Mundial com 48 seleções, zero tédio: A fase de grupos que calou os críticos

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A fase de grupos do Mundial 2026 chegou ao fim e deixou uma certeza: o novo formato veio para ficar. A prova alargada a 48 seleções poderia ter trazido jogos desequilibrados, menor competitividade e algum desgaste competitivo, mas a verdade é que entregou uma primeira fase rica em histórias, surpresas e emoções.

Houve favoritos em dificuldades, estreantes a fazer história, potências tradicionais a cair demasiado cedo e candidatos que começam agora a ganhar forma. O Mundial ficou maior. Mas, pelo menos para já, não ficou menos interessante.

Senegal, Cabo Verde, República Democrática do Congo e África do Sul (quatro das nove seleções africanas apuradas para a próxima fase) ajudaram a dar uma marca muito própria a esta fase de grupos. O Senegal parecia encostado às cordas, mas respondeu com uma goleada categórica (5-0) frente ao Iraque. 

Num jogo onde praticamente só a perfeição servia, a seleção africana foi intensa, eficaz e emocionalmente fortíssima (beneficiando de jogar contra 10 unidades mais de 70 minutos), garantindo uma qualificação que parecia muito complicada, mas não deixando de ser igualmente merecida, pois haviam competido muitíssimo bem contra França e Noruega nos dois primeiros jogos.

Cabo Verde, por sua vez, já tinha ganho este Mundial antes mesmo de entrar em campo. A estreia absoluta numa fase final era, por si só, um feito histórico. Mas os Tubarões Azuis foram mais longe e conseguiram chegar aos 16-avos, onde terão o prémio mais mediático possível: defrontar a campeã do mundo Argentina, depois de terem batido o pé à Espanha e tendo eliminado o Uruguai.

Também a RD Congo escreveu uma página muito bonita. 52 anos depois da participação como Zaire, os congoleses regressaram a um Mundial e conseguiram passar à fase a eliminar depois de operarem a reviravolta diante do Uzbequistão. Agora terão pela frente a Inglaterra, num duelo de elevado grau de dificuldade, mas também de enorme simbolismo.

A África do Sul fechou o lote das boas notícias africanas, garantindo o apuramento com uma vitória épica frente à Coreia do Sul. Será precisamente a seleção sul-africana a abrir os 16-avos, diante do Canadá.

Portugal estará nessa fase da prova, mas dificilmente alguém poderá olhar para esta fase de grupos com entusiasmo. O empate frente à RD Congo foi o primeiro sinal de alerta. A goleada diante do Uzbequistão serviu para cumprir a obrigação perante uma das seleções mais frágeis da prova, que terminou com três derrotas e 11 golos sofridos. Já o empate frente à Colômbia voltou a expor limitações preocupantes.

A equipa colombiana foi superior durante largos períodos e merecia ter vencido (inexplicável como o golo de Davinson Sánchez não subiu ao marcador devido à muita questionável nova regra do fora de jogo, que está a desvirtuar o futebol). Portugal voltou a parecer uma seleção sem chama, sem grande intensidade e, sobretudo, sem uma identidade coletiva clara.

Roberto Martínez continua a dominar a arte do discurso diplomático, mas a equipa continua a não dominar os jogos como deveria. Há talento individual para muito mais. Há soluções em praticamente todas as posições. Mas falta uma ideia forte, reconhecível e capaz de transformar uma excelente geração numa verdadeira equipa candidata ao título.

Agora surge a Croácia, com Luka Modric, aos 40 anos, ainda a dar lições de futebol. E o caminho não será simples: no horizonte pode surgir a campeã europeia Espanha, que também não tem deslumbrado, mas continua a ter talento suficiente para resolver jogos em momentos isolados.

Entre os candidatos, a França foi quem deixou a imagem mais forte. A seleção gaulesa terminou a fase de grupos com autoridade e confirmou o estatuto de uma das grandes favoritas ao título. Dembélé e Mbappé somaram quatro golos cada e deram ao ataque francês uma dimensão assustadora. Quando uma equipa deste nível coletivo junta eficácia ofensiva a talento individual desta dimensão, é impossível não a colocar entre as principais candidatas.

O México também merece destaque. Uma das anfitriãs fechou a fase de grupos com três vitórias e zero golos sofridos. Mais do que os resultados, impressionou a maturidade competitiva e a organização defensiva. O duelo frente ao Equador será um excelente teste à real dimensão da equipa mexicana.

Já os Estados Unidos fizeram uma fase de grupos muito interessante. Intensos, agressivos e emocionalmente ligados à competição, os norte-americanos mostraram que não querem ser apenas anfitriões simpáticos. A vitória expressiva frente ao Paraguai abriu caminho para uma campanha que pode continuar a crescer.

O Brasil chega aos 16-avos em crescendo, mas sem dissipar totalmente as dúvidas. A seleção brasileira foi ganhando confiança ao longo da fase de grupos e teve em Vinícius Júnior uma das grandes figuras, com golos em todos os jogos. Ainda assim, o confronto com o Japão será o primeiro grande teste a sério.

