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O recorde de Lionel Messi | Argentina 2-0 Áustria


À entrada para este Mundial, era uma questão de tempo que Miroslav Klose visse o recorde que estabeleceu em 2014 batido. Poucos perspetivariam que fosse tão rápido. Quer Kylian Mbappé, quer Lionel Messi tinham possibilidades bastante claras de o fazer. Foi o argentino, que também estava bem mais próximo deste recorde, o primeiro a fazê-lo. Mais impactante que o recorde de maior goleador na história dos Mundiais, Lionel Messi, aos 38 anos e a uma semana de completar os 39, tem cinco golos no Mundial 2026. A Argentina também tem cinco.
Desta feita, o roteiro não foi exemplar e teve de passar por caminhos sinuosos. Aos 9 minutos, o 10 da Argentina foi à marca dos 11 metros para manter a tradição bem viva. Quer em 2018, diante da Islândia, quer em 2022, contra a Polónia, Lionel Messi desperdiçou um penálti na fase de grupos. Quis manter a tradição e nem acertou na baliza. O recorde ficou novamente mais distante, mas apenas por uns minutos. Há, no jogo de Lionel Messi, esta genialidade. Mal a bola passou ao lado do poste, se percebeu que, daí a uns minutos poderia sair um golo bem mais difícil.
Não foi um jogo de alto grau de exigência, mas foi, provavelmente, o golo perfeito para sinalizar mais um marco histórico na carreira do jogador. As contas são difíceis, mas provavelmente chegam aos três dígitos os golos de Messi à entrada da área, naquela zona que, um dia que se retire, será apelidada com o seu nome. Continua a ter uma batida na bola invejável e uma noção do local onde colocar a bola perfeita. Desta feita, jogou com o movimento de Schlager (que não conseguiu enganar no penálti) e marcou. Ainda voltou a faturar nos descontos, já bem no fim do jogo, num lance em que o próprio tem o maior mérito, não pela insistência no golo, mas pelo passe com que abre o campo e isola Julián Álvarez. Se ninguém pudesse correr, o nível que tem não seria muito diferente ao que exibiu no prime.


Apesar de reunir todos os golos da Argentina no Mundial 2026, a seleção albiceleste não se resume ao seu maior astro, mas é perfeitamente resumida na sua maior figura. O maior mérito de Lionel Scaloni é esse. Num mundo onde a fisicalidade e a imposição nos duelos são cada vez mais valorizados, a Argentina valoriza a pausa, as combinações em espaços curtos e as tabelas. Aproxima jogadores, guarda para si a bola e não deixa de ter ameaça. E assim, vai valorizando jogadores.
Enzo Fernández fez um jogo de médio total. Será sempre deste modo que mais se conseguirá valorizar, com liberdade para aparecer em zonas de saída de bola e construção, mas também dentro do bloco adversário e com capacidade para chegar à área. Se o lado direito do ataque é mais funcional naturalmente, com Molina a crescer sobre o corredor e as compensações entre Rodrigo De Paul e Lionel Messi, o lado esquerdo cresceu. Não só Facundo Medina, defesa central de raíz, ganhou envolvimento ofensivo, como Thiago Almada se conseguiu envolver mais no jogo. No primeiro golo, é dele a responsabilidade pela forma como a bola chega redondinha e sem oposição aos pés de Messi. Por fim, haverá sempre discussão sobre o titular do ataque argentino. Julián Álvarez é um nome mais sexy pela capacidade associativa e no ataque ao espaço. Ainda assim, Lautaro Martínez tem merecido a titularidade e correspondido, não em golos, mas no trabalho sobre a linha defensiva. É um jogador mais dado ao choque com os centrais e ao trabalho de fixá-los, libertando espaço para quem aparece desde trás. Tem correspondido, apesar das críticas.
A Áustria teve dificuldades em aparecer no jogo, embora o tenha mantido vivo até ao fim. Para impedir que a Argentina conseguisse chegar às costas da pressão, acabou por não se implementar de forma tão convicta no meio-campo contrário, juntando quatro homens na função de impedir a bola de chegar aos médios. Ainda assim, embora tenha conseguido um conforto defensivo durante longos períodos, a Áustria perdeu a sua maior força ofensiva. Na seleção não há grandes fontes de criatividade, embora Paul Wanner até tenha sido chamado ao onze. Sem as bolas recuperadas mais alto e em situações de desequilíbrio do adversário, reduziram-se as hipóteses austríacas que, para piorar, continua sem conseguir arranjar maneira de render Christoph Baumgartner como o jogador de chegada e capacidade concretizadora. Diante da Argélia, na última jornada, espera-se outro cenário no jogo.
Nem a tempestade travou a avalanche francesa | França 3-0 Iraque


