Há locais especiais no mundo e na vida. No que toca ao futebol português, poucos serão tão fortes e tão impactantes como o Estádio Nacional no Jamor, um campo perdido no meio da mata, quase esquecido ao longo de uma época e relembrado como um dos dias mais felizes do ano por muitos que, ao contrário dos restantes 364 dias, não se importam de acordar cedo para ocupar os terrenos circundantes, muitas vezes sem bilhete, em nome do convívio e do futebol. Foi este o palco da festa maior do futebol português e, em particular, do Torreense.
A Taça de Portugal é uma utopia possível, uma epopeia alcançável ou qualquer outra contradição sem nexo, mas com todo o sentido. Numa época em que os orçamentos são tão ou mais falados e relevados do que aquilo que se faz em campo, é o território onde os sonhos são possíveis e onde os gigantes podem ser olhados na cara, sob a esperança de 90 minutos – ou um pouco mais – de glória.
O Torreense, em toda a sua história, apenas por uma vez tinha chegado à final da Taça de Portugal (no futebol masculino, pois claro). Há 70 anos, o emblema de Torres Vedras foi ao Jamor disputar com o FC Porto o troféu que, com o imperar da lógica da superioridade, foi parar ao Museu do Dragão. Desde então, não mais o Torreense se aproximou do troféu que todos sonham alcançar.


O percurso do Torreense na Taça de Portugal é único e dificilmente repetível. Circunstâncias da sorte e do azar dos sorteios, da incompetência de alguns dos favoritos no chaveamento e da aleatoriedade natural no futebol, a final no Jamor chegou ao conjunto da Segunda Liga depois de um percurso incomum. Nas seis eliminatórias prévias à final, apenas um duelo contra clubes da Primeira Liga, o Casa Pia. Além deste e da primeira eliminatória do conjunto do Oeste, diante do Correlhã das distritais, foram três confrontos de Segunda Liga e um contra o Fafe na Liga 3. O conto de fadas das meias-finais, esse tomba-pequenos feito a duas mãos para beneficiar os mais pançudos, foi um hino ao futebol rural, das vilas e terras de Portugal.
Este caminho trouxe o Torreense até ao Jamor. Se até aí se podia falar de chaveamentos, sortes e azares, sorteios sorridentes, o desafio final era somente o Sporting, a procurar revalidar o título e com recursos incalculavelmente superiores ao clube de Torres Vedras. É demasiado injusto olhar para o percurso do clube de Luís Tralhão – e que foi, também, de Vítor Martins – como um acaso à base de um fado sortudo. Até ao Jamor houve mérito e, na tarde que mais bem retrata o futebol português, a conquista inédita e histórica teve, como único fator, o mérito. O Torreense soube, da sua maneira, ser superior ao Sporting e foi assim que conquistou a Taça de Portugal.
É claro que há deméritos evidentes na exibição de um Sporting que nunca pareceu ligado à possibilidade de título que estava em jogo e que se encostou em demasia à sombra de uma bananeira. Por mais calor que se fizesse sentir, tal descanso foi inimigo leonino. Ainda assim, é redutor olhar para o que o Torreense alcançou como se apenas de um deslize dos leões se tratasse. Não só o Sporting foi inferior ao Torreense, como o Torreense se superiorizou ao Sporting em muitos níveis.


Dentro das diferenças por demais reconhecidas, o Torreense delineou um plano de jogo que controlou o Sporting, reduziu as possíveis superioridades leoninas e permitiu chegar à frente mais ou menos vezes. Estrategicamente, Luís Tralhão superiorizou-se a Rui Borges e, dentro de campo, houve uma transcendência nos jogadores do Torreense que não se viu nos jogadores leoninos. Por mais místico que seja o Jamor, sem engenho não há misticidade que chegue.
O golo muito cedo, numa bola parada bem conseguida pelo Torreense, reforçou o conforto e tranquilidade do emblema que milita na Segunda Liga na partida. A estratégia passaria sempre pelo controlo e redução ao máximo do volume ofensivo do Sporting e pelo aproveitamento máximo das oportunidades que chegassem. Com a vantagem numa fase precoce, não só os leões não souberam reagir como, defensivamente, o Torreense tomou conforto.
Luís Tralhão reforçou o miolo com perfis mais fortes nos duelos e na ocupação de espaços. Com Costinha à direita e Guilherme Liberato à esquerda, à frente de Léo Silva, um pêndulo de deslocamento vertical à frente da defesa, Luís Tralhão povoou o espaço interior e reduziu as possibilidades do Sporting combinar por dentro, como tanto gosta de fazer. O pêndulo de Léo Silva, para a frente quando o bloco era mais baixo e o espaço entre linhas podia surgir, mais recuado quando Luis Suárez ameaçava a profundidade, foi fundamental para o Torreense reduzir o espaço entrelinhas.


