boa sorte para o início da carreira e nada mais do que isso».
Fábio Espinho


Bola na Rede: Quais as suas maiores referências e inspirações?
Fábio Espinho: É inevitável e transversal a todos os treinadores falar em José Mourinho. Felizmente, ainda veio para o nosso campeonato. José Mourinho e Pep Guardiola, principalmente esses dois treinadores. Um pela disciplina e pelo carisma que tem. O Mourinho pelo que transmite e bota cá para fora, não só o que exprime em campo, mas a comunicação, os mind-games, 1.001 coisas. É um exemplo para qualquer treinador jovem como eu e que está a começar. O Pep Guardiola pela longevidade da sua carreira. Luta sempre para ganhar, está sempre a lutar por títulos, adapta-se a qualquer contexto, tenta sempre adaptar-se às evoluções do futebol. A própria forma de jogar é atrativa e normalmente o adepto gosta. São duas referências de topo.
Bola na Rede: A estreia como treinador-principal, ainda que de forma interina, foi precisamente contra José Mourinho, na sua estreia pelo Benfica. Qual o peso que teve?
Fábio Espinho: É verdade. Foi uma semana atípica. Os contornos da situação meteram-me ali a dar o que podia. Ia ser a primeira vez a comandar a equipa como treinador principal. A direção falou comigo e pediu-me enquanto funcionário do clube. No início da época estava noutras funções no AVS, mas o que realmente me atrai é o treino e é o jogo. Vi com bons olhos essa oportunidade, mas acho que não teve peso. Para lá de ser uma experiência nova, todo o mediatismo ia estar no outro lado porque estava de volta, os holofotes iam estar sobre ele. Foquei-me em dar o melhor de mim, ajudar a equipa e aproveitar o momento.
Bola na Rede: Houve alguma conversa com José Mourinho nesse dia?
Fábio Espinho: Não. Houve um cumprimentar normal quando nos cruzámos no túnel de acesso ao balneário, um cumprimentar normal no início do jogo e igual no final. Não houve nenhuma troca de palavras. Desejou-me boa sorte para o início da carreira e nada mais do que isso.
Bola na Rede: Um jogo com este mediatismo ajudou a alimentar o bichinho de ser treinador principal?
Fábio Espinho: Sim. Na verdade, se calhar faz-nos tirar algumas dúvidas. Não posso mentir, tive algumas dúvidas se seria capaz de me lançar como treinador principal. Acho que todos os treinadores, pelo menos os com quem vou conversando, dizem que é normal. A verdade é que fui capaz, tenho 20 anos de carreira como profissional na bagagem, tenho também as experiências como treinador-adjunto. Certamente a equipa técnica terá pessoas profissionais e competentes e será sempre muito mais fácil assim.
«No AVS entrou-se ali numa espiral de derrotas e é difícil sair do buraco. Aumenta a responsabilidade, aumenta a pressão, aumenta a desconfiança e torna-se cada vez mais difícil».
Fábio Espinho


Bola na Rede: Olhando para a temporada no AVS, o que explica uma época tão difícil?
Fábio Espinho: Eu cheguei já com a época praticamente a começar, em agosto e na semana em que ia começar o campeonato. Havia alguns atrasos no que diz respeito à chegada de jogadores. Acho que isso atrasou um bocadinho o processo. Entrou-se ali numa espiral de derrotas e é difícil sair do buraco. Aumenta a responsabilidade, aumenta a pressão, aumenta a desconfiança e torna-se cada vez mais difícil. Explicar o porquê é sempre difícil. Os profissionais e a direção que manda no clube farão certamente a sua avaliação, independentemente de o desfecho ser positivo ou negativo. Eu espero que seja positivo. É verdade que está difícil, mas não está impossível e já vimos coisas difíceis. Temos o exemplo do Tondela há uns anos, que tinha de ganhar sete jogos em oito e foi ao Dragão ganhar. Enquanto matematicamente for possível há que ter fé e trabalhar em prol dos objetivos. Penso que é o que vão fazer.
Bola na Rede: Dentro de todas as dificuldades, que jogadores mais gostou de treinar e viu um nível mais elevado apesar do contexto?
Fábio Espinho: Já acompanhava diariamente a equipa e todos os treinos para lá da semana em que assumi a equipa. A verdade é que parece um pouco contraditório o que se espelha nos resultados. Eu saí em novembro, o grupo é basicamente o mesmo, com uma ou outra entrada e uma ou outra saída, e é um grupo espetacular no que diz respeito a um bom ambiente. Um bom ambiente é fundamental. São jogadores e profissionais que se aplicavam diariamente e tentavam fazer tudo o que lhes era pedido para dar a volta à situação. Em vez de especificar um, dois ou três jogadores, prefiro valorizar a entrega de todos. Podia estar aqui a puxar o saco, mas não havia necessidade porque nem sequer lá estou. No geral, para não dizer todos, foram excelentes e receberam-nos bem. Não era fácil para nós, que estávamos lá interinamente, e eu passei de diretor para treinador. O contexto mudou, mas foram impecáveis, receberam-me bem, aplicaram-se, o pós foi bastante positivo. Deu-me ainda mais confiança para o que aí vem para o futuro.
Bola na Rede: O que motivou a saída do clube?
Fábio Espinho: A saída do clube acabou por ser natural. Houve uma reestruturação no clube com a chegada do Diogo Boa Alma. O meu trabalho era feito em conjunto com o Pedro Correia, diretor-desportivo, e é natural que com a chegada do Diogo Boa Calma querer reestruturar o clube. Tivemos uma conversa tranquila, muito séria e profissional e sem ressentimentos cada um seguiu o seu caminho. Sem problemas nenhuns.
Bola na Rede: Uma saída que permitiu colocar o foco a 100% no curso de treinador?
Fábio Espinho: Sim. Muito sinceramente, tinha como principal objetivo este ano entrar no curso. Já andava há dois ou três anos a tentar entrar e o meu objetivo era entrar no curso, mesmo que tivesse de ficar sem treinar ou sem estar ligado a clubes. A minha saída do clube coincidiu com a entrada no curso e agora estou 100% focado no curso do UEFA A.
«Mostrámos esse vídeo ao André Clóvis e foi impactante. Saiu de lá a chorar e a dizer que precisava mesmo daquilo e agradeceu».
Fábio Espinho


Bola na Rede: Olhando às passagens como treinador-adjunto na Segunda Liga, quer no Torreense, quer no Académico de Viseu, como foi integrar a equipa técnica do Rui Ferreira?
