A deslocação de Portugal aos Estados Unidos terminou com um triunfo que, sendo confortável no marcador, pouco esclarece em relação ao verdadeiro momento da equipa orientada por Roberto Martínez. A pouco mais de dois meses do Mundial, esperava-se uma seleção mais próxima daquilo que pretende ser em competição, mas o que se viu, sobretudo na primeira parte, ficou aquém desse cenário.
Os primeiros 45 minutos foram reveladores de várias fragilidades. Desde logo, na construção, onde Portugal mostrou dificuldades em sair a jogar com critério. Gonçalo Inácio esteve longe da segurança habitual, acumulando decisões precipitadas e execuções pouco eficazes. A equipa tornava-se previsível, incapaz de ligar setores com consistência, e isso refletiu-se num ataque posicional praticamente inofensivo.
Pedro Neto e Gonçalo Ramos raramente conseguiram entrar no jogo, demasiado desligados e sem movimentos que criassem desequilíbrios. No meio desse cenário, foi Bruno Fernandes quem tentou dar algum critério e imaginação, ainda que quase sempre sem acompanhamento.


O golo surgiu num momento de oportunismo, após uma recuperação de bola que apanhou os norte-americanos desorganizados. Um lance que acabou por mascarar, ainda que temporariamente, a falta de dinâmica coletiva. Porque, olhando para o jogo jogado, a equipa portuguesa revelou-se pouco fluida, com muitos sinais de descoordenação. Jogadores a pedir bola sem resposta, timings desencontrados e uma evidente falta de rotinas. Também é verdade que os Estados Unidos pouco exigiram. A seleção americana apresentou-se longe de um nível competitivo elevado, confirmando as dúvidas que têm marcado a sua preparação para o Mundial.
A segunda parte trouxe um Portugal diferente, muito por força das alterações operadas. A equipa ganhou qualidade técnica e, sobretudo, outra capacidade de se ligar no último terço. O corredor esquerdo passou a ter outra vida com a entrada de Ricardo Horta e a presença de Nuno Mendes, oferecendo largura, profundidade e melhores decisões. Também João Félix e Francisco Conceição acrescentaram irreverência e capacidade de desequilíbrio, algo que tinha sido praticamente inexistente antes do intervalo.


Foi neste contexto que surgiu o segundo golo, com naturalidade, premiando uma fase em que Portugal conseguiu, finalmente, ter algum controlo e qualidade nas suas ações ofensivas. Ainda assim, mesmo com a melhoria, nunca se assistiu a uma exibição verdadeiramente consistente. Houve mais critério, é certo, mas não propriamente uma identidade sólida.
No final, fica a ideia de um estágio que deixa poucas garantias. A gestão de Roberto Martínez privilegiou a experimentação, mas, nesta fase, talvez se esperasse uma maior preocupação em consolidar processos e criar ligações entre aqueles que deverão assumir o protagonismo na fase final. Mesmo com ausências, o jogo pedia mais do que ensaios.
Num encontro globalmente pobre, com pouca intensidade e qualidade discutível de ambas as partes, Portugal fez o suficiente para vencer, mas não o bastante para convencer. O resultado fica para a estatística; as dúvidas, essas, continuam bem presentes.

