O melhor do mundo canta Oasis e o roteiro mais épico do Tintin nas Américas – Diário do Mundial 2026 #21

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Lê também os outros capítulos do Diário do Mundial 2026. 

O Wonderwall inglês | Inglaterra 2-1 RD Congo

Harry Kane Inglaterra 3
Fonte: Federação Inglesa de Futebol

“You’re gonna be the one that saves me”

Noel Gallagher já explicou que “Wonderwall”, o hino não oficial de Inglaterra e a música que baliza a capacidade de qualquer um tocar guitarra, não se dirige a nenhuma pessoa especial, muito menos a uma paixão amorosa, mas a um amigo imaginário que lhe garantiria proteção e salvação. Não há, portanto, um destinatário físico, com aparência, feições e uma identidade para lá do espiritual. À falta de outra cara, por estes dias é Harry Kane a grande referência protetora da seleção inglesa.

Impressionante o que o avançado fez. Praticamente sozinho, resolveu o jogo. O desfecho do Mundial 2026 será muito importante nestas contas, mas não há melhor jogador no mundo esta temporada. Encontrou o espaço perfeito para responder a um cruzamento e, depois do alívio do empate, abriu o livro com um dos golos deste Mundial. Mais impressionante do que a ferocidade do remate, só o trabalho de preparação, a forma como ultrapassou adversários e encontrou o espaço. Além do avançado de área, é a principal referência criativa da seleção inglesa. Não é coisa pouca.

Salvou Thomas Tuchel de uns dias muito desconfortáveis. O selecionador inglês, para o bem e para o mal, vai morrer com as suas ideias. Deixou-o bem claro na convocatória e, agora, vai levando com as consequências. Contra a Croácia, por exemplo, saíram reforçadas. Agora, diante da RD Congo, são questionadas. Não há escolhas sem contradições, sem caminhos errados, mas também não as há sem pontos fortes e mais-valias. A linha entre a teimosia e a casmurrice é muito ténue e, graças a Harry Kane, o selecionador inglês livrou-se de perguntas incómodas. Trent Alexander-Arnold, Adam Wharton, Cole Palmer e Phil Foden eram nomes óbvios diante de um bloco mais baixo.

Inglaterra RD Congo Mundial 2026 Jogadores
Fonte: Federação Inglesa de Futebol

Durante grande parte do jogo, além de Harry Kane, houve Jude Bellingham para complementar os movimentos do ponta de lança e garantir vantagens na área. Numa primeira parte de pouca criatividade, apareceu duas vezes de supresa para responder a situações de cruzamento. Na dinâmica inglesa, de chamar Harry Kane para lançar, ter um médio com a abrangência de movimentos do 10 inglês é fundamental para os Três Leões. Nem só de Wonderwall vivem os ingleses. Também de Hey Jude!

Durante longos períodos, foi impossível aos ingleses chegarem à área de outras maneiras. Sem haver espaço para Harry Kane lançar a bola na frente, os extremos ingleses saem pouco valorizados. Nem de Noni Madueke nem de Marcus Rashford saiu grande ameaça exterior, quer no 1×1, quer na capacidade de se juntarem para criar. A tentativa de implementar o seu modelo de jogo não abriu o leque das opções para procurar outros perfis. Com Bukayo Saka ainda longe do melhor nível, foi de Anthony Gordon que chegou alguma diferença. As duas assistências são o produto final que foi faltando. Não é de estranhar que Eberechi Eze, longe de ser um criativo puro, mas com outro toque de bola no passe e criação, tenha acrescentado. Foi pelos dois suplentes, mérito seja dado a Thomas Tuchel (ou Anthony Barry, como o treinador principal reforçou) que a bola começou a gerar mais perigo.

A estratégia congolesa foi crucial para levar o jogo em vantagem até tão perto do fim. Outra maturidade e leitura dos cenários – Inglaterra foi carregando a área sem reação – teriam permitido levar a surpresa avante. Muito inteligente na abordagem estratégica, na forma como se montou num 4-3-3 mais padrão para impedir que os médios ingleses jogassem de cadeirinha. Sadiki colou em Anderson, Mukau em Rice e Moutoussamy em Bellingham. Impediam Inglaterra de jogar por dentro, desciam para reforçar a linha defensiva quando necessário e anularam o jogo inglês. Na área houve Tuanzebe e Lionel Mpasi a um grande nível. Com bola, perante a ausência de acompanhamento dos extremos, mas também dos médios, durante grande parte do jogo, Sadiki e Mukau foram jogando de livre vontade. Quando Wissa atraía os defesas, rapidamente a bola chegava a Brian Cipenga para acelerar pela esquerda. Inglaterra ia provando do próprio veneno, mas Harry Kane viu Wissa a replicar um pouco do seu papel e decidiu fazer melhor. Foi o que valeu aos ingleses, que terminaram a agradecer ao seu Wonderwall em uníssono. 

