Entre o banco e a direção: quando a liderança falha no futebol moderno

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João Prates está na Tribuna VIP do Bola na Rede. É treinador de futebol, licenciado em Psicologia do Desporto e está no seu espaço de opinião no nosso site. O técnico de 52 anos já orientou o Dziugas da Lituânia, o Vaulen da Noruega e o Naft Maysan, do Iraque, e esteve na formação do Al Batin e Hajer Club da Arábia Saudita.

O futebol moderno gosta de falar em projeto, identidade e liderança. Gosta de palavras grandes. O problema é que, na prática, continua a cometer erros básicos de governação. Um deles repete-se com uma frequência preocupante: contratar treinadores com uma ideia clara e, pouco depois, retirar-lhes o poder para a executar.

Os casos recentes de Ruben Amorim, Enzo Maresca e Xabi Alonso ajudam a expor um problema que vai muito além dos nomes. O problema não está apenas no banco. Está acima dele.

O erro começa na contratação

Quando um clube contrata um treinador, sabe — ou deveria saber — quem está a contratar. Conhece as suas ideias, a sua personalidade, o seu modelo de jogo, a sua forma de liderar e de tomar decisões. Se não conhece, então o erro começa logo aí.

A partir do momento em que a escolha é feita, há uma regra simples: ou se confia, ou não se contrata. O que não é aceitável é contratar um treinador para liderar um processo e, semanas depois, transformá-lo num mero executor de decisões alheias. Isto não é exigência competitiva. É incoerência estrutural.

Ruben Amorim no Manchester United
Fonte: Manchester United FC

Ruben Amorim: liderança exige coerência

No caso de Ruben Amorim, a questão nunca foi falta de ideias ou identidade. Pelo contrário. Sempre foi um treinador com uma visão clara, exigente do ponto de vista estrutural e consciente de que o rendimento desportivo depende da coerência entre discurso e ação.

Quando as prioridades do clube mudam — seja por pressões externas, instabilidade diretiva ou decisões políticas — o treinador deixa de liderar e passa a sobreviver. E quando isso acontece, o desfecho é quase sempre o mesmo: o treinador é o primeiro a cair, mesmo que não seja o principal responsável.

Enzo Maresca: identidade sem autonomia não existe

O caso de Enzo Maresca é ainda mais revelador. Um treinador com uma ideia de jogo bem definida, dependente de contexto estável, tempo e alinhamento interno. O problema surge quando se exige identidade, mas se condicionam escolhas.

Pressões para escalar determinados jogadores, decisões que não são técnicas, interferência constante no processo. Isto não é ambição desportiva. É sabotagem silenciosa.

Não se pode pedir a um treinador que construa algo e, ao mesmo tempo, retirar-lhe as ferramentas. Isso não é liderança. É microgestão. E a microgestão mata qualquer projeto.

Xabi Alonso: preparação não chega

Xabi Alonso representa uma nova geração de treinadores: preparados, taticamente cultos, com leitura de jogo e de contexto. Ainda assim, nem isso chega quando o poder real não está claramente definido.

Sem controlo sobre o processo, o treinador fica exposto. O nome muda, o perfil muda, mas o padrão repete-se. O problema não é a competência individual. É o modelo de decisão.

Xabi Alonso no Real Madrid
Fonte: Real Madrid

Manager ≠ Head Coach: a fronteira que muitos ignoram

Aqui está o ponto central. Manager e Head Coach não são a mesma coisa. Exigem lideranças diferentes e responsabilidades bem delimitadas.

A direção define o enquadramento estratégico: visão, recursos, objetivos e política desportiva. O treinador decide dentro desse quadro: modelo de jogo, escolhas e gestão do grupo. Quando esta fronteira é ultrapassada, o rendimento cai. Não por acaso, mas por consequência direta.

Uma verdade incómoda, mas necessária

Um clube que interfere sistematicamente nas decisões do treinador já começou a perder, mesmo que ainda esteja a ganhar jogos.

Conclusão: o problema não está só no treinador

O futebol não precisa de mais discursos sobre projeto. Precisa de estruturas adultas, capazes de delegar, confiar e assumir responsabilidades. Treinadores não precisam de proteção. Precisam de autonomia. E enquanto os clubes não perceberem isto, continuarão a despedir treinadores para esconder falhas que vêm de cima.

A pergunta final impõe-se: Quantos treinadores ainda terão de cair até o futebol perceber que o problema não está apenas no banco?

João Prates
João Prateshttp://www.bolanarede.pt
João Prates está na Tribuna VIP do Bola na Rede. É treinador de futebol, licenciado em Psicologia do Desporto e está no seu espaço de opinião no nosso site. O técnico de 52 anos já orientou o Dziugas da Lituânia, o Vaulen da Noruega e o Naft Maysan, do Egito, e esteve na formação do Al Batin e Hajer Club da Arábia Saudita.

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