Na vida há três certezas: a morte, os impostos e o weather delay nos EUA. Depois de um Mundial de Clubes, há um ano, com interrupções constantes, o Mundial 2026 parecia estar a conseguir escapar à tristeza de ver as equipas arrumarem a trouxa e esperarem, no balneário, que os raios, a chuva ou qualquer outro fenómeno meteorológico extremo se dissipe. Entre o capitalismo e a instabilidade climatérica, um dos dois será o maior retrato de norte-americanidade do mundo.
Foram a França e o Iraque os primeiros afetados pela regulamentação tão perfecionista que deixa de ter qualquer tipo de perfeição. Não deixa de ser poético que um país tenha mais entraves à circulação de pessoas durante a trovoada do que à circulação de armas por qualquer infantário. De um jogo entusiasmante, duas horas de pausa fizeram com que o encavalitar de jogos tornasse qualquer evento menso relevante e simbólico. Não que Mbappé, Olise e Dembélé tenham tido qualquer problema com isso.
Do quarteto ofensivo escalado por Didier Deschamps nos últimos meses, estes são os três nomes indiscutíveis. Diante do Iraque, todos mostraram a sua força. Quando muito se debatia a ausência de um criativo no jogo francês, já sem Antoine Griezmann que fazia todos os papéis necessários, Michael Olise decidiu aparecer. Não tem o pensamento tão estruturado como o seu antecessor na posição, muito menos a capacidade de funcionar como terceiro médio, mas tem na forma como descobre passes sem qualquer tipo de entrave uma força importante. A dinâmica posicional com Ousmane Dembélé, mais aberto ou mais interior, é fundamental para o 11 francês conseguir ver o campo de frente. Quanto ao Bola de Ouro, é natural que perca protagonismo na equipa francesa, mas também fez um jogo importante. Além do conforto que dá aos colegas, é fundamental na pressão, capaz de recuperar bolas mais alto e de garantir maior volume nos ataques.


Por fim, Kylian Mbappé continua a insistir em ter no Mundial o seu palco favorito. Não fosse Lionel Messi a um nível ainda mais estratosférico e o facto de, ao segundo jogo do terceiro Mundial, ter igualado Miroslav Klose (16 J, 16 G) teria muito mais repercussão. Impressionante a facilidade com que procura o remate e com que aparece na área, fluindo dentro de uma liberdade onde consegue interpretar todos os espaços. Não é ditador, é comandante. E, com o galo ao peito, até o correr para trás surge com naturalidade.
Entre as mudanças de Didier Deschamps, Manu Koné também aproveitou o momento para contrariar todas as dúvidas, mais por desconhecimento que por convicção. É, em todo o leque de médios, o mais completo, o que não significa, necessariamente, que tenha de ser o titular. Dificilmente o selecionador francês abdicará de Aurelién Tchouaméni, um pilar defensivo e posicional, ou de Adrien Rabiot, o faz tudo sobre o corredor esquerdo, mas as possibilidades de jogo ofensivo aumentam com o médio da AS Roma em campo. Não descura do ponto de vista defensivo ou físico e tem nos argumentos com bola, quer no passe, quer em condução. Será importante ao longo da competição.
A imagem do Iraque volta a ser positiva. Com um grupo tão complicado e um contexto delicado, devido à guerra no Médio Oriente e ao impacto que teve no futebol no país, não se esperava que desse para muito mais. Graham Arnold vai conseguindo valorizar a proposta de jogo e a seleção iraquiana tem conseguido competir, até um certo momento, pela capacidade de valorizar a bola. Desta feita, até pela lesão precoce de Aymen Hussein, a seleção iraquiana foi forçada a ter mais bola. Pela esquerda, projetando Merchas Doski e juntando Al-Ammari e Zidane Iqbal, geraram-se boas associações e uma convicção. Não é por qualidade que o médio com nome de craque não anda em contextos superiores ao Utrecht. É Zidane e bom de Bal(l).
As 1.001 maneiras de jogar futebol na terra do bacalhau | Noruega 3-2 Senegal