E convém lembrar: os japoneses venceram o último confronto entre ambos, ainda que num amigável. Esta seleção nipónica é organizada, intensa e tecnicamente muito competente. Não será um adversário fácil.

A Alemanha, por sua vez, viveu uma fase de grupos estranha. Começou com um 7-1 sobre Curaçau, mas depois sofreu muito para bater a Costa do Marfim e acabou derrotada pelo Equador. Continua a ser Alemanha, e isso nunca é pouco num Mundial. Mas há sinais claros de fragilidade e a possibilidade de defrontar a França nos oitavos de final da competição.

Um dos jogos mais apelativos dos 16-avos será Países Baixos-Marrocos. E talvez seja uma pena que aconteça já nesta fase. Os neerlandeses foram uma das seleções que melhor futebol apresentaram na fase de grupos, com qualidade coletiva, dinâmica ofensiva e uma ideia de jogo bastante clara. Marrocos, por sua vez, voltou a provar que a campanha histórica de 2022 não foi uma exceção, mas sim parte de um projeto competitivo cada vez mais consolidado. É um daqueles jogos que poderia perfeitamente aparecer mais à frente na competição.

A fase de grupos terminou com uma sequência digna de cinema no Argélia-Áustria. Durante largos minutos, assistiu-se a um pacto de não agressão muito difícil de aceitar, semelhante ao que já se tinha visto no Paraguai-Austrália. O empate (2-2) servia interesses mútuos e o jogo entrou numa espécie de bloqueio competitivo pouco bonito para um Mundial.

Até que a Argélia decidiu quebrar o guião. O golo de Mahrez no último minuto de descontos colocou a Áustria à beira da eliminação durante cerca de um minuto. O árbitro concedeu mais um minuto devido às comemorações do golo de Mahrez, e Ralf Rangnick aproveitou para lançar o ponta-de-lança Saša Kalajdžić em desespero e, numa bola bombeada para a área, Gregoritsch acreditou até ao fim e o avançado austríaco acabou por empatar.

A Áustria sobreviveu. A Argélia também. E quem pagou a fatura foi o Irão, eliminado de forma particularmente cruel, depois de também ter sido severamente prejudicado pela arbitragem no encontro frente ao Egito. O Irão vê assim esfumado o sonho de seguir em frente neste Mundial, tendo o seu percurso sido abruptamente terminado de uma forma dramática e até bastante injusta, pois sucederam-se as situações em que foram discriminados e marginalizados.

Nem todos saíram com honra deste Mundial. A Coreia do Sul caiu sem deixar grande marca e com a sua estrela Heung-Min Son a não conseguir ter impacto competitivo. O Uruguai, sempre associado à competitividade e ao espírito de combate, saiu pela porta pequena, e com os métodos de Marcelo Bielsa (outrora replicados por vários treinadores conceituados) a necessitarem de renovação e modernização urgentes.

Já a Turquia foi uma das maiores desilusões da fase de grupos. Havia muita expectativa em torno desta geração, mas a seleção turca pareceu demasiado confiante em vários momentos e acabou castigada pela falta de maturidade competitiva, assim como pela sua falta de acerto. Mais de 60 (!) remates nos dois primeiros jogos do grupo e nenhum golo marcado. Tornou-se assim inevitável a sua precoce eliminação.

E depois há Lionel Messi. Aos 39 anos recém-cumpridos, o argentino continua a jogar como se o tempo não se aplicasse a ele. É o melhor marcador da competição, com seis golos, e está apenas a um de atingir a impressionante marca dos 20 golos em Campeonatos do Mundo.

A Argentina chega à fase a eliminar como uma das grandes favoritas, mas também com uma certeza evidente: continua profundamente ligada à inspiração do seu número 10. Leo Messi já ganhou tudo. Já provou tudo. Já escreveu mais páginas do que qualquer adepto poderia exigir. Mas continua a jogar como quem ainda tem algo a dizer ao futebol. E talvez tenha mesmo.

Alguns dos duelos dos 16-avos são bastante apelativos. Eis o quadro final de encontros da próxima fase: 

  • África do Sul x Canadá
  • Brasil x Japão
  • Alemanha x Paraguai
  • Países Baixos x Marrocos
  • Costa do Marfim x Noruega
  • França x Suécia
  • México x Equador
  • Inglaterra x RD Congo
  • Bélgica x Senegal
  • Estados Unidos x Bósnia e Herzegovina
  • Austrália x Egito
  • PORTUGAL x Croácia
  • Argentina x Cabo Verde
  • Colômbia x Gana
  • Espanha x Áustria
  • Suíça x Argélia

Há favoritos claros. Há jogos equilibrados. Há histórias improváveis. E há seleções que já provaram que este Mundial não será decidido apenas pelo peso da camisola. A fase de grupos trouxe milagres, sustos, quedas e confirmações. As contas da fase de grupos ficaram fechadas. A partir daqui, cada jogo vale uma vida e cada erro pode significar uma viagem para casa.

Tiago Campos
Tiago Campos
O Tiago Campos tem um mestrado em Comunicação Estratégica mas sempre foi um grande apaixonado pelo jornalismo desportivo, estando a perseguir agora esse sonho. Fã acérrimo do "Joga Bonito".

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