Um jogo inexplicável | Bélgica 3-2 Senegal

Youri Tielemans Bélgica 2
Fonte: Federação Belga de Futebol

Aos 85 minutos, tudo o que não fosse um funeral à Bélgica e uma vitória confortável de Senegal seria mentira. O que se sucedeu depois não tem qualquer explicação. Podia haver uma mudança estratégica decisiva – em parte, mas muito pequena para esta dimensão – ou uma união de grupo – uma piada na Bélgica – que justificassem o que se sucedeu, mas não há nada. O que é certo, e aí não há espaço para mentiras, é que foi a Bélgica que ganhou.

Se alguém merecia a vitória era Youri Tielemans. A discussão acesa com Leandro Trossard, outro dos poucos que se vai mostrando entre os titulares belgas, deixava tudo menos esperanças no ar, mas a verdade é que o médio do Aston Villa é, neste momento, a grande esperança da seleção. É o único fiel ao chocolate belga. Tem feito um ótimo Mundial como médio de organização e capacidade de passe, mas também mantendo acesa a chama para se aproximar da área e definir no último terço. Tudo o que não for dar-lhe o protagonismo está errado.

Quando Leandro Trossard passou a funcionar como um dos médios interiores, a Bélgica também cresceu. É um jogador que faz da balança entre o risco e a recompensa a sua grande arma. Conseguiu, pelo menos, dar alguma ordem ao jogo belga que, a partir da segunda parte, contou com Romelu Lukaku. Está longe do nível físico e técnico ideal, mas continua a percecionar os movimentos a fazer na área como poucos e a ser um pivô ideal. Quase como jogar contra a parede.

Bélgica Jogadores
Fonte: Federação Belga de Futebol

Para lá de um empate caído do céu e de uma vitória épica, há muito pouco a retirar de uma Bélgica onde até Courtois parece propício ao erro. Nesse sentido, a exibição de Brandon Mechele é demonstrativa. Foi um pijaminha de erros e falhou em tudo o que podia falhar. A transição entre gerações ainda prioriza estatutos a rendimento e está a ser uma travessia no deserto. O ambiente no balneário nunca foi famoso e as feridas abertas estão à mostra. A seleção de Rudi Garcia, um dos treinadores mais questionáveis a um nível tão alto, é uma mão cheia de nada e o Mundial 2026 está a ser doloroso. Mesmo assim, tem um momento de glória. Só é possível porque o futebol também é inexplicável.

Não é possível ignorar os deméritos de Senegal, que fez uns minutos anticompetitivos que terminaram o sonho de chegar longe no Mundial 2026. É uma das seleções com mais recursos no ponto de vista africano, desde logo pela capacidade camaleónica para assumir diferentes estratégias com aparente conforto, mas é facilmente traída por erros nos momentos chave. Já contra a França e contra a Noruega pecou por isso e, antes da agitação vinda do banco, também não vinha a fazer um jogo confiável contra o Iraque. Desta vez, a forma como tentou recuar linhas sem uma referência na frente para o contra-ataque deixou a Bélgica ganhar metros em campo. Quando se juntaram os erros individuais, o sonho acabou.

Um desfecho triste para alguns dos jogadores senegaleses, Ismaila Sarr acima de todos os outros. Começou o Mundial à direita e terminou-o por dentro, como referência ofensiva para explorar e atacar espaços e com capacidade para jogar também na área, quer em situações de cruzamento, quer para desmarcações. Uma aula e uma pintura, o golo que marcou. Nos corredores, Ismail Jakobs soube complementar Sadio Mané. Nota-se o desgaste nas pernas, mas continua a ter detalhes deliciosos. A Iliman Ndiaye só é estranho o pouco protagonismo neste Mundial, quando foi a principal referência na CAN disputada em dezembro e janeiro. Parte da direita para dentro, gera vantagens, recebe entrelinhas e joga com a bola colada ao pé. Também Pape Gueye vai deixar saudades. É impressionante a capacidade técnica no passe para lá dos atributos físicos. A Senegal falta dar o passo em frente. Já não basta só competir. Agora, também é preciso ganhar.

Mais uma prova de qualidade | EUA 2-0 Bósnia e Herzegovina

Malik Tillman EUA Christian Pulisic
Fonte: Federação Norte-Americana de Futebol

Não é mentira, exagero ou falsidade de fase de grupos. Os EUA jogam mesmo bem futebol. Há uns anos era heresia, há uns meses era miragem distante, mas é a mais pura das verdades. Podem continuar a ser charlatões, convencidos ou lunáticos com o ego lá em cima, mas desta vez têm razão. Há muito poucas seleções no Mundial 2026 que se possam orgulhar de estar a este nível. 