Diz-se que o bacalhau é da Noruega, mas o futebol tem feito questão de querer concorrer com o peixe. A seleção de Stale Solbakken tem mostrado que não está no Mundial 2026 para ser visto como peixe miúdo, mas como um peixe graúdo, que nem o bacalhau. Para lá da qualidade, há outra semelhança entre o futebol e a culinária do peixe mais gostado em Portugal: as diversas maneiras de trabalhar com o mesmo produto.
Se o bacalhau pode ser cozinhado de 1.001 maneiras distintas, diz a tradição lusa, confirmada pela quantidade de livros que as apregoam e propagam, o futebol também pode ser jogado de 1.001 formas distintas. No entanto, há um detalhe que ninguém nos conta. A base para todas as receitas do bacalhau passa, para lá do peixe, como é óbvio, pelo azeite, pela cebola, pelo alho. A base para todas as maneiras da Noruega jogar passam por Erling Haaland.
O avançado é a principal referência da seleção norueguesa e um porto seguro para todos os cenários ofensivos da Noruega. A seleção adversária vai pressionar e deixar espaço nas costas. Há Haaland para o explorar. O adversário vai baixar linhas e defender a área. Haaland vai estar na área para responder a cruzamentos. O adversário vai colocar dois ou três jogadores a marcar o cyborg norueguês? Não só vai haver gente a chegar à área livre como Haaland vai conseguir arranjar uma maneira, mais ou menos ortodoxa, de tocar na bola. Depois, há a técnica no remate, há a capacidade de funcionar como pivô e há o momento da pressão. A Noruega não vive de Haaland, mas dificilmente viveria da mesma maneira sem ele.


Contra Senegal, num dos jogos mais aguardados do Mundial 2026, Erling Haaland apareceu por duas vezes para permitir aos noruegueses defender uma vantagem de dois golos. Ainda assim, não só do avançado norueguês se fez uma exibição impositiva. É curioso como, em tempos, Martin Odegaard foi uma das maiores promessas do mundo. Os anos passaram e, depois de um início difícil, o médio conseguiu chegar ao topo, mas nunca com o mesmo hype com que começou. Não que tal signifique menos futebol. Abriu completamente o livro como médio de construção e de criatividade no último terço, mas também na sua versão de infiltrador, a construir vantagens na chegada à área. Foi bem acompanhado por Sander Berge, fundamental a garantir equilíbrios defensivos e ofensivos, e, na segunda parte, por Patrick Berg. Um autêntico tratado de futebol o médio que entrou ao intervalo.
Por mais que o Senegal tenha conseguido competir em ambos os jogos na fase de grupos, ainda não saiu recompensado e jogará a última jornada com o coração nas mãos e a matemática na cabeça. Diante da Noruega, até pela maior proximidade entre as duas seleções, fica a imagem de uma imagem menos conseguida que diante da França. Kalidou Koulibaly, esteio da equipa do ponto de vista defensivo, falhou por duas vezes e nas duas houve golo norueguês. Pelo poderio ofensivo, é impossível cometer tamanhos erros diante da Noruega. Lá na frente, o jogo de Nicolas Jackson também comprometeu e, pelas áreas, se explica muita da diferença.
Ainda assim, e recordando o duro caso da seleção de Senegal, com conflitos com a Federação, salários em atraso e condições de trabalho duras, há nomes aos quais Pape Thiaw se pode agarrar. Ismaila Sarr ser titular indiscutível é uma surpresa, até pelo pouco peso de Iliman Ndiaye, mas o avançado tem correspondido. Quer sobre a direita, quer por dentro, onde terminou o jogo, ataca espaços e procura a baliza. Garante sempre desconforto à defesa adversária. Do banco, e se Iliman Ndiaye tem pouco peso, há uma aposta importante em Ibrahima Mbaye. Traz sempre algo de novo ao jogo, com muita qualidade técnica no pé, mas também capacidade jogar no espaço. O PSG sabe bem o que está a fazer.
Foi preciso pôr as mãos na Maza e vestir o fato de operário | Jordânia 1-2 Argélia


