Breno Lemos cedeu uma entrevista em exclusivo ao Bola na Rede. O médio do Shabab Al Ahli abordou o seu percurso ao longo da sua carreira e falou sobre como é ser treinado por Paulo Sousa.
Breno Lemos, médio treinado por Paulo Sousa, no Shabad Al Ahli, cedeu uma entrevista, em exclusivo, ao Bola na Rede, à qual abordou a sua carreira assim como a sua adaptação aos Emirados Árabes Unidos.
Bola na Rede: Temos acompanhado a tua época e a tua grande regularidade em campo. Para começar, olhando para a tua formação em dois grandes clubes como o Palmeiras e o América Mineiro: que principais lições trazes da forte competitividade da base brasileira e como isso te moldou no jogador que és hoje?
Breno Lemos: Primeiramente, queria agradecer também a oportunidade de estar aqui. É um prazer. Está tudo tranquilo, graças a Deus. Tem sido uma temporada muito boa para mim, na qual, como referiste, tenho somado os meus melhores números: são nove golos, três assistências e muita regularidade, o que me tem firmado cada vez mais. Em relação à minha formação, a passagem pelo Palmeiras ficou muito marcada para mim, pois foram quase cinco anos. Depois, no América Mineiro, o processo foi mais rápido: joguei poucos meses na base e fui logo para a equipa profissional. Mas costumo dizer que essa experiência me forjou e me fez crescer bastante, porque é um nível muito alto. Hoje, é a base mais competitiva do Brasil; lutam por todos os títulos e têm uma mentalidade muito forte, em que todos pensam em vencer. Existe uma cobrança maior e estamos ao lado de jogadores grandíssimos. Portanto, a toda a hora tens de te cobrar e de crescer para sustentar o nível e representar a instituição com responsabilidade. Na minha carreira e na minha formação, foi muito importante construir essa mentalidade, o que é difícil. Sem contar com a componente de formação e com os profissionais que lá estão, acho que, quando cheguei ao América com esse currículo todo, e comecei a ter mais minutagem e oportunidades, fez efeito. Valeu a pena o período de formação lá.
Bola na Rede: Como viveste a transição da base para a equipa principal? Sendo bastante jovem na altura, certamente defrontaste atletas com tantos anos de carreira como tu tinhas de vida. Como foi lidar com essa exigência do futebol profissional?
Breno Lemos: Eu costumo falar com os meus mais próximos e com a minha família que, para mim, foi tudo muito diferente. Normalmente, quando se vê um jogador novo a estrear-se nos profissionais, ele entra no final de uma partida, joga 10 minutinhos e vai subindo. Na minha situação, foi totalmente diferente. Estreei-me a titular nuns oitavos de final da Copa do Brasil contra o Internacional, num momento em que o América vinha de cinco derrotas seguidas, com pedidos para a troca de treinador e muita coisa a acontecer. Fui estrear-me a titular e logo nesse primeiro jogo ganhámos ao Inter, que era uma equipa que estava muito forte naquele momento. No segundo jogo, com dois minutos, já faço um golo e ganhamos de novo. Então, fiz um pouco o processo inverso: primeiro comecei muito tempo a titular e só depois é que fui… enfim. Acredito que o futebol muda muito. O futebol da base permite errar mais, de vez em quando tolera certos erros, mas nos profissionais tudo muda. Quando jogas um Campeonato Brasileiro contra equipas como o Palmeiras ou o Flamengo, se errares, eles não perdoam e acaba em golo. A maturidade dentro de campo e a malícia fazem muita diferença. Como referi, o Brasileirão era um campeonato de um nível muito alto, por isso, subir tão novo exige muita maturidade. Acho que a minha formação no Palmeiras ajudou-me muito a poder chegar lá, porque a diferença é realmente muito grande. Se não estiveres preparado mentalmente para o momento bom e para o ruim, se não tiveres responsabilidade dentro de campo e não estiveres preparado técnica e taticamente, acabas por sofrer. Graças a Deus, consegui aproveitar, mesmo sendo titular, e tive uma sequência muito boa no ano que passei no Brasil.


