Do Campo de Formação ao Mundo: A verdade que o Fórum de Treinadores da ANTF mostrou

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João Prates está na Tribuna VIP do Bola na Rede. É treinador de futebol, licenciado em Psicologia do Desporto e está no seu espaço de opinião no nosso site. O técnico de 52 anos já orientou o Dziugas da Lituânia, o Vaulen da Noruega e o Naft Maysan, do Iraque, e esteve na formação do Al Batin e Hajer Club da Arábia Saudita.

O treinador português não é produto de marketing, é produto de resiliência, adaptação e de qualidade. Foi isso que ficou claro no Fórum de Treinadores organizado pela Associação Nacional de Treinadores de Futebol, em Albufeira. Mais de mil treinadores reunidos no mesmo espaço não apenas para assistir, mas para partilhar, discutir e reforçar aquilo que nos distingue ao longo de décadas, uma identidade própria.

Ao longo de dois dias, revi colegas, partilhei experiências e confirmei aquilo que levo comigo há mais de onze anos fora de Portugal. O treinador português é hoje uma referência global, e isto não é teoria, é realidade. Quem trabalha fora sente-o no terreno, existe respeito, existe reconhecimento e, acima de tudo, existe confiança na capacidade do treinador português para se adaptar, resolver problemas e competir em contextos exigentes e diferentes.

Rui Borges
Fonte: Edmilson Monteiro / Bola na Rede

Mas essa valorização não começa no topo, começa no campo de formação. E foi precisamente aí que surgiram duas intervenções que merecem uma reflexão séria e que a mim pessoalmente foram pontos importantes deste Fórum e que merecem a reflexão de quem decide. Por um lado, o treinador Pepa expôs uma realidade que todos conhecem, mas poucos dizem de forma frontal. Muitos treinadores na base trabalham por valores como 75 ou 100 euros. Isto não é um detalhe, é o início de tudo aquilo que mais tarde se vê no futebol profissional.

Por outro lado, o discurso de Mara Vieira trouxe simplicidade e clareza a algo que muitas vezes é ignorado. Treinar crianças entre os cinco e os onze anos não é apenas ensinar futebol. É formar pessoas, criar hábitos, desenvolver bases motoras e emocionais que vão marcar todo o percurso e que nestas idades o que as crianças querem é brincar dentro do futebol.

E aqui entra uma questão que não pode ser evitada. Estaremos demasiado focados na elite? Falamos constantemente de rendimento, performance e resultados, mas esquecemos que tudo isso começa muito antes, longe das câmaras, longe do reconhecimento e, muitas vezes, sem condições. Queremos excelência no topo, mas não investimos de forma consistente na base.

Outro momento que me marcou no fórum foi a homenagem aos Magriços de 66 quando apenas 4 deles estão entre nós. Chegou tarde, mas chegou com o impacto certo. As palavras de Simões não foram apenas emocionais, foram um lembrete claro da importância da identidade. Sem memória não há continuidade. Sem identidade não há futuro.

E quando se fala da projeção internacional do treinador português, há um nome incontornável, José Mourinho. Mesmo sem estar presente, a sua influência esteve implícita em todo o fórum e na presença destes mais de 1000 treinadores. Foi ele que abriu portas e colocou o treinador português num patamar de reconhecimento global e o desejo de ser treinador. Antes de sermos tendência, fomos exceção, e essa exceção teve liderança.

O Fórum da ANTF foi mais do que um encontro. Foi um espelho do que somos hoje. Treinadores competentes, respeitados fora de Portugal, mas ainda com desafios internos que exigem decisões claras. A valorização internacional existe. Eu próprio vivo essa realidade há mais de uma década.

António Simões José Augusto Hilário
Fonte: Edmilson Monteiro / Bola na Rede

A questão é outra. Estaremos nós, internamente, a valorizar quem constrói essa reputação desde o início? O treinador português continuará a ser uma referência mundial. Mas essa referência não se sustenta apenas no que fazemos lá fora. Sustenta-se na forma como cuidamos da base, na forma como respeitamos quem começa o caminho e na capacidade de manter uma identidade forte. Porque a verdade é simples, o futebol profissional não se constrói no topo. Constrói-se onde quase ninguém quer olhar.

Parabéns à ANTF pela organização de excelência, um obrigado a todos que partilham as suas experiências e vivencias, e um obrigado aqueles que começaram este caminho e criaram a identidade que António Simões pediu para nunca ser perdida.

João Prates
João Prateshttp://www.bolanarede.pt
João Prates está na Tribuna VIP do Bola na Rede. É treinador de futebol, licenciado em Psicologia do Desporto e está no seu espaço de opinião no nosso site. O técnico de 52 anos já orientou o Dziugas da Lituânia, o Vaulen da Noruega e o Naft Maysan, do Egito, e esteve na formação do Al Batin e Hajer Club da Arábia Saudita.

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