Fábio Espinho: Já o disse pessoalmente e digo mais uma vez. Estou eternamente grato à oportunidade que o Rui me deu. Ele é uma pessoa que reside aqui na minha zona de Espinho e já nos conhecemos há muitos anos, apesar das faixas etárias diferentes e de ele ser mais velho que eu. Para além de nos conhecermos da cidade, no final da carreira dele como jogador ele cruzou-se no Espinho com o meu início de carreira e depois no Feirense, eu estou a terminar a carreira e ele foi meu treinador. Ele precisava de mais um elemento na equipa técnica e viu em mim a pessoa para integrar esse papel. Para mim, foi espetacular, como é óbvio. Eu já me tinha preparado porque era o caminho que queria seguir, já tinha o UEFA B e enquanto jogava fui tirando os cursos, o que me permitiria ser treinador-adjunto em qualquer das ligas. Só tenho de agradecer a oportunidade que o Rui me deu. É um bom treinador, deixou boa marca em Portugal e aprendi muita coisa. Como jogadores, muitas vezes não temos noção do que é ser treinador e ser jogador. Chegou neste ano ao fim a minha ligação profissional ao Rui, mas pessoalmente continuamos a ter ligação.
Bola na Rede: O Académico de Viseu é segundo classificado na Segunda Liga e há muitos anos que se ouve que o objetivo é a subida à Primeira. Acredita que nesta temporada é possível?
Fábio Espinho: Sabemos como é a Segunda Liga e temos vários exemplos de clubes que andam no cimo da tabela e no último terço do campeonato têm quebras e quem vem de baixo vem lançado e consegue apanhar esses clubes. É verdade que estão num bom momento e chegam depois de uma grande vitória contra o líder [Marítimo] e abriram ainda mais a margem para o terceiro e quarto classificado. Acredito que sim. O Viseu é um clube que confere de boas condições, tem excelentes pessoas e profissionais à frente do clube, com visão. Tem tudo para subir de divisão e é merecido pelo investimento e por tudo o que têm feito, mas por um ou outro fator não têm conseguido. Acredito piamente que este ano são um forte candidato a subir de divisão.
Bola na Rede: Treinou o André Clóvis no Académico, um dos grandes nomes da Segunda Liga. Qual é o nível do avançado e como se aguenta tanto tempo um jogador desta qualidade na 2.ª Divisão?
Fábio Espinho: Há fatores e coisas que a gente não controla. Houve um investimento forte no André Clóvis e temos de perceber a situação do clube. Tenho uma boa relação com ele e é um avançado com quem dá gosto trabalhar. É muito aplicado, tenta ser melhor a cada dia que passa. A nossa passagem por lá coincidiu com uma fase menos boa no que toca a exibições e a golos. Andávamos a pensar numa estratégia para tentar tirar o máximo de rendimento do André Clóvis, não só de jogo jogado, mas de golos e números. Era importante porque tudo somado ajuda a equipa. Era uma fase em que a bola não entrava, não conseguia fazer golo e via-se o nervosismo e a ânsia de querer. Nós, equipa técnica, fizemos-lhe um vídeo individual. Combinei com o analista e pedi-lhe para sacar os 30 e tal golos que ele tinha marcado na temporada passada e fazer um compacto de vídeo com esses golos para lhe tentar despertar alguma coisa na parte emocional. Mostrámos-lhe esse vídeo e foi impactante. Saiu de lá a chorar e a dizer que precisava mesmo daquilo e agradeceu. Isto para dizer que tenho uma relação com ele. Há duas ou três semanas mandei-lhe uma mensagem a parabenezi-lo pela época que está a fazer e pelos golos que está a marcar. Ele respondeu e disse que também foi trabalho meu. Como treinadores gostamos de ouvir o reconhecimento do outro lado, mesmo que seja 1 ou 2%. Sei que não tive influência nenhuma, além do mais nem estou lá, mas é bom receber esse feedback. Sabe sempre bem receber este tipo de mensagens.
Bola na Rede: O Torreense vai solidificando o projeto em vários níveis, do futebol feminino e de formação à equipa principal, onde já passou. Como definiria o projeto do clube?
Fábio Espinho: Muito sinceramente, o Torreense tem pessoas com visão e isso é importante. Estive nos dois clubes, e fazendo o termo comparativo com o Viseu, o Torreense perde… Não queria dizer perde, é um termo muito forte, mas se calhar podia investir mais porque tem visão, mas tem de ir melhorando as infraestruturas. Sei que há um projeto para um novo estádio e campo de treinos e isso pode ajudar muito nos resultados desportivos. O que me vai dando a entender é que às vezes as pessoas descuram isso. Sei que tem outro tipo de gastos e não tem resultados imediatos, só a longo prazo, mas quando há clubes que proporcionam boas condições aos seus profissionais, acredito que estaremos sempre mais próximos do sucesso.
Bola na Rede: O Torreense é outro dos clubes na órbita da subida de divisão. Gostava de ver estes dois emblemas na Primeira Liga?
Fábio Espinho: Sim, claro que gostava. Para além de conhecer as pessoas, e como disse sou uma pessoa de relações e tenho pessoas em todo o lado, são dois clubes cumpridores, ambiciosos, sérios e que querem crescer. São clubes que merecem estar na elite do futebol português.
«Fiz a carreira toda a Norte, apesar de ter tido propostas de clubes de Centro e Sul. Dava muita primazia à família e a estar perto de casa, por isso aventurei-me pouco nas minhas deslocações».
Fábio Espinho


Bola na Rede: Em toda a carreira como jogador, todos os clubes onde joga em Portugal são na Área Metropolitana do Porto ou no norte do país. Pensando também na passagem pelo Torreense, o futebol é vivido de forma diferente no Norte e no Sul?
Fábio Espinho: Muito sinceramente nunca fiz esse termo comparativo e não reparei em grandes diferenças. No trato, principalmente, felizmente sempre fui bem tratado em todos os clubes por onde estive. Agora, e já defrontei muitas equipas do Sul, acho que as equipas do Porto e do Norte são, não diria mais agressivas, porque é no bom sentido da palavra, mas mais aguerridas e com uma mística diferente das equipas do Sul. Acho as equipas do Sul mais românticas. Não quero dizer que não são agressivas, porque depende de cada treinador e cada jogador, mas duma maneira mais superficial, acho que cá em cima o futebol é vivido de outra forma.
