O Benfica voltou a cair. Depois de há duas semanas, ter sido afastado pelo OC Barcelos nas meias-finais da Taça de Portugal, a equipa encarnada (que já havia demonstrado sinais de quebra abrupta de rendimento no jogo dos quartos de final contra o Reus), viu mais um dos objetivos da época escapar-se por entre as mãos.
E voltou a fazê-lo num jogo onde criou oportunidades suficientes para discutir outro resultado, mas onde os erros individuais e a falta de eficácia acabaram por ser fatais perante um Barcelona extremamente competente e emocionalmente estável.
A derrota por 4-3 deixa um sabor particularmente amargo às águias, porque durante largos períodos a equipa encarnada conseguiu empurrar os catalães para trás, criou muito perigo e teve em Zé Miranda um dos jogadores mais inconformados da partida.
Logo nos minutos iniciais, Roberto di Benedetto e Zé Miranda obrigaram Sergi Fernández a duas grandes defesas, mas foi o Barcelona quem marcou primeiro, por intermédio de Ignacio Alabart (3’), num lance onde ficou a sensação de que o guardião encarnado Conti Acevedo podia ter feito mais.
A resposta encarnada foi imediata. João Rodrigues empatou praticamente na jogada seguinte, concluindo da melhor forma uma boa iniciativa ofensiva conduzida por Nil Roca.
O Benfica viveu depois um dos seus melhores períodos no encontro. Zé Miranda esteve em enorme destaque, criando sucessivos desequilíbrios e obrigando Sergi Fernández a defesas monumentais. Gonçalo Pinto ainda chegou a operar a reviravolta no marcador, mas o golo foi anulado por toque com o patim. E talvez aí o jogo tenha começado emocionalmente a fugir ao Benfica.
Porque apesar da boa exibição ofensiva, os encarnados continuaram demasiado vulneráveis defensivamente e acabaram castigados na segunda parte. Primeiro por Marc Grau (33’), que marcou praticamente contra a corrente do jogo, e logo depois por Ferran Font (34’), aproveitando uma perda de bola infantil de Zé Miranda para aumentar a vantagem catalã.
O Benfica não deitou a toalha ao chão, e teve uma reação bastante positiva. Sustentados numa massa adepta muito apaixonada e igualmente ruidosa, as águias pressionaram, e João Rodrigues (36’) reduziu de penalty para 3-2 e a equipa encarnada carregou intensamente em busca do empate, mas voltou a encontrar pela frente um Sergi Fernández (um ícone mundial do hóquei em patins, que aos 41 anos ainda demonstra que está na plenitude das suas faculdades) em estado de graça.
E quando o Benfica parecia mais próximo do empate, surgiu o golpe final. Após a 10ª falta encarnada, Alabart (44’) converteu com enorme classe o livre direto que fez o 4-2, e cujo lance teve o condão de silenciar (ainda que temporariamente) os adeptos encarnados.
Pau Bargalló ainda voltou a reduzir já nos últimos instantes (48’), reacendendo a esperança, e devolvendo emoção ao resultado, mas o Barcelona soube sofrer e segurou uma vitória extremamente importante.
O problema do Benfica já não é apenas perder jogos. É a forma como os perde. A equipa continua a mostrar qualidade ofensiva, talento individual e capacidade para discutir jogos grandes. Mas volta demasiadas vezes a cair nos mesmos erros: perdas de bola evitáveis, desconcentrações defensivas e enorme dificuldade em gerir emocionalmente momentos decisivos.
E no hóquei de alto nível, isso paga-se caro. 22 vezes vencedora deste troféu (recorde absoluto), a equipa do Barcelona longe da sua melhor versão, não ganhando uma Liga dos Campeões há mais de oito anos, foi mais fria, mais eficaz e mais madura. O Benfica foi mais emocional, mais precipitado… e voltou a cair. E a sensação de queda livre começa cada vez mais a instalar-se na Luz. Ricardo Ares (técnico do Barcelona) reencontrará na final de domingo a sua antiga equipa, com quem foi campeão europeu há 4 anos atrás, num encontro que promete ser bastante aliciante entre ambos conjuntos, e igualmente emocionante para o técnico catalão.
BnR NA CONFERÊNCIA DE IMPRENSA
Bola na Rede: Quais foram as maiores dificuldades que o Barcelona criou à sua equipa, e o que é que poderiam ter feito de diferente para inverter o rumo dos acontecimentos? Concorda com o favoritismo que foi atribuído à sua equipa antes do jogo?
Edu Castro: Eu passei 19 anos no Barcelona, e não houve nenhum jogo que nós tivéssemos disputado em que o Barça não tenha sido o favorito. É casualidade que hoje seja o primeiro dia. Basta avaliar o orçamento de uma equipa e de outra e comparar o mesmo. Em relação ao jogo, na primeira parte jogamos muitíssimo bem, e só permitimos ao Barcelona fazer quatro remates à baliza. Na segunda parte, concedemos demasiado espaço e fomos precipitados em algumas saídas de bola, e com a qualidade dos jogadores do Barcelona, isso é absolutamente fatal. Sergi Fernández fez uma exibição fantástica e tapou todos os caminhos para uma possível recuperação da minha equipa, que deu tudo até ao fim, mas não foi suficiente. O Barcelona foi muito eficaz nos contra-ataques, e a nós faltou-nos um pouco mais de fluidez, num final de jogo que foi muito caótico. Há que pensar já no campeonato a partir de amanhã.
Bola na Rede: Um jogo muito especial para si, voltando a uma casa que lhe é muito querida, tendo inclusive se sagrado campeão europeu com o FC Porto. Certamente que tem um profundo conhecimento dos jogadores portistas O que é que pensa que será determinante na final de amanhã, e considera que ter menos tempo de descanso, vai ser um factor que terá algum peso, ou não dá relevância a esse aspecto?
Ricardo Ares: Este é um projecto muito no início e é incrível podermos estar a disputar uma final da Champions. Isto é muito importante para a consolidação do trabalho que queremos desenvolver aqui. Respondendo à sua pergunta. Conheço muito bem os atletas do FC Porto, e será fundamental que os meus atletas saibam como interpretar o jogo em todos os momentos. Irei partilhar com os meus jogadores todo o conhecimento que tenho da equipa do FC Porto, mas como vimos hoje nas outras meias-finais contra o OC Barcelos, o FC Porto tem jogadores que podem equilibrar ou desequilibrar um encontro a qualquer momento. O FC Porto terá mais 4 horas de descanso, mas numa final de Champions não há cansaço. A ilusão e a vontade de conquistar um título sobrepôr-se-á a qualquer cansaço que possa existir.