A linha de 4, potencialmente 5, também o foi de 6 em muitos momentos, como Luís Tralhão explicou. Como Maxi Araújo, nesta fase da época claramente em esforço, se projetava, Luis Quintero tinha de acompanhar o uruguaio. David Bruno, lateral direito, ficava mais dentro, mas, além da ausência do colombiano, um daqueles que trata a bola por tu e que a sabe guardar nos pés, nas zonas de escoamento, havia outro problema. Sempre que o Sporting criou perigo na primeira parte, foi através das ruturas curtas de Pedro Gonçalves nas costas da defesa, aparecendo na cara do golo. David Bruno não podia acompanhar o português para todo o lado e Pote foi criando perigo.
Na segunda parte, Luis Quintero passou a fazer o acompanhamento por dentro, libertando mais David Bruno para encaixar em Maxi. Com o colombiano mais resguardado, a possibilidade de cobrir o espaço interior e de se encaixar entre os defesas deixou menos espaço a Pedro Gonçalves e resolveu um dos poucos problemas do Torreense ao longo do jogo.
Há também destaque claro, ainda pensando na solidez defensiva, a algumas das exibições do Torreense. Para lá da importância tática de Léo Silva, há dois destaques inequívocos. O maior, até pelo papel de herói com o golo no prolongamento, é Stopira. Viveu uma época de total afirmação aos 38 anos. Marcou o golo mais importante da história de Cabo Verde, colocando o país africano no Mundial 2026, e agora marcou o golo mais importante da história do Torreense, responsável pela conquista da Taça de Portugal. Defensivamente, foi fiável e capaz de defender a área e de suportar duelos. Também Lucas Paes, ainda que sem nenhuma defesa impossível, deu segurança ao Torreense. Fez um jogo em crescendo e, quando necessário, apareceu. Fundamental nas saídas a cruzamento, talvez o maior mérito.


Ofensivamente, foi um Torreense com capacidade para criar perigo. Não foi uma exibição perfeita nem, como Luís Tralhão destacou, tão vistosa com bola como o clube quereria. Ainda assim, com o objetivo do golo conquistado tão cedo, foi uma exibição de ameaça ao Sporting. O Torreense tem na frente jogadores capazes de provocar a linha defensiva. Quer Dany Jean, quer Kévin Zohi, foram capazes de ameaçar constantemente a profundidade. Quando as baterias se esgotaram, Musa Drammeh e Ismail Seydi – salvo do purgatório dos réus depois de um lance inacreditável – cumpriram o mesmo papel.
Talvez não tão visível nos highlights, mas tão ou mais importante, a exibição de Javi Vázquez não pode passar despercebida. É um dos jogadores do Torreense com maior teto em todo o plantel, principalmente pelo acerto na batida da bola. A forma como calibra os passes e cruzamentos e mete o esférico na zona certa com a intensidade certa ajuda ao jogo do Torreense, tão focado no aproveitamento dos espaços. Absolutamente dominante no Jamor.
O Torreense surpreendeu e conquistou o Jamor. A época ainda não acabou para o conjunto do Oeste que joga nova final na próxima quinta-feira. O calendário apertou, mas não se fez sentir e a época já é histórica. Resta saber a divisão que acolherá o vencedor da Taça de Portugal na próxima época.


BnR na Conferência de Imprensa
Bola na Rede: Sobre a importância do Léo Silva no controlo do espaço entrelinhas, qual a chave e o segredo para ele saber os timings de quando subir um bocadinho e ocupar o espaço entrelinhas e de quando baixar para a linha defensiva. Pergunto também se o golo cedo alterou ou reforçou a estratégia preparada pela equipa para o jogo?
Luís Tralhão: Nós tínhamos analisado e visto que tanto o Pote como o Trincão, em zonas mais baixas do Sporting, jogam muito interior. Sabíamos que, muitas das vezes, na nossa Liga, na Liga 2, encurtamos com um central um bocadinho mais à frente e com um médio no outro jogador, mais alto. Mas desprotegíamos um bocadinho o 1X1 e não quisemos deixar o Suárez no 1X1 contra o Stopira ou o Ali [Diadié]. Sabíamos que podíamos correr esse risco. Tínhamos visto vários jogos do Sporting e obviamente que o Suárez é um jogador top mundial. O Sporting utiliza muito o jogo na profundidade quando as equipas assim permitem. Sabíamos que o Léo [Silva] e o [Guilherme] Liberato iam tapar aquelas zonas numa fase um bocadinho mais alta e que, numa zona um bocadinho mais baixa, o Léo, se houvesse necessidade, quando o Sporting começa a colocar muita gente na nossa linha defensiva, entraria nessa linha. Há ali uma passagem, um tempo de passagem de ele estar à frente ou atrás da linha muito importante. Ao intervalo vimos algumas imagens e percebemos que o Léo estava muito cedo na linha e outras vezes não. Não sei se repararam, mas o Luis Quintero acabou por estar muito mais baixo do que achávamos, porque o Maxi assim o obrigou. Então, a nossa linha de 5, que habitualmente fazemos com o Léo, já estava feita com o Luis e o Léo podia estar um bocadinho à frente. Na segunda parte, tentámos que o Léo estivesse mesmo na linha para dar alguma liberdade ao Luis para estar um bocadinho mais à frente porque sentimos que também era preciso ter bola. Com o Luis um bocadinho mais baixo, acabámos por ter dificuldades naquele espaço curto de tempo em que temos a bola. Faltavam algumas linhas de passe. Era importante que o Léo estivesse mais atrás para o Luis estar um bocadinho mais à frente.
Quanto ao impacto, acho que foi muito bom. Não posso negar que começar praticamente o jogo a ganhar nos dá alguma serenidade e tranquilidade. Agora, também, e não quero parecer presunçoso, creio que estar a ganhar muito cedo nos tirou alguma capacidade de ter bola e circular bola. A nossa equipa tem essa capacidade e sinto mesmo que, se conseguíssemos ultrapassar a primeira linha de pressão do Trincão e do Suárez, juntamente com o Pote e o Catamo, éramos capazes de circular nas costas, pelo menos destes quatro jogadores e aproveitar alguma da igualdade numérica que tivemos. Lá está, equipas como a nossa, que se veem a ganhar num palco como este, num estádio cheio, acabam por se agarrar um bocadinho mais ao resultado do que ao processo. Olhe, e ainda bem. Está aqui [a medalha]».