Bola na Rede: E nesse seguimento, neste espectro colocar-se-ia do lado mais aguerrido?
Fábio Espinho: Na verdade, como jogador é um bocadinho contraditório, porque era um jogador menos físico e mais técnico e enquadrar-me-ia mais no jogador de Centro-Sul do que no jogador de Centro-Norte. Com o prolongar da minha carreira e ao longo dos anos fui-me adaptando ao contexto do clube, à forma de jogar e à ideia do treinador. Estava já enquadrado e disponível para jogar em qualquer tipo de contexto. Pelas minhas características, se calhar enquadrar-me-ia mais a Sul que a Norte, mas é assim. Fiz a carreira toda a Norte, apesar de ter tido propostas de clubes de Centro e Sul. Dava muita primazia à família e a estar perto de casa, por isso aventurei-me pouco nas minhas deslocações. Era muito longe.
Bola na Rede: Aproveitava a deixa para recordar a carreira como jogador. Muito se diz que o 10 está em vias de extinção. É um chavão ou achas que esta figura está cada vez a ter menos protagonismo nas equipas?
Fábio Espinho: É um chavão. Isso cada vez depende mais da ideia do treinador. Podemos ter um 10 numa ideia de jogo em que o treinador queira os alas por dentro. Joguei nessa posição e é praticamente a mesma função, mas um pouco mais lateralizada e menos central. Acaba por ser muito parecido. Ou então é um 10 fixo como o Luís Esteves do Gil Vicente. Olho para ele e acho que é um 10, mas tiramos mais rendimento dele a jogar de trás para a frente, como um 8. Olho para o protótipo de jogador que é o Esteves e vejo um 10. Revejo-me muito no que ele é como jogador. Também me sentia confortável a jogar de trás para a frente, porque estamos a ver o jogo de frente e jogadores técnicos e com visão têm sempre mais facilidade em jogar. São jogadores inteligentes. A 10, estamos muitas vezes de costas e sem ver o jogo de frente. É mais desconfortável. Para ir de encontro ao que me perguntaste, acho que depende muito do que é a ideia e o modelo de jogo de cada treinador e da atualidade do futebol. O que hoje está em vias de extinção não quer dizer que volte a aparecer daqui a um, dois, três anos. Isto está sempre em constante crescimento e modernização. A não ser que mudem as regras, que fazem com que mudanças aconteçam, não há, à exceção da posição de líbero, qualquer posição que desapareceu.
«Na altura estávamos na equipa B e íamos ao Dragão ver praticamente todas as eliminatórias. Não é todos os dias que se ganha a Liga dos Campeões, ainda para mais porque falamos de uma equipa portuguesa».
Fábio Espinho


Bola na Rede: Fazendo uma viagem pela tua carreira, toda a tua formação foi feita no FC Porto. O que 14 anos na formação do FC Porto te acrescentaram?
Fábio Espinho: Acrescenta muita coisa. No fundo, tudo o que eu transportei para a minha carreira a nível de valores e de regras, muitos vieram também da educação que os meus pais me deram, mas muito do que fui como jogador foi-me passado nesse tempo todo no FC Porto. O querer ganhar, o jogar para ganhar não é a mesma coisa de jogar para não perder. São coisas completamente diferentes. A exigência, o treinar sempre bem, o estar sempre focado e não poder facilitar em nada são coisas que vamos adquirindo e transportando para a carreira profissional. Felizmente, consegui fazê-lo, há tantos outros que não o conseguem. Para mim o FC Porto foi uma história bonita, foram muitos anos e foi uma escola para a vida.
Bola na Rede: O peso e a responsabilidade da transição para o futebol profissional sentem-se mais num clube como o FC Porto?
Fábio Espinho: Fui passando de escalão em escalão até chegar à equipa B e infelizmente não consegui dar o pequeno salto. Era um salto grande, na verdade, mas era curto porque era já o próximo. Cheguei a treinar com a equipa principal, fiz três ou quatro treinos, mas nunca joguei. Não senti grande responsabilidade. Quando somos jovens, somos irreverentes e não sentimos bem o que é a responsabilidade. Quando estava na equipa B do FC Porto apanhámos uma super-equipa que tinha o Mourinho como treinador e coincidiu com o ano em que o FC Porto ganhou a Liga dos Campeões. A fasquia estava muito elevada e era muito difícil um jovem dar o salto para a equipa principal.
Bola na Rede: Deve ter sido na altura em que começava a pensar nessa transição para a equipa principal que o FC Porto acaba por ganhar a Champions League. Como se viveu essa conquista histórica dentro do clube?
Fábio Espinho: Inevitavelmente quem vive ali diariamente sente e é algo que tem impacto grande. A verdade é que somos jovens e, quando somos jovens, não temos muito o sentimento de responsabilidade. As coisas passam-nos em frente dos olhos e não temos bem a perceção do que está a acontecer. Foi algo que já se passou há muitos anos, há coisas de que não me recordo, mas é uma situação impactante. Na altura estávamos na equipa B e íamos ao Dragão ver praticamente todas as eliminatórias. A Família Portista, com todo o staff e jogadores das camadas jovens, estava imbuída no espírito. Não é todos os dias que se ganha a Liga dos Campeões, ainda para mais porque falamos de uma equipa portuguesa. Benfica e FC Porto têm duas Champions, mas infelizmente é uma situação que não acontece frequentemente com equipas portuguesas.
Bola na Rede: Foste algumas vezes treinar à equipa principal. Quem foram os jogadores que mais te impressionaram e te fizeram sentir a diferença?
Fábio Espinho: É difícil de responder. Já passou muito tempo e não tenho bem memória disso. Recordo-me e tenho a vaga ideia de achar que todos eram maravilhosos. Eram craques. Maniche, Deco, Vítor Baía, Jorge Costa, Alenichev, Costinha. Todos eram espetaculares e cada um me marcou à sua maneira. Não fui lá muitas vezes e fui já no ano a seguir [à conquista da Champions League]. Havia jogadores que até acho que já tinham saído. Quando fui treinar com a equipa principal era o Victor Fernández o treinador, portanto o Mourinho já tinha saído e dois ou três jogadores tinham sido vendidos. Grosso modo o plantel ficou e quando um jovem jogador é chamado à equipa principal é sempre um momento marcante.
Bola na Rede: Há algum conselho dessa altura que te marque até aos dias de hoje?
Fábio Espinho: Não. Guardo a experiência. É sempre motivo de passar o cunho pessoal ao meu filho, que também joga futebol. Ainda é pequenino, mas vou-lhe contando algumas das experiências que tive. Fica a experiência e as histórias para contar.