«acredito que fiz a escolha certa».
Breno Lemos
Bola na Rede: Posteriormente, acabas por deixar o América para rumar ao Al-Ahli. Foi uma mudança que ocorreu ainda numa fase jovem da tua carreira, um momento em que muitos jogadores sentem algum receio ao deixar o seu país de origem. Sentes que a transferência para os Emirados Árabes Unidos foi o passo certo no teu percurso?
Breno Lemos: Sim. Até comentei com o meu empresário nestes dias que o maior motivo de ter vindo para cá foi realmente a minutagem, o crescimento e a necessidade de me firmar. Comecei como titular, mas o América estava a passar por um momento difícil e comecei a oscilar muito em relação aos minutos; jogava alguns jogos e outros não. Entendemos que aqui, num grande clube dos Emirados que lutaria por títulos, eu teria a responsabilidade de representar uma equipa vitoriosa, que precisa de ganhar, mas que também me daria uma maior sequência de minutos em campo para trazer essa maturidade. Há coisas no futebol que só aprendes dentro de campo, errando e acertando. Não adianta estares só na teoria sem a prática. A minutagem, esse tempo dentro de campo, participar em finais e em clássicos, ter esse tempo de jogo amadurece-te como jogador. Hoje, estando aqui há pouco mais de dois anos, acredito que fiz a escolha certa. Cresci muito como pessoa e como jogador. Os minutos dentro de campo têm-me ajudado muito. Acho que é um processo, mas acredito que sim, que foi a escolha certa.
Bola na Rede: A nível humano e de adaptação, como foi a chegada ao Dubai e a experiência de viver longe de casa? Embora no Brasil o clima varie consoante a região, o Dubai apresenta um calor muito constante. Como decorreu essa adaptação inicial a uma nova realidade e ao distanciamento da família?
Breno Lemos: Sim. Como pontuaste, eu passei por isso várias vezes e tive de ficar longe da minha família. Com 14 anos saí de Natal, no Rio Grande do Norte, no nordeste, para ir para São Paulo jogar no Palmeiras. Tive de deixar a minha mãe. O meu pai conseguiu ir, mas tive de ficar longe da minha mãe, vendo-a apenas uma ou duas vezes por ano. Depois, mais para a frente, quando vou para o América, vou sozinho. Durante todo o período em que lá estive, fiquei sozinho em Belo Horizonte. A minha mãe em Natal, o meu pai em São Paulo, e eu via-os poucas vezes no ano. Então, foi difícil, óbvio, mas eu já estava um pouco acostumado a passar por isso: ter de ir para um país e uma cidade nova, adaptar-me, fazer novas amizades e entrar num ambiente novo. Posso dizer que aprendi com tudo isso. Vindo para cá, a minha primeira impressão era a de um lugar totalmente diferente. Nunca tinha vindo ao Dubai, mas é um país super tranquilo e muito turístico. A maior parte da população não é local, é estrangeira. Então, apesar de ser um país muçulmano, recebe muito bem as pessoas de fora e já está acostumado devido ao turismo. A receção foi muito boa, e, como eu já falava inglês, foi muito tranquilo em relação a isso. No clube, o Shabab Al-Ahli, já havia alguns brasileiros, o que também ajudou muito na adaptação. Claro que têm a cultura deles, que é um pouco diferente, mas são super tranquilos e respeitadores em relação à nossa. Nesse sentido, acredito que foi tranquilo. Senti mais a diferença de jogo. O período de calor que citaste dura poucos meses. Normalmente, gira em torno de junho a setembro, que é muito pesado. Sendo que em junho estamos de férias e em julho é pré-temporada e vamos para a Europa, acabamos por apanhar agosto e setembro mais puxados. Depois fica mais tranquilo, com um clima super agradável. Eu particularmente gosto muito: é uma cidade muito segura, com pessoas respeitadoras. O clube recebeu-me muito bem. Portanto, onde eu temia mais, que era na adaptação, foi super tranquilo.