Está a ser uma competição de derrube de ideias pré-feitas, de estereótipos, mas também de receios. Era inimaginável que a equipa de Mauricio Pochettino, que já tinha tido picos de desempenho superior, mas que escapava sempre quando a questão era a regularidade, se mostrasse a este nível. O fator casa terá a sua quota-parte, mas não justifica tudo. Desta vez, nem a pressão do jogo a eliminar, a ausência de um golo madrugador ou a expulsão do principal jogador estadunidense no torneio quebraram o ímpeto vencedor. Mais uma aula de bom futebol.

Excetuando o jogo diante da Turquia, que serviu para descansar titulares e dar minutos aos jogadores menos rodados, o contexto dos jogos dos EUA foi relativamente semelhante. Quer Paraguai, quer Austrália, quer agora a Bósnia e Herzegovina priorizam o conforto e a solidez defensivas e estão mais preocupadas com a ocupação dos espaços do que com a manobra da bola. Desta vez os homens do soccer não começaram o jogo com um golo que, invariavelmente, muda o cenário das partidas. Até por isso, a exibição é consistente. Não tão estrondosa quanto as anteriores, mas de extrema competência. 

Folarin Balogun EUA
Fonte: Federação Norte-Americana de Futebol

A Bósnia e Herzegovina adaptou-se, fechou o corredor central e povoou a última linha, para evitar a influência dos alas a atacar o segundo poste e dificultar os movimentos de infiltração dos médios norte-americanos. Funcionou até Folarin Balogun começar a aparecer para punir todos os erros. Está a ser um dos destaques silenciosos don Mundial, escondido entre o protagonismo de Mbappé, Kane, Haaland, Messi, Dembélé ou Vinícius Júnior. Na prateleira abaixo, não há ninguém tão destacável como o avançado a quem o destino pregou uma partida. Os seus pais são nigerianos e residiam, à data do seu nascimento, em Londres. Foram passar férias aos EUA e, quando regressavam, a mãe foi impedida de embarcar pela companhia aérea. Florence estava grávida de sete meses e Folarin acabou por nascer em Nova Iorque. Por isso, pode representar a seleção norte-americana e ser um dos destaques do Mundial 2026.

Exibição de profundo aproveitamento dos erros bósnios. Na primeira parte, marcou dois golos (um anulado) a partir de diagonais curtas para atacar o espaço que se criava nas costas da linha defensiva dos europeus mal perdiam a bola. Impressionante a capacidade de se movimentar pelo ataque. A expulsão retira-o dos oitavos de final e mancha um Mundial até então perfeito. Também com uma grande competição, Weston McKennie voltou a fazer um jogo de profundo impacto. Faz tudo e faz tudo bem. Desta vez, viu Malick Tillman roubar-lhe o protagonismo no meio-campo. Não tem a mesma energia e vivacidade e, por isso, escapa mais facilmente aos olhos, mas a nível técnico, no passe, criatividade e batida na bola, é o melhor dos norte-americanos. Que bom highlight ganhou com o livre perfeitinho. Quando o jogo se preparava para complicar, fechou qualquer discussão sobre o resultado.

Para a Bósnia e Herzegovina, além do apuramento, o grande momento no Mundial 2026 foi a eliminação da Itália, ainda em março. É uma equipa estruturada para defender, mas com fragilidades quando precisa de atacar. Mais do que o presente, com erros comprometedores e uma imagem esquecível, está aí o futuro. Há espaço para pensar nos bósnios para lá da dupla física na frente. Lá atrás, Tarik Muharemovic é dos centrais que mais sai valorizado. Joga de pé esquerdo, ganha duelos e preenche a área. Tem um perfil subtil, contradizente à ideia do central enorme que é. Mais do que Bajraktarevic, que começou titular e terminou suplente, foi o Mundial para Alajbegovic se mostrar ao mundo. Poucas vezes teve o contexto ideal para brilhar, mais preocupado com os espaços a preencher no momento defensivo, mas conseguiu sempre arranjar ocasião para ser destaque. Na despedida, esteve perto de um canto olímpico. Tem tudo para ocupar o lugar de Edin Dzeko, que diz adeus aos Mundiais, pelo menos, como referência da Bósnia para os próximos anos. 

Diogo Ribeiro
Diogo Ribeirohttp://www.bolanarede.pt
O Diogo tem formação em Ciências da Comunicação, Jornalismo e 4-4-2 losango. Acredita que nem tudo gira à volta do futebol, mas que o mundo fica muito mais bonito quando a bola começa a girar.

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