«Via pessoas com dificuldades em pagar uma casa ou um carro, mesmo a ir buscar os filhos. É a vida normal do ser humano, mas quando somos jovens não temos essa perceção».


Bola na Rede: A transição para o futebol sénior foi feita no Espinho. Como se sente a transição de uma realidade com a grandeza e infraestruturas do FC Porto para uma realidade como o Espinho e qual a importância nesta fase da carreira de voltar a casa?
Fábio Espinho: Foi uma transição muito difícil. Desde os seis ou sete anos que jogava no FC Porto e não conhecia outra casa nem outras condições. No FC Porto tinha à minha disposição as melhores condições possíveis. Com todo o respeito pelo meu Espinho, sou espinhense, adoro o clube e estará sempre no meu coração, mas foi um choque de realidades. Se calhar fez-me bem na altura passar pelo Espinho e ter em conta essas debilidades de infraestruturas, de condições e de visão. Fez de mim melhor profissional e melhor homem e provavelmente deu-me outra motivação para pedalar e ir atrás do meu sonho, que era ser profissional de futebol. Ainda estava no início da minha carreira e tudo pode acontecer.
Bola na Rede: É preciso reaprender algo quando se muda de patamar de forma tão brusca?
Fábio Espinho: O maior salto que se dá é de juniores para seniores. A diferença é muito grande. Eu acho que não fiz essa transição porque dos juniores saltei para a equipa B e é muito parecido. Jogamos contra jogadores mais experientes, contra equipas mais agressivas, na Segunda B, que hoje seria a 3.ª Divisão, mas o núcleo e os jogadores transitam praticamente todos dos juniores para a equipa B. Não se notam tanto as diferenças. Foi no Espinho que fiz essa transição, dois anos mais tarde. Acabou por ser impactante. Fez-me ver as coisas de outra forma, lidar com pessoas no balneário que eram pais, alguns com dificuldades financeiras. Vamos absorvendo coisas que no FC Porto não fazia ideia que era possível. Via pessoas com dificuldades em pagar uma casa ou um carro, mesmo a ir buscar os filhos. É a vida normal do ser humano, mas quando somos jovens não temos essa perceção.
Bola na Rede: A ligação à terra, que inclusive te dá o apelido, ficou muito patente nos três anos que tiveste ao clube?
Fábio Espinho: Sempre tive uma grande ligação ao Espinho, principalmente do meu pai, que já faleceu. Tenho um irmão mais velho e quando éramos pequeninos acompanhávamos o Espinho para todo o lado, na 1.ª ou na 2.ª Divisão. O meu avô também era funcionário no clube, varria e limpava as bancadas. Tinha alguma ligação ao clube. A primeira abordagem para ir para o Espinho foi com o Vítor Pereira. Estava na praia de férias depois de sair do FC Porto, já tinha terminado o contrato, e foi um convite quase em forma de brincadeira porque já nos conhecíamos. As coisas acabaram por surgir e fiquei feliz. Sabia das dificuldades do clube, mas fiquei feliz porque queria ficar em casa, dava sempre prioridade em estar por perto. Também via no Vítor um treinador com potencial e que me podia ajudar a chegar a outros voos, que era o meu objetivo.
«Surgiu a oportunidade da Bulgária e, apesar de ser vantajoso a nível financeiro, eu estava a olhar mais para o meu conforto e comodismo e rejeitei. Contra todas as expectativas eles voltaram à carga, aumentaram a oferta e eu voltei a rejeitar. Já de férias e numa conversa com a minha esposa, mais cerebral que emocional, chegámos à conclusão de que o melhor seria ir caso ainda houvesse a possibilidade».
Fábio Espinho


Bola na Rede: Eles chegam com o Leixões e com o Moreirense. Como definiria esta fase da carreira?
Fábio Espinho: Muito sinceramente, não queria descurar a saída do Espinho. Permaneci três anos bastante difíceis no Espinho. No primeiro ano fui muito utilizado pelo Vítor Pereira, mas penso que terminei a época sem jogar. No segundo ano joguei muito menos, coincidiu com o falecimento do meu pai e foi muito difícil para mim. No terceiro ano, felizmente veio o Pedro Barny e conseguiu sacar o melhor de mim. Consegui fazer uma excelente época e ajudou-me diretamente na minha carreira até surgir a possibilidade de chegar à Primeira Liga pelo Leixões. Foi um salto gigante sair da Segunda B para a Primeira Liga, ainda para mais depois do Leixões terminar a época em sexto lugar, com muitas jornadas no topo. Fez uma época incrível na Primeira Liga e era uma responsabilidade e um salto muito grande para um jogador que vinha da Segunda B. As coisas pessoalmente não me correram muito bem no Leixões. Estava lá, descemos de divisão e na Segunda Liga houve um forte investimento para tentarmos subir e não conseguimos. Aí surgiu a oportunidade de ir para o Moreirense e foi quando as coisas mudaram. O Moreirense conseguiu subir de divisão e eu fiz uma época incrível, com toda a modéstia. São aqueles anos em que parece que tudo corre bem e ajudou-me a ir para outros voos.
Bola na Rede: Como surgiu a mudança para o Ludogorets e para a Bulgária e como foi vivida a experiência neste país?
Fábio Espinho: Foi engraçado. Eu estava quase a terminar o campeonato no Moreirense [na segunda época] e vinha de lesão. Estive quase três meses lesionado e estivemos até à última jornada a lutar para não descer, o que acabou por acontecer. Mesmo a acabar o campeonato surgiu o convite do Ludogorets. Já estava a fazer 28 anos e nunca tinha saído de casa, tinham sido equipas sempre aqui perto o que me facilitava e vinha dormir a casa todas as noites. Surgiu a oportunidade da Bulgária e, apesar de ser vantajoso a nível financeiro, eu estava a olhar mais para o meu conforto e comodismo e rejeitei. Contra todas as expectativas eles voltaram à carga, aumentaram a oferta e eu voltei a rejeitar. Já de férias e numa conversa com a minha esposa, mais cerebral que emocional, chegámos à conclusão de que o melhor seria ir caso ainda houvesse a possibilidade. Contactei as pessoas e felizmente abriram-me a porta novamente. Ainda bem, foi o melhor que eu fiz não só a nível pessoal, mas também na parte financeira. Jogamos, mas a parte financeira é importantíssima para assegurar o futuro. Na carreira, ia para uma equipa que ia lutar por títulos, que disputava competições europeias e ia ser muito enriquecedor. As coisas correram às 1.000 maravilhas, ganhei dois campeonatos na Bulgária, uma Taça da Bulgária, uma Supertaça, joguei na Liga dos Campeões. Foi incrível e correu tudo espetacular.