«Agradeço muito ao Paulo Sousa, porque estamos há dois anos juntos e ele realmente ensinou-me muito».
Breno Lemos
Bola na Rede: Projetando este final de época: sabemos que és treinado pelo português Paulo Sousa e que tens somado bastantes minutos sob o seu comando. Quais são os teus principais objetivos para o que resta da temporada e para o futuro próximo?
Breno Lopes: Temos apenas três jogos agora para terminar a temporada. Foi um ano também de bastante aprendizagem. Hoje, o meu objetivo é irmos de férias, preparar-me para podermos voltar e fazer mais uma grande temporada. Em relação ao Paulo Sousa, sou muito grato, porque foi um treinador que chegou aqui, apostou em mim e me deu a oportunidade de somar minutos e de me mostrar. É um treinador muito intenso, com uma personalidade muito forte, que soma muito na aprendizagem individual. Como ele foi um grande jogador, nesse um para um, nessas dicas pessoais de posicionamento de corpo e gesto corporal, ele agrega muito. Como eu falei, é um período em que tenho crescido bastante. Agradeço muito ao Paulo Sousa, porque estamos há dois anos juntos e ele realmente ensinou-me muito. Cobra muito por causa da sua personalidade, mas também extrai e traz muito de nós, porque é um bom treinador. Não sabemos como será o próximo ano, se ele vai permanecer ou não. Ainda tenho contrato com o Shabab Al-Ahli, por isso, o foco é fazermos com que a próxima temporada seja vitoriosa, como as outras foram.
Bola na Rede: Referiste a intensidade de Paulo Sousa. Sendo tu um médio, apresentas números muito interessantes a nível de finalização, com nove golos marcados. Sentes que, desde que trabalhas com o técnico português, evoluíste taticamente e o teu estilo de jogo mudou? Esses nove golos são um reflexo direto dessa evolução?
Breno Lemos: Com certeza. Quando eu cheguei, ele rapidamente veio conversar comigo um dia e disse: Está nítido, miúdo, tu és um médio de chegada à área. Então precisas de fortalecer isso e fazer a leitura certa. Qual é o momento? Porque, como sou novo e fisicamente estou bem, eu ia a toda a hora, a todo o momento. Ele trouxe-me essa perceção do momento certo de pisar a área, do momento certo de a invadir e do momento certo de dar equilíbrio à equipa. Nas equipas dele, o médio-defensivo (volante) também tem de construir bastante. Ele deu-me várias dicas nesse sentido, de como eu poderia crescer para ser também esse médio de construção. Como sou novo, acredito que temos de explorar e crescer o máximo que pudermos. Portanto, ele ajudou-me muito nesse sentido, percebeu rápido a minha característica e ajudou-me muito nesse ponto.
Bola na Rede: Para concluir e olhando para o futuro da tua carreira, quais são os teus próximos grandes objetivos a médio e longo prazo? Pretendes um dia regressar ao futebol brasileiro, ou perspetivas que o teu próximo passo passe pelo futebol europeu, talvez até por Portugal?
Breno Lemos: Hoje estou tranquilo aqui. Tirei o meu passaporte italiano e a minha cidadania italiana recentemente. Tenho o sonho de fazer um projeto europeu futuramente, mas hoje estou focado no agora, pois ainda tenho tempo de contrato. Esse tipo de coisas deixo para o meu empresário e para as pessoas que tomam conta disso. Claro que qualquer jogador novo almeja jogar numa grande equipa da Europa, e com o meu passaporte e cidadania italiana é um projeto que posso fazer de forma mais fácil no futuro. Mas hoje, neste momento, estou feliz aqui e a passar por um bom momento. Claro que esperamos os próximos passos, mas não tenho pressa nenhuma. Não estou afoito com isso, estou tranquilo.



