João Prates está na Tribuna VIP do Bola na Rede. É treinador de futebol, licenciado em Psicologia do Desporto e está no seu espaço de opinião no nosso site. O técnico de 52 anos já orientou o Dziugas da Lituânia, o Vaulen da Noruega e o Naft Maysan, do Iraque, e esteve na formação do Al Batin e Hajer Club da Arábia Saudita.
Quem me conhece sabe que adoro a Taça de Portugal. Recordo com saudade um Eléctrico – Sporting, no velhinho e pelado Estádio do Matuzarense em Ponte de sor, completamente cheio. Esse dia explica melhor do que qualquer discurso o que a Taça sempre representou no nosso futebol. A Taça sempre foi mais do que uma competição. Foi durante décadas o espaço onde o futebol recuperava a sua essência, igualdade à partida, imprevisibilidade e a possibilidade real de um clube pequeno desafiar e por vezes eliminar um grande como ainda esta época se viu.
Essa dimensão não é teórica. Vivi-a de forma intensa na Lituânia, quando tive a oportunidade de conduzir um clube pequeno, o FK Dziugas, pela primeira vez na sua história até às meias-finais da Taça da Lituânia. Vi de perto o que significa para uma comunidade acreditar que o impossível pode acontecer. Vi pessoas que nunca tinham assistido a uma meia-final, muito menos sonhado com uma final, viverem semanas de entusiasmo, orgulho e pertença.
E vi também a outra face da moeda. A tristeza e a desilusão após a eliminação frente ao clube que acabaria por vencer a competição. Ainda assim, aquela caminhada deixou marca. Mudou a forma como o clube passou a encarar a competiçao. Criou identidade, memória e ambição. É isso que uma Taça deve fazer.
Mas vivi essa realidade também em Portugal. No Atlético Reguengos frente ao Paços de Ferreira de Paulo Fonseca. Uma semana de preparação completamente diferente de qualquer outra. Os jogadores não viam aquele jogo como mais um. Viam-no como um palco capaz de mudar as suas vidas. Foi nesse contexto que um jovem chamado Diogo Jota fez ali o seu primeiro jogo. A Taça tem isso. Concentra sonhos, acelera percursos e cria momentos que ficam para sempre.


É precisamente isso que está em causa quando se fala de alterações estruturais à Taça de Portugal a partir da época 2026/27. A decisão das equipas da Primeira Liga entrarem apenas na quarta eliminatória é justificada pela necessidade de responder a um calendário internacional cada vez mais apertado e pelos interesses financeiros e desportivos do futebol profissional. O problema não está na justificação apresentada. O problema está nas consequências.
Quando se opta por proteger o topo da pirâmide em nome do calendário, altera-se inevitavelmente o equilíbrio da base. Ao entrarem mais tarde na prova, as equipas da Primiera Liga reduzem significativamente o risco competitivo, precisamente numa competição que sempre viveu do risco, da surpresa e do imprevisto. As surpresas nunca foram um problema do futebol português. Foram uma das suas maiores riquezas. São elas que criam memórias, mobilizam comunidades e dão visibilidade a clubes, jogadores e treinadores que fora da Taça dificilmente teriam palco.
Ao atrasar a entrada dos clubes profissionais, diminui-se a probabilidade dessas histórias acontecerem. Reduz-se a exposição mediática dos clubes pequenos, enfraquece-se o impacto territorial da prova e empobrece-se a narrativa que fez da Taça de Portugal algo único.
A Taça não deve ser vista como um incómodo logístico para quem compete na Europa. Deve ser entendida como um ativo estratégico do futebol português, precisamente porque liga o futebol profissional ao futebol real, vivido nos campos pequenos, nos estádios cheios de gente que raramente vê ali um grande clube. Se o futebol fala cada vez mais de meritocracia, torna-se difícil conciliar esse discurso com decisões que blindam quem já tem orçamento, profundidade de plantel e margem de erro. A coerência também faz parte da liderança. A pergunta final mantém-se simples e necessária. Queremos uma Taça de Portugal confortável ou uma Taça de Portugal verdadeira.
Porque a Taça não pertence apenas aos clubes profissionais. Pertence às pessoas, às comunidades e aos sonhos que só o futebol é capaz de criar. E quando o romantismo sai do futebol, fica apenas um produto eficiente. O futebol sempre foi mais do que isso. Na minha opinião todas as equipas deviam estar presentes desde a primeira eliminatória e equipas de Primeira Liga deviam jogar fora as três primeiras eliminatórias.