Bola na Rede: Foste sozinho ou acompanhado?
Fábio Espinho: Na altura fui acompanhado. A minha filha tinha três meses, mas optámos por isso. Se assim não fosse, também não ia, mas houve a possibilidade de irmos todos e a minha esposa acompanhou-me.
Bola na Rede: Qual a importância do suporte familiar numa fase que pessoalmente poderia ser delicada?
Fábio Espinho: O suporte familiar é tudo. Fazem-te sentir em casa. Felizmente tive sempre essa estabilidade familiar, não só pela minha mulher e pelos meus filhos, mas também da minha mãe, do meu irmão, dos meus sogros. Felizmente somos uma família muito próxima, unida e presente, o que torna as coisas mais fácil.
«Já tinha assistido a muitos jogos da Liga dos Campeões na bancada, mas quando assistes ao espetáculo e estás lá dentro é realmente diferente. É uma sensação que só quem lá está é que sente».
Fábio Espinho


Bola na Rede: Jogaste Liga Europa no primeiro ano, Champions League no segundo. Como sentiste as noites europeias?
Fábio Espinho: É incrível. As coisas acontecem quando têm de acontecer e quando estamos lá imbuídos parece que é tudo normal e natural. Acabo por dar mais valor agora, depois de uns anos, do que no presente quando usufruímos daquilo. Joguei contra o Real Madrid do Ronaldo, Bale e Benzema e contra o Liverpool. Estar no campo com eles era como jogar na rua, eu queria era divertir-me e aproveitar o momento. Tudo o que era responsabilidade e pressão metia para campo. Não existia na minha cabeça nesse tipo de jogos. Foi um aproveitar do momento e da experiência. Fiquei com isso para ter histórias para contar mais tarde.
Bola na Rede: O que sentiste quando ouviste pela primeira vez o hino da Champions League?
Fábio Espinho: Acabei de me arrepiar com a pergunta que fizeste. Levaste-me outra vez para lá. Um momento incrível. Já tinha assistido a muitos jogos da Liga dos Campeões na bancada, mas quando assistes ao espetáculo e estás lá dentro é realmente diferente. É uma sensação que só quem lá está é que sente. Já muitos jogadores disseram em entrevista que é uma competição diferenciada. É verdade que há competições de seleções, mas de clubes é o expoente máximo. É uma sensação incrível e indescritível, um sonho. Devido à idade que eu tinha, não queria acreditar. Houve uma altura da minha carreira onde pensei que já não daria o passo em frente e ficaria por aquele nível. Já seria ótimo jogar na Primeira Liga, mas tinha como objetivo na minha carreira e desde criança o de conquistar coisas grandes. Felizmente consegui, jogar Liga Europa e Liga dos Campeões é algo grande.
Bola na Rede: Eras muito de trocar camisolas no fim dos jogos?
Fábio Espinho: Sim, troquei algumas.
Bola na Rede: Destas noites de Champions tens camisolas marcantes que trocaste com ídolos ou jogadores que admiravas?
Fábio Espinho: Tenho as duas camisolas do Cristiano Ronaldo. Já nos conhecíamos da formação, ele jogava no Sporting e eu no FC Porto e eramos ambos da geração de 85. Na altura reconheceu-me e fiz-lhe questão de pedir a camisola. Tanto em Madrid como em Sofia ele deu-me a sua camisola. Troquei também com o Neymar, quando fui lá com o Málaga, já não é Liga dos Campeões. Houve um episódio com o Gerrard no Liverpool. Pedi-lhe a camisola dentro de campo porque é um daqueles jogadores que no fim já tem 10 pessoas para pedir. Ele ocupava a zona central, que era a minha zona, e houve um momento do jogo em que lhe pedi a camisola. Ele disse que ma ia dar, mas no final deve ter-se esquecido. Na altura, troquei com o Lucas Leiva. Troquei também com o Schaars, que jogou no Sporting e na altura estava no PSV Eindovhen. Tenho ali algumas camisolas, mas as mais impactantes são essas.
Bola na Rede: São memórias que ficam e se prolongam para lá dos 90 minutos.
Fábio Espinho: Claramente. Tenho algo físico que me faz recordar. Mais do que as palavras e dizer que tenho, tenho mesmo as camisolas fisicamente.
«No balneário estávamos sempre “Como é que se diz isto em búlgaro”, “Como é que se diz isto em português”. Ensinam-se coisas que não se devem, como é óbvio, mas acaba por criar bom ambiente e palhaçada».
Fábio Espinho


Bola na Rede: No Ludogorets, tens um balneário cheio de nacionalidades diferentes, mais de 10.
Fábio Espinho: Eram 13 ou 14. Nós brincávamos com isso na altura.
Bola na Rede: O que um balneário destes tem de potencialidades e desafios?
Fábio Espinho: Quebra alguns dos mitos que temos para connosco sobre a comunicação no balneário, da união e dos relacionamentos. As coisas têm muito que se lhe diga e o Ludogorets é um exemplo disso. O grupo estava dividido em subgrupos ou em metade. Eram os estrangeiros e os búlgaros, mas dávamo-nos todos bem. No balneário estávamos sempre “Como é que se diz isto em búlgaro”, “Como é que se diz isto em português”. Ensinam-se coisas que não se devem, como é óbvio, mas acaba por criar bom ambiente e palhaçada. Aí no Ludogorets tínhamos cinco ou seis brasileiros, dois portugueses, um espanhol. Tinha várias nacionalidades com quem podíamos comunicar e mesmo que não falássemos a mesma língua, entendíamo-nos bem. Facilita-nos não só a nós enquanto profissionais, mas também as nossas esposas, para elas se cruzarem e entreterem. É fundamental. É muito bonito quando a mulher do jogador o acompanha, mas se tiver fechada em casa com um filho ou com um bebé não é nada fácil e quando chegarmos a casa, a mulher vai estar saturada, e em vez de ajudar vai prejudicar. Sou dessa opinião. Felizmente, tanto na Bulgária como em Espanha, no Málaga, tivemos sempre com quem estar. É fundamental para a mulher porque depois indiretamente quem vai sofrer as consequências são os jogadores.
