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O Wonderwall inglês | Inglaterra 2-1 RD Congo


“You’re gonna be the one that saves me”
Noel Gallagher já explicou que “Wonderwall”, o hino não oficial de Inglaterra e a música que baliza a capacidade de qualquer um tocar guitarra, não se dirige a nenhuma pessoa especial, muito menos a uma paixão amorosa, mas a um amigo imaginário que lhe garantiria proteção e salvação. Não há, portanto, um destinatário físico, com aparência, feições e uma identidade para lá do espiritual. À falta de outra cara, por estes dias é Harry Kane a grande referência protetora da seleção inglesa.
Impressionante o que o avançado fez. Praticamente sozinho, resolveu o jogo. O desfecho do Mundial 2026 será muito importante nestas contas, mas não há melhor jogador no mundo esta temporada. Encontrou o espaço perfeito para responder a um cruzamento e, depois do alívio do empate, abriu o livro com um dos golos deste Mundial. Mais impressionante do que a ferocidade do remate, só o trabalho de preparação, a forma como ultrapassou adversários e encontrou o espaço. Além do avançado de área, é a principal referência criativa da seleção inglesa. Não é coisa pouca.
Salvou Thomas Tuchel de uns dias muito desconfortáveis. O selecionador inglês, para o bem e para o mal, vai morrer com as suas ideias. Deixou-o bem claro na convocatória e, agora, vai levando com as consequências. Contra a Croácia, por exemplo, saíram reforçadas. Agora, diante da RD Congo, são questionadas. Não há escolhas sem contradições, sem caminhos errados, mas também não as há sem pontos fortes e mais-valias. A linha entre a teimosia e a casmurrice é muito ténue e, graças a Harry Kane, o selecionador inglês livrou-se de perguntas incómodas. Trent Alexander-Arnold, Adam Wharton, Cole Palmer e Phil Foden eram nomes óbvios diante de um bloco mais baixo.


Durante grande parte do jogo, além de Harry Kane, houve Jude Bellingham para complementar os movimentos do ponta de lança e garantir vantagens na área. Numa primeira parte de pouca criatividade, apareceu duas vezes de supresa para responder a situações de cruzamento. Na dinâmica inglesa, de chamar Harry Kane para lançar, ter um médio com a abrangência de movimentos do 10 inglês é fundamental para os Três Leões. Nem só de Wonderwall vivem os ingleses. Também de Hey Jude!
Durante longos períodos, foi impossível aos ingleses chegarem à área de outras maneiras. Sem haver espaço para Harry Kane lançar a bola na frente, os extremos ingleses saem pouco valorizados. Nem de Noni Madueke nem de Marcus Rashford saiu grande ameaça exterior, quer no 1×1, quer na capacidade de se juntarem para criar. A tentativa de implementar o seu modelo de jogo não abriu o leque das opções para procurar outros perfis. Com Bukayo Saka ainda longe do melhor nível, foi de Anthony Gordon que chegou alguma diferença. As duas assistências são o produto final que foi faltando. Não é de estranhar que Eberechi Eze, longe de ser um criativo puro, mas com outro toque de bola no passe e criação, tenha acrescentado. Foi pelos dois suplentes, mérito seja dado a Thomas Tuchel (ou Anthony Barry, como o treinador principal reforçou) que a bola começou a gerar mais perigo.
A estratégia congolesa foi crucial para levar o jogo em vantagem até tão perto do fim. Outra maturidade e leitura dos cenários – Inglaterra foi carregando a área sem reação – teriam permitido levar a surpresa avante. Muito inteligente na abordagem estratégica, na forma como se montou num 4-3-3 mais padrão para impedir que os médios ingleses jogassem de cadeirinha. Sadiki colou em Anderson, Mukau em Rice e Moutoussamy em Bellingham. Impediam Inglaterra de jogar por dentro, desciam para reforçar a linha defensiva quando necessário e anularam o jogo inglês. Na área houve Tuanzebe e Lionel Mpasi a um grande nível. Com bola, perante a ausência de acompanhamento dos extremos, mas também dos médios, durante grande parte do jogo, Sadiki e Mukau foram jogando de livre vontade. Quando Wissa atraía os defesas, rapidamente a bola chegava a Brian Cipenga para acelerar pela esquerda. Inglaterra ia provando do próprio veneno, mas Harry Kane viu Wissa a replicar um pouco do seu papel e decidiu fazer melhor. Foi o que valeu aos ingleses, que terminaram a agradecer ao seu Wonderwall em uníssono.
Um jogo inexplicável | Bélgica 3-2 Senegal


