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Méritos argentinos, deméritos ingleses | Inglaterra 1-2 Argentina


Falar em campos de batalha é sempre delicado quando o assunto envolve, em simultâneo, Inglaterra e Argentina. As recordações da Guerra das Malvinas, em 1982, continuam a estar presentes, fizeram questão de relembrar os jogadores argentinos depois do jogo. Ainda assim, e saltando, por dois segundos, o peso histórico das expressões bélicas, a meia-final do Mundial 2026 foi, por mais de 90 minutos, um campo de batalha com três frentes diferentes. Na mais importante, a última, a que decidia a guerra, a Argentina foi amplamente superior. Por aí se explica uma vitória com um roteiro que respeitou as duas seleções, mas congratulou os albicelestes.
O Mundial da Argentina é uma espécie de cliché em constante construção. Começou com tudo, esteve perto de cair contra os mais fracos, mas encontrou sempre forma de se reerguer com Lionel Messi, solto depois de quebrar o enguiço há quatro anos, a aparecer sempre nos momentos mais delicados. Foi, novamente – e agora contra uma seleção do mesmo patamar – o que aconteceu, mais coisa, menos coisa. Em termos clichés, tudo certo. Tudo, até a típica frase das duas partes distintas.
Os primeiros 45 minutos, retomando o belicismo, foram um exercício de choque mútuo, de confrontação física e de duelos por toda a linha. A bola, essa, ficou relegada para segundo plano, como se o objetivo do jogo fosse, ao final de contas, ver quem conseguia atingir mais vezes o adversário. Também aí houve estratégia e a Inglaterra foi mais feliz na sua marcação individual. Com Anthony Gordon e Morgan Rogers de fora para dentro a marcar os centrais, Harry Kane sobre Leandro Paredes, Jude Bellingham sobre Enzo Fernández e Declan Rice sobre Alexis Mac Allister, num encaixe mais longo, os médios argentinos ficaram condicionados e a bola chegou por poucas vezes a Lionel Messi, desta feita como falso 9. Com superioridade estratégica e os corredores mais dinâmicos, os ingleses tiveram o controlo territorial da partida, mas nem por isso sorriram. Aos 30 minutos, não havia um único remate. Coisa pouca.


Na segunda parte, o jogo mudou de figura, com o crescimento da Argentina. Logo nos primeiros minutos, Diego Simeone conseguiu uma aceleração a partir de posições mais interiores e Julián Álvarez, da esquerda para se deslocar em toda a largura, criaram perigo. Neste momento, foi Inglaterra a marcar. Não é incomum ver a seleção inglesa aproveitar estas sequências de aparente inferioridade para conseguir chegar ao golo, o mais fiel retrato – excetuando a ausência de Jude Bellingham da jogada – da intenção dos Três Leões para este Mundial.
Não demoraram muito segundos para a bola passar de estar no meio-campo inglês para fazer balançar as redes da baliza argentina. Harry Kane veio cá atrás e lançou a jogada. Perante a tentativa acrobática de Nicolás Tagliafico, mais um lance que correu mal por ser jogado no limite do risco, Declan Rice apanhou a bola e deu-lhe sequência numa das sequências de trás para a frente em condução. Depois, a procura do extremo no segundo poste, com uma jogada feita pelos dois jogadores do corredor, não é inocente. O cenário que já tinha acontecido noutros jogos, nomeadamente contra o México repetiu-se.
Aos 55 minutos, Thomas Tuchel cometeu o erro que definiu o rumo do jogo. Embora o selecionador dos ingleses tenha negado qualquer intenção em baixar linhas e abdicar do 2-0, o campo diz uma coisa totalmente diferente. Imediatamente a seguir ao golo, Djed Spence fez com que um desequilíbrio não redundasse no golo do empate. Depois do susto, chegou a aparente solução. Baixar linhas, defender a área e proteger ao máximo a baliza de Pickford. O 4-4-2 deu lugar ao 5-3-2 e ainda viria a experimentar o 5-4-1. Do banco, vieram Ezri Konsa, para permitir juntar os cinco defesas e, mais tarde, Dan Burn, o mais alto dos ingleses, e Nico O’Reilly, não para ser médio, mas para ser um segundo lateral. Ainda bem que Thomas Tuchel não quis defender o resultado. Imaginem se o quisesse.


Mais do que a estratégia, o problema foi a sua aplicação em campo. Do ponto de vista ofensivo, Inglaterra deixou de existir. Anthony Gordon, a melhor opção para esticar, foi o primeiro a sair. Jude Bellingham e Harry Kane, nomes maiores do Mundial inglês, passaram a jogar bem longe da baliza adversária. Entre os 55 minutos e os 90+2, altura da reviravolta, os ingleses tiveram 12% da posse de bola. Em cada minuto, Inglaterra tinha a bola por sete segundos. Os outros 53 foram passados nos pés dos argentinos. Uma estratégia deste tipo não é nova nem inovadora, mas tem de ser perfeita. Curiosamente, diz-se que a seleção que as tenta, procura evitar ao máximo os riscos. Pelo contrário. Joga consciente do risco que é a bola andar por tanto tempo a rondar a própria baliza. E, tamanho risco, não foi bem acautelado.
Lionel Messi não marcou, mas assistiu por duas vezes. Na estratégia inglesa, houve pouca clareza para pensar nas consequências que é deixar o 10 da Argentina jogar de frente para a baliza adversária, nas imediações da área e com pouca ou nenhuma pressão. Ficou mais fácil para o argentino das 1.001 soluções encontrar maneiras para a bola chegar à área. Depois, Lionel Scaloni, dentro do conservadorismo e da repetição das substituições, conseguiu aproximar a equipa da área adversária. Rapidamente chamou Nico González ao jogo para aproveitar o espaço entre John Stones e Reece James. Também por aí caiu Alexis Mac Allister, outra referência para as situações de cruzamento.
O principal mérito da Argentina esteve na forma como procurou meter a bola na área. Resistiu à tentação de acelerar o jogo, de cruzar sem ordem nem sentido e de ficar demasiado insaciável. Soube colocar pausa e cabeça. Aí, Enzo Fernández também fez uma exibição para encher o campo, recuperando bolas, preenchendo o meio-campo e dando saídas. Tentou, tentou, tentou até marcar um grande golo. Antes, brilhou Jordan Pickford e brilharam os postes, a adiar ao máximo um golo que era cada vez mais certo. Depois, ainda apareceu Lautaro Martínez. A redenção, iniciada na Copa América, ficou completa. Era estranha a alergia ao golo que vinha demonstrando um dos avançados com mais faro para a celebração no futebol mundial. O último passo, depois do melhor jogo dos argentinos desde que tudo começou a ser a eliminar, não é a final. É a Finalíssima. O futebol arranja sempre maneira de fazer cumprir os destinos.