Não chega a ser uma desilusão, longe disso, mas o Mundial 2026 da Argélia também não tem conseguido corresponder às expectativas de futebol envolvente e atrativo. Há miragens do futebol associativo e combinativo que as Raposas do Deserto têm como base, mas, do ponto de vista coletivo, há algumas dificuldades na sua implementação. Se a derrota contra a Argentina pode ser vista como normal, perante uma seleção com uma filosofia semelhante, as dificuldades diante da Jordânia, por muito competente e competitiva que a seleção asiática seja, são mais preocupantes.
A primeira parte, principalmente, foi complicada para a Argélia que, como seria normal e natural, teve bem mais bola, mas pouca capacidade para jogar dentro do bloco. As melhores oportunidades, curiosamente, até foram aproveitando os espaços nas costas dos defesas jordanianos, onde Riyad Mahrez foi capaz de chegar com regularidade. Faltou à maior estrela do futebol argelino, já numa fase diferente da carreira, outra agilidade e receção (que crueldade para um extremo que viveu muito da capacidade de receber e acelerar) para o perigo chegar.
Além das dificuldades ofensivas, há lacunas defensivas bem claras na seleção argelina, a começar pela baliza. Luca Zidane não dá, a este nível, garantias mínimas de segurança e estabilidade. Já contra a Argentina tinha ficado mal na fotografia. Depois, por perfil e morfologia, mas também por projeção ofensiva e pouco balanceamento, a seleção argelina terá sempre dificuldades para reagir a perdas de bola e a transições rápidas. A solução, no caso, até passa mais pelo que a seleção conseguirá fazer do ponto de vista ofensivo para conseguir esconder estas limitações e camuflá-las ao máximo, permitindo poucas recuperações altas e sendo capaz de travar ao máximo transições e bolas no espaço.


Sem um envolvimento ofensivo deslumbrante e com lacunas defensivas, a segunda parte trouxe um ritmo diferente e uma capacidade de fazer fluir o jogo distinta à Argélia. Não será, certamente, a solução ideal para a proposta argelina, mas o que Ahmed Benbouali, o melhor marcador do Gyor, o surpreendente campeão húngaro, ofereceu compensou as lacunas criativas. Às vezes, basta não inventar demasiado e vestir o fato de operário, meter um avançado de área perto da baliza e esperar por um cruzamento ou uma bola parada. Foi com dois lances destes que a Argélia acabou por chegar a uma reviravolta muito suada, como quem precisa de meter a mão na Maza para se suceder. E, se o criativo argelino esteve apagado na primeira parte, na segunda, jogando mais recuado como segundo médio, fartou-se de acertar passes e de fazer o jogo fluir. Vai nascendo uma estrela.
Para a Jordânia, o peso de uma eliminação tão precoce não reflete a competitividade e a combatividade, duas palavras foneticamente semelhantes e, no caso, complementares, que a seleção foi capaz de colocar em campo. Foi, quer para a Áustria, quer para a Argélia, muito complicado de defrontar a seleção asiática, que conseguiu ser competitiva lá atrás e, sem muitos rodeios, criar perigo em transição, com ataques muito rápidos e eficientes. É uma seleção com focos muito claros e que vai vivendo deles.
Fica, desta derrota, o final de primeira parte. Já antes do golo, a Jordânia conseguiu aumentar o volume ofensivo em transição. Desta feita, com Mahmoud Al-Mardi sobre a esquerda, a fazer o papel de ligação entre meio-campo e ataque, houve outra capacidade para gerir as transições e variar caminhos. A ligação a Mousa Al-Tamari, o grande destaque da seleção, continuou predilecta, contando com tudo o que avançado ofereceu ao jogo, mas não se esgotou nisso. A Jordânia conseguiu chegar com mais gente perto da área e, assim, aumentar o perigo. Não deixa de ser uma recompensa merecida mais um golo no Mundial, precisamente com Nizar Al-Rashdan a chegar perto da área para evitar que uma rosca de Al-Tamari se perdesse. Quando se lidera uma seleção louca por jogar, até as piores ações técnicas se convertem em objeto de culto.