«O Ricardo Horta, por incrível que pareça, era quase meu filho».
Fábio Espinho


Bola na Rede: A mudança para o Málaga é um salto na carreira e para a La Liga. Como se abriu a porta e se deu esse salto?
Fábio Espinho: Abriu-se pelo que fui construindo no Ludogorets. É óbvio que eu fui para o Málaga não por estar a disputar o campeonato búlgaro, mas por estar a disputar competições europeias. Havia a necessidade de um jogador com as minhas características, eu estava em final de contrato com o Ludogorets e a coisa acabou por se fazer.
Bola na Rede: O clube já tinha o Flávio Ferreira, o Duda e o Ricardo Horta, mais portugueses.
Fábio Espinho: Sim, e o Charles que é um brasileiro que também tem dupla nacionalidade. Acaba por ser mais fácil na adaptação e na vida familiar. Como casal, temos a dinâmica de gostar sempre com pessoas e mesmo em casa está sempre casa cheia. Ainda bem que fomos para estes contextos porque nos faziam sentir em casa.
Bola na Rede: No Málaga o Duda estava no final de carreira e o Ricardo Horta no polo oposto, no seu início. Qual a importância de ter uma referência no balneário, mas também de ter um jogador jovem e com potencial?
Fábio Espinho: Vamos por partes. Primeiro, o Duda. Muitas vezes esquecemo-nos que os jogadores são pessoas, independentemente das suas carreiras e dos seus estatutos. Nós falávamos no Málaga e falávamos no Duda e, quando lá cheguei, encontrei uma pessoa espetacular, simples, também aqui do Porto, de perto de onde vivo. Tentou ajudar-me na minha integração. O Horta, por incrível que pareça, era quase meu filho. Eu cheguei depois dele, ele já lá estava há um ano, mas criámos logo uma ligação, a minha esposa também com a esposa dele. Ainda hoje somos amigos. Dizia que era meu filho porque perguntava-me todos os dias depois do treino o que era o jantar. Ia jantar muitas vezes a minha casa e criou-se ali uma amizade para a vida. Sempre que podemos estamos juntos. Respondendo à tua pergunta, esperava o sucesso que está a ter. Mesmo jovem, já se notavam ali algumas características que eram diferenciadas. Ainda bem que o Braga estava atento e foi a Braga fazer história. Não é fácil fazer o que ele está a fazer e, se lá continuar, continuará a aumentar os números.
Bola na Rede: No mesmo balneário havia outro jovem e uma eterna promessa no Hachim Mastour. Até por partilharem posição, pergunto como foi jogar com ele?
Fábio Espinho: O Mastour era uma jovem promessa e um daqueles jogadores que leva com este rótulo e que, infelizmente, não conseguem. Muito honestamente não segui a carreira dele, mas não fez uma carreira tão vistosa como muitos estavam à espera. Falo mais facilmente no Pablo Fornals, por exemplo. Para além de um grande miúdo era um jovem talentoso e que veio a dar cartas em Espanha, depois em Inglaterra e agora de volta a Espanha e que chegou à seleção espanhola. Foi bom jogar com estes jovens, mas também com outros jogadores de renome como o Kameni, o Ochoa, o Roque Santa Cruz. Era um plantel riquíssimo em qualidade.
«O Duda chegou à minha beira e perguntou-me: “O que é que andaste a dizer para a comunicação social?”. Onde há fumo há fogo. Estava de consciência tão tranquila que nem fiquei preocupado. Não disse nada de mal e até estava a dar razão ao treinador».
Fábio Espinho


Bola na Rede: Aproveitando a deixa da qualidade do plantel, a passagem pelo Málaga cumpre as expectativas?
Fábio Espinho: Não cumpre as minhas expectativas. Sinceramente, quando assinei pelo Málaga tinha as expectativas de jogar muito mais do que joguei, que foi quase nada. A minha saída em janeiro é natural e até fui eu quem pedi para sair. Eu estava num contexto em que me enquadrava e que gostava, mas não estava feliz profissionalmente porque não jogava. Estava muito feliz pela cidade, pela grandeza do clube e pela Liga, mas queria minutos porque fui habituado assim em toda a carreira. O Málaga foi o único clube ou contexto onde passei por aquilo. Se calhar no meu início, na transição do Espinho para o Leixões, não joguei logo, mas acabei por jogar. Cheguei ao Málaga com 30 anos e no início era convocado sempre e não entrava. Tive uma boa estreia, tanto com o Deportivo da Corunha em casa como no jogo seguinte, em que fomos a Gijón. Fui para o banco, mas entrei aos 30 minutos, fui o primeiro a entrar por isso as pessoas ficaram felizes com a minha estreia. Depois desse jogo em Gijón, o feedback do staff e dos jogadores foi bastante positivo. Achava que ia arrancar de vez, mas fiz apenas mais um jogo para a Taça e infelizmente não joguei mais. Fiquei triste porque estava em ascensão completa e rápida. Em quatro anos passei da Segunda Liga Portuguesa para jogar Liga Europa, Liga dos Campeões e jogar La Liga. Foi muito rápida a ascensão e também tudo desmoronou tudo muito rápido, com todo o respeito pelos clubes nos quais viria a jogar. Assim o foi. A minha saída do Málaga partiu de mim porque sentia que não tinha muito por onde me mexer. Pedi a minha saída e fui emprestado ao Moreirense, onde fiz força para ir. Era uma casa que já conhecia, onde já tinha sido feliz e queria ir para uma zona de conforto para tentar reacender a chama e voltar ao Málaga no ano seguinte. Tinha dois anos de contrato e queria mudar a cabeça das pessoas. Infelizmente, já estava destinado e acabei por sair.
Bola na Rede: Foi dada alguma explicação para a quebra repentina dos minutos?