Aos 85 minutos, tudo o que não fosse um funeral à Bélgica e uma vitória confortável de Senegal seria mentira. O que se sucedeu depois não tem qualquer explicação. Podia haver uma mudança estratégica decisiva – em parte, mas muito pequena para esta dimensão – ou uma união de grupo – uma piada na Bélgica – que justificassem o que se sucedeu, mas não há nada. O que é certo, e aí não há espaço para mentiras, é que foi a Bélgica que ganhou.
Se alguém merecia a vitória era Youri Tielemans. A discussão acesa com Leandro Trossard, outro dos poucos que se vai mostrando entre os titulares belgas, deixava tudo menos esperanças no ar, mas a verdade é que o médio do Aston Villa é, neste momento, a grande esperança da seleção. É o único fiel ao chocolate belga. Tem feito um ótimo Mundial como médio de organização e capacidade de passe, mas também mantendo acesa a chama para se aproximar da área e definir no último terço. Tudo o que não for dar-lhe o protagonismo está errado.
Quando Leandro Trossard passou a funcionar como um dos médios interiores, a Bélgica também cresceu. É um jogador que faz da balança entre o risco e a recompensa a sua grande arma. Conseguiu, pelo menos, dar alguma ordem ao jogo belga que, a partir da segunda parte, contou com Romelu Lukaku. Está longe do nível físico e técnico ideal, mas continua a percecionar os movimentos a fazer na área como poucos e a ser um pivô ideal. Quase como jogar contra a parede.


Para lá de um empate caído do céu e de uma vitória épica, há muito pouco a retirar de uma Bélgica onde até Courtois parece propício ao erro. Nesse sentido, a exibição de Brandon Mechele é demonstrativa. Foi um pijaminha de erros e falhou em tudo o que podia falhar. A transição entre gerações ainda prioriza estatutos a rendimento e está a ser uma travessia no deserto. O ambiente no balneário nunca foi famoso e as feridas abertas estão à mostra. A seleção de Rudi Garcia, um dos treinadores mais questionáveis a um nível tão alto, é uma mão cheia de nada e o Mundial 2026 está a ser doloroso. Mesmo assim, tem um momento de glória. Só é possível porque o futebol também é inexplicável.
Não é possível ignorar os deméritos de Senegal, que fez uns minutos anticompetitivos que terminaram o sonho de chegar longe no Mundial 2026. É uma das seleções com mais recursos no ponto de vista africano, desde logo pela capacidade camaleónica para assumir diferentes estratégias com aparente conforto, mas é facilmente traída por erros nos momentos chave. Já contra a França e contra a Noruega pecou por isso e, antes da agitação vinda do banco, também não vinha a fazer um jogo confiável contra o Iraque. Desta vez, a forma como tentou recuar linhas sem uma referência na frente para o contra-ataque deixou a Bélgica ganhar metros em campo. Quando se juntaram os erros individuais, o sonho acabou.
Um desfecho triste para alguns dos jogadores senegaleses, Ismaila Sarr acima de todos os outros. Começou o Mundial à direita e terminou-o por dentro, como referência ofensiva para explorar e atacar espaços e com capacidade para jogar também na área, quer em situações de cruzamento, quer para desmarcações. Uma aula e uma pintura, o golo que marcou. Nos corredores, Ismail Jakobs soube complementar Sadio Mané. Nota-se o desgaste nas pernas, mas continua a ter detalhes deliciosos. A Iliman Ndiaye só é estranho o pouco protagonismo neste Mundial, quando foi a principal referência na CAN disputada em dezembro e janeiro. Parte da direita para dentro, gera vantagens, recebe entrelinhas e joga com a bola colada ao pé. Também Pape Gueye vai deixar saudades. É impressionante a capacidade técnica no passe para lá dos atributos físicos. A Senegal falta dar o passo em frente. Já não basta só competir. Agora, também é preciso ganhar.
Mais uma prova de qualidade | EUA 2-0 Bósnia e Herzegovina