Fábio Espinho: Não, nunca foi. Até tinha uma boa relação com o treinador no dia-a-dia, mas nunca houve uma conversa sobre isso. Houve sim uma situação onde depois fiquei a cismar e a pensar sobre isso. Foi após a derrota em Gijón, em que entrei aos 30 minutos, fiz um bom jogo e perdemos 1-0, resultado que já estava quando entrei. Nas entrevistas rápidas, fui questionado por uns jornalistas espanhóis porque houve dúvidas sobre a substituição. Houve uma lesão, o treinador ficou uns minutos a pensar no que fazer e coincide com o golo sofrido. Sou abordado por essa situação e perguntaram-me se achava que o treinador teve culpa por tardar na substituição. Disse que se o treinador demorou foi porque estava a tentar ver o que era melhor para a equipa naquele momento e a tentar ver se o jogador tinha de sair, o que tardou um bocado. Acho que ele interpretou isto como uma crítica. Não foi de todo por aí. Tinha a agravante de que, mesmo línguas parecidas, há palavras diferentes no português e no espanhol ou que, pelo menos, são interpretadas de formas diferentes. Andei a cismar com isso. No treino seguinte, o Duda chegou à minha beira e perguntou-me: “O que é que andaste a dizer para a comunicação social?”. Onde há fumo há fogo. Estava de consciência tão tranquila que nem fiquei preocupado. Não disse nada de mal e até estava a dar razão ao treinador. Deve ter interpretado como algo mal, a fase também não era boa porque andávamos no fundo da tabela e voltou-se contra mim. É verdade que podia ter sido mais feliz em Málaga e mantido o nível por mais tempo, mas se assim não foi, não há problema nenhum. Ficam as experiências e as histórias para contar.
Bola na Rede: Acaba por ser a última experiência no estrangeiro. Houve outra vez a tentação ou o convite para voltar a sair de Portugal?
Fábio Espinho: Tive vários convites. Quando saí do Málaga tive o Mário Branco, que está no Benfica agora, a querer que eu fosse para a Croácia. Na altura, ele estava no Hajduk Split. Aquele meio ano foi tão massacrante para mim psicologicamente porque nunca tinha passado por uma situação parecida. Aos 30 anos passei por uma situação que normalmente passamos aos 20. Não soube lidar com aquilo. Nunca fui de maus comportamentos, mas andava muito triste, tentava dar tudo de mim nos treinos e senti que era em vão. Foram muitos anos de trabalho e aplicação, em ascensão de carreira, passei dois anos incríveis no Ludogorets e queriam renovar comigo por mais dois e, em meio ano, tudo mudou. As coisas são mesmo assim e há que aceitar.
«Tudo indicava que o Boavistão estava de volta, mas, infelizmente, dentro de campo as coisas não foram como esperavam».
Fábio Espinho


Bola na Rede: Acabas por ficar em definitivo no Boavista, um clube que hoje passa por dificuldade, mas que na altura vivia um bom momento com vários lugares na metade de cima da tabela. Quão importante foi o regresso a Portugal, o regresso à cidade do Porto e ser protagonista num clube da Primeira Liga?
Fábio Espinho: A minha vinda para o Boavista parecia que tinha de acontecer. O meu falecido pai era boavisteiro e quando assinei contrato com o Boavista, disse-o ao presidente, ao João Loureiro. Ficou todo contente porque não sabia desse pormenor. Ele dizia: “Se eu já te queria, agora ainda quero mais”. Dá muito valor ao adepto boavisteiro e faz todo o sentido. Há coisas que parece que têm de acontecer e fui muito, muito feliz no Boavista. As coisas começaram a correr bem logo desde o início. Nos três anos em que estive lá, acabámos duas vezes no oitavo lugar e uma vez em sétimo. Era espetacular para os orçamentos do clube. Começávamos todos os anos com o objetivo da manutenção e ainda chegámos a sonhar com a Liga Europa e isso veio à baila. Foi matéria de jornal. Houve um ou outro ano que era possível e estávamos lá perto. Em boa hora regressei a Portugal e ao Boavista. O meu falecido pai estaria orgulhosíssimo. As coisas aconteceram e ainda bem que correram bem.
Bola na Rede: Depois de toda a formação feita no FC Porto, uma ida para o Boavista provoca alguma coisa?
Fábio Espinho: Não, não provoca nada. Tenho isso bem patente na minha cabeça. Independentemente do clube, se tiver de defender uma camisola, seja ela qual for, terei de a defender com o máximo de interesse pessoal. Foi assim que levei sempre a minha carreira, tanto em Portugal como no estrangeiro. Independentemente de jogar contra A, B ou C, defendi sempre o meu clube.
Bola na Rede: O Boavista vive hoje uma situação muito delicada. Na altura, já havia sintomas de que algo tão dramático poderia vir a acontecer?
Fábio Espinho: Estamos a falar de um histórico em Portugal, de um clube grandíssimo, com muitos troféus. É o 4.º grande devido à sua história, não podemos esquecer isso. Foi com muita tristeza que acompanhei a sua situação nos últimos anos. Na altura em que lá estava, sinceramente, até se previa um Boavista a crescer. Sempre com algumas dificuldades, como é público, mas com bons resultados desportivos nos anos em que lá estive, como já disse. Depois entra um investidor com investimento, melhoram as infraestruturas, conseguem reconstruir o campo de treinos. Tudo indicava que o Boavistão estava de volta, mas, infelizmente, dentro de campo as coisas não foram como esperavam.
«Em dezembro ou janeiro sofri uma lesão no tornozelo e não joguei mais. Fez-me aceitar mais o término de carreira».
Fábio Espinho


Bola na Rede: Acabas a carreira no Feirense, que bateu várias vezes na trave na subida de divisão. Como viveste os últimos anos de carreira.