Não é mentira, exagero ou falsidade de fase de grupos. Os EUA jogam mesmo bem futebol. Há uns anos era heresia, há uns meses era miragem distante, mas é a mais pura das verdades. Podem continuar a ser charlatões, convencidos ou lunáticos com o ego lá em cima, mas desta vez têm razão. Há muito poucas seleções no Mundial 2026 que se possam orgulhar de estar a este nível.
Está a ser uma competição de derrube de ideias pré-feitas, de estereótipos, mas também de receios. Era inimaginável que a equipa de Mauricio Pochettino, que já tinha tido picos de desempenho superior, mas que escapava sempre quando a questão era a regularidade, se mostrasse a este nível. O fator casa terá a sua quota-parte, mas não justifica tudo. Desta vez, nem a pressão do jogo a eliminar, a ausência de um golo madrugador ou a expulsão do principal jogador estadunidense no torneio quebraram o ímpeto vencedor. Mais uma aula de bom futebol.
Excetuando o jogo diante da Turquia, que serviu para descansar titulares e dar minutos aos jogadores menos rodados, o contexto dos jogos dos EUA foi relativamente semelhante. Quer Paraguai, quer Austrália, quer agora a Bósnia e Herzegovina priorizam o conforto e a solidez defensivas e estão mais preocupadas com a ocupação dos espaços do que com a manobra da bola. Desta vez os homens do soccer não começaram o jogo com um golo que, invariavelmente, muda o cenário das partidas. Até por isso, a exibição é consistente. Não tão estrondosa quanto as anteriores, mas de extrema competência.


A Bósnia e Herzegovina adaptou-se, fechou o corredor central e povoou a última linha, para evitar a influência dos alas a atacar o segundo poste e dificultar os movimentos de infiltração dos médios norte-americanos. Funcionou até Folarin Balogun começar a aparecer para punir todos os erros. Está a ser um dos destaques silenciosos don Mundial, escondido entre o protagonismo de Mbappé, Kane, Haaland, Messi, Dembélé ou Vinícius Júnior. Na prateleira abaixo, não há ninguém tão destacável como o avançado a quem o destino pregou uma partida. Os seus pais são nigerianos e residiam, à data do seu nascimento, em Londres. Foram passar férias aos EUA e, quando regressavam, a mãe foi impedida de embarcar pela companhia aérea. Florence estava grávida de sete meses e Folarin acabou por nascer em Nova Iorque. Por isso, pode representar a seleção norte-americana e ser um dos destaques do Mundial 2026.
Exibição de profundo aproveitamento dos erros bósnios. Na primeira parte, marcou dois golos (um anulado) a partir de diagonais curtas para atacar o espaço que se criava nas costas da linha defensiva dos europeus mal perdiam a bola. Impressionante a capacidade de se movimentar pelo ataque. A expulsão retira-o dos oitavos de final e mancha um Mundial até então perfeito. Também com uma grande competição, Weston McKennie voltou a fazer um jogo de profundo impacto. Faz tudo e faz tudo bem. Desta vez, viu Malick Tillman roubar-lhe o protagonismo no meio-campo. Não tem a mesma energia e vivacidade e, por isso, escapa mais facilmente aos olhos, mas a nível técnico, no passe, criatividade e batida na bola, é o melhor dos norte-americanos. Que bom highlight ganhou com o livre perfeitinho. Quando o jogo se preparava para complicar, fechou qualquer discussão sobre o resultado.
Para a Bósnia e Herzegovina, além do apuramento, o grande momento no Mundial 2026 foi a eliminação da Itália, ainda em março. É uma equipa estruturada para defender, mas com fragilidades quando precisa de atacar. Mais do que o presente, com erros comprometedores e uma imagem esquecível, está aí o futuro. Há espaço para pensar nos bósnios para lá da dupla física na frente. Lá atrás, Tarik Muharemovic é dos centrais que mais sai valorizado. Joga de pé esquerdo, ganha duelos e preenche a área. Tem um perfil subtil, contradizente à ideia do central enorme que é. Mais do que Bajraktarevic, que começou titular e terminou suplente, foi o Mundial para Alajbegovic se mostrar ao mundo. Poucas vezes teve o contexto ideal para brilhar, mais preocupado com os espaços a preencher no momento defensivo, mas conseguiu sempre arranjar ocasião para ser destaque. Na despedida, esteve perto de um canto olímpico. Tem tudo para ocupar o lugar de Edin Dzeko, que diz adeus aos Mundiais, pelo menos, como referência da Bósnia para os próximos anos.