Fábio Espinho: O Feirense acaba por ser o clube onde permaneci mais tempo. Acabei por ficar quatro anos no Feirense. Quando fui convidado para o Feirense, quando saí do Boavista, tinha acabado de descer à Segunda Liga, tinha um projeto de subida e um investimento muito forte para tentar subir de divisão. Via com muitos bons olhos o projeto, não só pela estabilidade que me davam, porque me ofereceram três anos de contrato e eu já tinha 34 anos, mas também pelo plantel que tinham na altura, para o treinador. Já reconhecia muita competência no Filipe Martins e era o projeto certo para ingressar. Queria tentar subir, era algo que conseguia aportar porque já tinha uma subida de divisão e já era um jogador experiente, com muito vivido no futebol. Era o projeto certo para ir e foi por isso que aceitei. Fui feliz no Feirense. No primeiro ano as coisas, infelizmente, não me estavam a correr tão bem, mas com a chegada do Filó, começámos uma recuperação e aparece a Covid-19. Estávamos na luta, quase a apanhar o Nacional, com seis vitórias em sete jogos e há a paragem de campeonato. No segundo ano, o Filó começa e o ano não correu tão bem e vem o Rui Ferreira a meio da época. No terceiro ano, acabamos por fazer uma época incrível e eu, com 36 anos, outra época incrível. Quando pensamos que já estamos mortos, aparece uma época destas que nos faz pensar se realmente queremos acabar ou não. Muito sinceramente, o meu terceiro ano era o último ano de contrato e o meu inconsciente, quando a época arrancou, achava que ia ser o último antes de pendurar as botas. Fiz uma época incrível e a equipa também. O objetivo principal era a manutenção e estivemos 2/3 do campeonato em primeiro ou segundo. Infelizmente não conseguimos a subida de divisão que, recordo, não era o objetivo principal da época. Não fomos capazes de entrar na luta pelo título no último terço do campeonato. Depois veio o meu último ano e já estava mentalizado de que poderia ser mesmo o último ano. Já tinha uma relação extra-futebol com o Rui Ferreira, para lá de ser meu treinador, e falava-me de o acompanhar se houvesse penalizado. Estava mentalizado de que seria o meu último ano e em dezembro ou janeiro sofri uma lesão no tornozelo. É uma lesão difícil de explicar, estava a correr, pisei um defesa e rebentei com o pé todo e não joguei mais. Fez-me aceitar mais o término de carreira. Já estava mentalizado de que seria o meu último ano e davam-me um mês, máximo dois, de recuperação da lesão e o que é certo é que foram três, quatro, cinco e sempre que voltava o tornozelo lixava-se e sentia dores. Fez com que me fosse despedindo aos poucos, aceitando e mentalizando. Não houve o impacto do último jogo e ainda bem. Fui-me mentalizando com o tempo e com a minha disponibilidade física.
Bola na Rede: A despedida aos poucos permitiu uma despedida de tudo o que o futebol envolve para o jogador?
Fábio Espinho: Sim, acabou por ser natural. Os meus colegas de balneário e de grupo não eram burros nenhuns e percebiam a relação que tinha com o Rui. Era porreiro porque eu era capitão de equipa e tratavam-me à vontade sabendo de antemão da relação que eu tinha com o treinador. Infelizmente no futebol quando há determinados grupos que sabem da relação de um treinador com um jogador cria-se, por vezes, um bicho de sete cabeças, mas tinha ali um grupo espetacular que confiava em mim. Também abri o jogo com eles e ouvi boquinhas todos os dias a dizer que ia para a equipa técnica. Abri o jogo com eles e foi na boa. Foi de forma tranquila e natural, sem despedidas. Foi muito facilitado nesse sentido. Não tive a despedida típica no campo não. Na altura fiquei um bocado triste pela carreira que tive, pelos anos, pela dedicação ao futebol e ao clube. Tinha essa pergunta. Por que é que não me fizeram uma despedida? Hoje digo, ainda bem que não a fizeram. Facilitou ainda mais a minha despedida.
Bola na Rede: O relativizar tudo ajuda a mudar a função e a forma como se olha para o futebol?
Fábio Espinho: Sim, é fundamental. Às vezes há ex-jogadores que até acabam por ter problemas porque não conseguem fazer o desmame. Não sei se foi pela longevidade, porque acabei a carreira com 38 anos e a um nível bom. Depois, também comecei a ter pequenas dorezinhas que me chateavam no treino. Ao contrário do que era no início de carreira, no final da carreira gostava de treinar a sério. No início, pela irreverência e juventude, achamos que não era preciso dar tudo, mas os anos e a experiência demonstraram-me que estava completamente errado. Foi isso que me elevou a outros patamares. Havia dores residuais no tornozelo e no pé que me chateavam e não deixavam estar a 100%. Lá dentro a exigência é máxima e numa altura senti que o corpo já não acompanhava a mente. Eu pensava como há 10 anos atrás, mas o corpo não corresponde da mesma forma. Ao longo dos anos, percebi que perdi alguns atributos físicos. É claro que ganhei outras coisas mentais, mas o físico acaba inevitavelmente por se perder.
Bola na Rede: A readaptação, perdendo umas coisas e ganhando outras, foi fundamental para a longevidade no futebol?
Fábio Espinho: Vai depender sempre de vários fatores, do clube, dos objetivos, da ideia do treinador. Com a vinda do Rui, tive a felicidade de que ele acreditava em mim e no que podia aportar à equipa. Se um jogador mais velho jogar, sente-se motivado, treina sempre a 1.000, o jogo dá-lhe ritmo e motivação. Esse é o grande segredo para a longevidade. Se um jogador aos 33 ou 34 anos deixa de jogar, deixa de conseguir ter o ritmo dos outros. É mais velho, vai ter mais dificuldades e a motivação começa a cair. A maior parte dos jogadores acaba carreiras mais cedo por isso mesmo. O segredo é treinar bem e jogar. O jogo é que dá o ritmo e a motivação e força mental para continuar.
«Acabei por fazer uma carreira maior do que esperava, a uma certa altura».
Fábio Espinho


Bola na Rede: Qual o balanço da carreira como jogador?
Fábio Espinho: Chegando ali aos 27, 28 anos, achava que ficaria pelo nível da Liga Portuguesa. Na altura, senti que estava a ir além do que imaginava. Imaginava-o há muitos anos, na formação do FC Porto, onde tinha o objetivo de chegar à equipa principal, mas a carreira foi-se fazendo no Espinho, Leixões, Moreirense e não podemos parar o tempo. Uma coisa é ter uma ascensão de carreira entre os 20 e os 24, outra é entre os 25 e os 30. Chega a um ponto em que as coisas estagnam, mas eu felizmente dei um salto aos 28 e outro aos 30 anos. Acabei por fazer uma carreira maior do que esperava, a uma certa altura.
Bola na Rede: Pensando na ligação entre jogador e treinador, gostava de treinar um jogador como o Fábio Espinho?
Fábio Espinho: Gostava de treinar, porque acho que sou fácil de treinar. Adapto-me a qualquer contexto e acho que isso foi uma mais-valia para a minha carreira. Era um jogador mais técnico, mas na Bulgária jogava num duplo-pivô, éramos dois 8 e já não jogava como 10. Acabei o meu primeiro ano com 16 amarelos, 13 para o campeonato e três na Liga Europa. Destacava-me mais pelas condições técnicas, mas quando olho para trás e penso nisso, parece que não casa. Parece impensável olhar para mim e ver 16 amarelos. Tinha a capacidade de me adaptar ao contexto e ao treinador. Isso facilita quem está a treinar e, olhando dessa forma, gostava de treinar uma pessoa como eu. Isto sabendo que num grupo são precisas variadíssimas características e capacidades porque se não é um grupo muito igual. Muito sinceramente, também não acho isso bom.

